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'O medo é como uma camisinha contra a livre criação', diz Iñarritu

Mexicano levou o prêmio de melhor diretor por 'Birdman'

Ubiratan Brasil - Enviado especial, O Estado de S. Paulo

23 de fevereiro de 2015 | 04h05

(Atualizado às 19h16) ENVIADO ESPECIAL / LOS ANGELES - Foi uma gargalhada geral – durante a entrevista coletiva depois da cerimônia de entrega do Oscar, no domingo à noite, 22, o cineasta mexicano Alejandro Iñárritu buscava explicar as três estatuetas (filme, direção e roteiro original) conquistadas especificamente por ele. Foi quando disparou a frase definitiva: “Acredito que o medo é a camisinha da vida. Ela não permite você aproveitar os momentos. Realizei Birdman sem medo e o resultado foi esse sucesso. Foi como fazer amor, garanto”, disse, enquanto a casa vinha abaixo.

Iñárritu tinha motivo de sobra para filosofar – além dos três prêmios (que o alçaram ao seleto grupo dos profissionais que venceram nestas três categorias, como mostra o quadro ao lado), o filme faturou ainda um outro, de fotografia, para o compatriota Emmanuel Lubezki. Com isso, não apenas afastou seu suposto maior concorrente, Boyhood (lembrado apenas na categoria de atriz coadjuvante, com Patricia Arquette), como empatou com O Grande Hotel Budapeste na conquista (quatro prêmios para cada um). E ainda mostrou uma incrível coerência dos membros da Academia de Hollywood que, mesmo votando separadamente, reconheceram a coesão daquelas quatro categorias que explica o sucesso do filme.

“Quando li o roteiro pela primeira vez, acreditei que a filmagem seria um pesadelo”, contou Lubezki. “Afinal, eram longas cenas sem nenhum corte, um experimento ao qual eu não estava acostumado. Deu certo porque Iñárritu é um artista curioso, que gosta de testar sempre novos caminhos.”

“Minha intenção era que o público fosse tomado pela jornada emocional desse ator, três dias antes da estreia de sua peça. Por isso não pensei em cortes nas cenas, pois distrairia a atenção”, completou o cineasta, que citou a influência, direta ou não, de diversos autores latinos que o acompanham ao longo da vida: Ernesto Sábato, Octavio Paz, Carlos Fuentes, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges foram alguns dos nomes. “Eles criaram uma tradição de escrita que construiu meu pensamento e, por isso, de alguma forma, fazem parte desse roteiro.”

O curioso é que nem o próprio diretor desconfiava de como ficaria o produto final, depois de tanta lapidação. “Confesso que, em muitos momentos, fiquei apavorado. Até chegar ao final, não sabia realmente como ficaria. Minha única certeza era que estava diante de uma obra muito importante para mim”, confessou.

Iñárritu sorriu quando questionado se haveria um Birdman 2. “De fato, vivemos uma fase no cinema marcado por super-heróis e suas sequências”, afirmou. “Mas é justamente contra isso que Birdman vai: uma história que fala sobre como podemos ser mais humanos.”

O assunto tornou-se mais sério quando foi lembrado um trecho do discurso feito ainda no palco – Iñárritu pediu mais dignidade aos imigrantes mexicanos que vivem nos EUA. “Rogo para que eles sejam tratados com o mesmo respeito recebido pelos que vieram antes e construíram essa incrível nação de imigrantes”, afirmou ele, coroando uma cerimônia marcada por discursos explosivos. 

O diretor mexicano, que começou a carreira profissional como DJ em uma rádio mexicana e que compôs trilhas sonoras para o cinema antes de estrear como cineasta, disse que levou na brincadeira a frase dita por Sean Penn (“Quem deu o greencard para esse cara?”) antes de anunciar Birdman como o melhor filme do ano. “Já trabalhamos juntos antes (em ‘21 Gramas’) e conheço bem o senso de humor de Sean.”

Cueca. O apresentador da cerimônia Neil Patrick Harris revelou que precisou usar um reforço na cueca para “que a luz não revelasse o que não devia”, durante a paródia a Birdman. “Não foi enchimento, como insinuaram alguns invejosos, eu apenas quis evitar que as pessoas descobrissem que sou judeu”, maliciou.

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