O mal-estar americano, pelo olhar feminino

O Tempo de Cada Um é um filme escrito e dirigido por Rebecca Miller. Sobrenome ilustre e, de fato, a moça é filha do grande Arthur Miller. Em geral talento não se transmite pelos genes, mas às vezes acontece. O filme é testemunho disso. Uma adaptação de um livro de contos escrito pela própria Rebecca, revela uma diretora fiel às raízes familiares. Ela, na trilha do pai, busca aquela América que escapa ao ufanismo oficial.Mostra pessoas que habitam muito abaixo do topo da pirâmide. Ou que se desesperam ou se perdem de si mesmas quando tentam chegar lá, ou se sentem asfixiadas pelo ar rarefeito da altitude social. Os personagens de Rebecca são deserdados da vida, como aquele caixeiro-viajante que seu pai imortalizou.São mulheres, três mulheres de aspirações muito diferentes, vividas por atrizes desconhecidas para o público brasileiro: Delia (Kyra Sedgwick), Greta (Parker Posey) e Paula (Fairuza Balk). Três histórias independentes, centradas de modo muito explícito no (problemático) universo feminino.Delia sofre com a violência do marido e resolve deixar a casa com os filhos. Vai morar na garagem de uma amiga e torna-se garçonete. Greta é editora de sucesso e sente que vai perder o marido em sua busca desenfreada pela ascensão social. Paula mora com um haitiano e mostra-se insegura sobre o relacionamento. Pira ao descobrir que está grávida e sai pela estrada onde dá carona para um rapazinho em condições muito piores do que as dela.Há uma arte da concisão neste tríptico de Rebecca Miller. Parece bem interessante a maneira como ela mobiliza flash-backs rápidos, quer dizer, as voltas ao passado, para reconstituir com eficácia e sem perda de tempo as vidas das personagens. Sabemos que todas elas vêm de famílias falhadas, em um sentido ou outro. Há uma carência paterna evidente e constante nas raízes dos dramas das personagens. Pais alcoólatras, fracos, covardes, ou, pelo contrário, seguros de si a ponto de se transformarem em monstros de egoísmo.Rebecca não diz - e nem deveria porque não se trata de uma tese -, mas insinua que não existe normalidade possível na maneira moderna como a vida se estrutura. São casos particulares, que não podem ser generalizados? Não parece. Uma pessoa como Greta, a editora, teve a melhor educação possível. Filha de um advogado famoso, que abandonou a mãe por outra, ela mesma se torna uma devoradora de homens. Ou seja, alguém cuja carência não tem limites. Subir, subir, subir, não importa como, é o lema. É comovente o momento em que ela toma consciência de que irá jogar no lixo um casamento satisfatório apenas pela boa e suficiente razão de que não consegue controlar sua ambição.Não há tanta oscilação de técnica entre um episódio e outro. A opção realista de vez em quando é quebrada por algum artifício de distanciamento - aqueles que "relembram" o espectador de que ele tem uma narrativa diante de si e não a própria vida. Nenhuma novidade, a não ser que se recorde da regra de ferro do cinema norte-americano, que é a do estrito realismo: é preciso sempre convencer o espectador de que ele está diante de uma "história real", na qual se identifica com o personagem central e se esquece de que aquilo não é a vida em si mas a sua recriação.Mas, claro, não estamos aqui no domínio rotineiro do cinema comercial. Aquele cinema de grandes orçamentos, apoiado em nomes estelares, milhões de dólares e roteiros administrados por especialistas da escola Syd Field. Tudo para não dar errado, e que acaba dando com os burros n´água em 90% dos casos.Em O Tempo de Cada Um, ao contrário, estamos (sempre no contexto do cinema americano) no espaço da ousadia. Não existem aquelas rupturas formais à européia, digamos, mas a novidade está na temática adulta, na maneira desinibida como a narrativa é conduzida, nos diálogos enxutos, diretos, sem medo do confronto. Cinema de raça, que não tem medo de errar e, exatamente por isso, acerta com freqüência. Melhor jogar no ataque do que administrar resultados. Mesmo porque, esses resultados, em termos do cinema mainstream, são para lá de medíocres, e não param de piorar.

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