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‘O Marciano’ celebra o norte-americano como imperialista

'Perdido em Marte', novo longa de Ridley Scott, baseia-se no livro de Andy Weir sobre astronauta em uma missão em Marte

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

29 Setembro 2015 | 04h00

Existe um aspecto quase documentário muito interessante em Perdido em Marte. O novo longa de Ridley Scott baseia-se no livro de Andy Weir sobre astronauta que participa de uma missão em Marte. Sobrevém uma tempestade, os demais integrantes da missão acreditam que ele morreu e o abandonam no planeta chamado de ‘vermelho’. Mas Matt Damon, que faz o papel, conseguiu sobreviver e, com tenacidade, realiza dois movimentos – o de tentar a comunicação com a Terra e o de ampliar suas reservas de víveres para resistir em Marte, enquanto espera por socorro.

O roteiro constrói-se em muitas frentes, acompanhando o herói solitário, seus antigos parceiros em outra missão e o que, enquanto isso, está ocorrendo na agência espacial dos EUA, na Terra. Existem momentos em que esse roteiro beira o sublime. Em outros, toca a banalidade. Em mais de uma oportunidade, os esforços lá e cá descortinam uma possibilidade, e o relato a segue até que alguém faz alguma observação do tipo “O risco é ocorrer isso”, e o tal ‘isso’ vem na hora. Parece coisa de preguiçoso, mas Ridley Scott sabe criar uma narrativa visualmente excitante, misturando paisagens reais e muitos efeitos.

Muita gente (críticos?) está achando Perdido em Marte melhor do que Gravidade, de Alfonso Cuarón, ou Interestelar, de Christopher Nolan. Só podem estar brincando. Ambos possuem uma complexidade e uma grandeza que não existe no filme de Ridley Scott, por mais identificado com a geração ‘selfie’ que seja Damon. Mas convém ressaltar – com Alien, o Oitavo Passageiro e Blade Runner, o Caçador de Androides, em 1979 e 81, o diretor fez avançar a ficção científica na vertente de Stanley Kubrick, mais que na George Lucas, que já iniciara sua saga de Star Wars. Um aspecto curioso e quase sempre negligenciado de Alien é que um dos tripulantes na nave Nostromo – da oficial Ridley (Sigourney Weaver) – revela-se como um robô colocado a bordo pela empresa patrocinadora da expedição para garantir que o alienígena possa ser usado como arma mortal.

A guerra estava no primeiro longa do diretor, Os Duelistas, e depois voltou outras vezes, nunca de forma tão impressionante como em Falcão Negro em Perigo. É o filme de Scott que mais critica o establishment militar. Por efeito de comparação, levanta o grande tema embutido em Perdido em Marte. O filme trata do esforço humano pela superação, da segunda chance e da comunhão do indivíduo e do grupo. Mas também é, ou pode ser visto, como celebração, não autópsia, tipo Cidadão Kane, do norte-americano como imperialista.

Não por acaso chama-se O Marciano, no original. O personagem de Matt Damon, sozinho em Marte, repete a epopeia dos colonizadores e não apenas se apropria do território como planta, colhe, faz daquela a sua terra enquanto aguarda pelo eterno retorno (o tema hollywoodiano por excelência – de Scarlett O’Hara em ...E o Vento Levou até E.T. – O Extraterrestre, todo herói ‘americano’ está sempre querendo voltar para casa). Digamos que esse tipo de preocupação ou crítica ideológica parece em desuso num mundo induzido a não mais valorizar esse aspecto. Mesmo, eventualmente, concordando, o aspecto ‘documentário científico’, com excesso de plausibilidade e informação, soterra o drama humano. Ridley é melhor quando ‘delira’ em Alien e Blade Runner.

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