"O Maior Amor do Mundo", um grande filme de Cacá Diegues

Cacá Diegues vai perdoar a pequenaindiscrição do repórter. No ano passado, durante as comemoraçõesdo ano do Brasil na França, ele foi homenageado, no Forum desImagens Les Halles, em Paris, com uma retrospectiva de sua obra.No dia em que debateu com o público, passava seu segundo longa,"A Grande Cidade", de 1965. Diegues não via o filme há muitotempo. Viu e gostou. Achou muito bom - "mas não publica issoporque vai parecer muito presunçoso da minha parte". Não épresunção e vale revelar o que diz o cineasta porque seu novolonga, "O Maior Amor do Mundo", que estréia nesta quinta-feira em salas de todo o País, pertence à vertente de "A Grande Cidade". "O Maior Amor do Mundo" é o 16.º longa de Cacá e seu 17.ºfilme, se for computado o curta "Escola de Sangue Alegria deViver", episódio de "Cinco Vezes Favela", bem no começo dacarreira do diretor. A cidade como espaço da desigualdade, ointimismo, a importância atribuída à música, tudo aproxima osdois filmes. Cacá tem razão - "A Grande Cidade" é um belo filme(e você pode revê-lo na retrospectiva que a Sala Cinematecadedica ao cineasta), mas "O Maior Amor do Mundo" é melhor. Nãopor acaso, recebeu nesta terça-feira o prêmio de melhor filme no Festival deMontreal. O Brasil inteiro cabe dentro desse filme e o maioramor, você vai ver, é aquele pela vida.Filme tem origem em ´Deus é Brasileiro´ Sua origem está numa história dentro da história de"Deus É Brasileiro". Você talvez se lembre daquele homem quesabe que está morrendo e, de raiva, angústia, frustração,destrói a casa. "Estava sem nenhum projeto depois de ´Deus ÉBrasileiro´ e aí aquela história começou a crescer dentro de mim Achei que o personagem merecia um filme inteiro. Achei que seucomportamento poderia mudar." Foi um filme escrito, produzido,dirigido e montado com urgência - dois anos ao todo. "Em geral,o processo de um filme é demorado, mas esse me saiu mais rápido" O que não significa que não tenha sido feito no capricho. JoséWilker, que faz o papel principal, diz que Cacá é um diretor quesabe exatamente o que quer. "A filmagem foi muito prazerosa,muito tranqüila. Cacá estava seguro nas orientações. Sabiaexatamente o filme que queria fazer." "Estudo muito o roteiro", explica o diretor, que costumafazer pequenos ajustes nos diálogos, em função dos atores queescolhe. Ele definiu o conceito com o diretor de arte e o defotografia, ensaiou com os atores - planejou muito para ficar àvontade na hora da filmagem. "Gosto muito de uma coisa que o(Federico) Fellini disse. Um jornalista perguntou se eleimprovisava e o Fellini disse que sim, mas antes ensaiava muito".História de um astrofísico que volta ao Brasil "O Maior Amor do Mundo" conta a história desseastrofísico que vive no exterior e volta ao Brasil para umahomenagem. Ao descobrir que está morrendo, o herói, que é filhoadotivo, procura o pai e, por meio dele, tenta resolver omistério de sua origem biológica, buscando a mãe. Sua busca oleva ao mundo da favela e da marginalidade. Há uma surpresa queé bom não revelar para não estragar a emoção do desfecho. A favela é, mais uma vez, o inferno na obra de Cacá e abusca de José Wilker o leva a reproduzir um tema freqüente naobra do diretor - o de Orfeu, descendo ao inferno em busca dasua amada Eurídice. Em "A Grande Cidade", é a retirante quebusca, no morro, o namorado que virou bandido, Jasão. Em "UmTrem para as Estrelas", "Orfeu" e, agora, "O Maior Amor doMundo", o tema mítico volta a se impor para o cineasta. "Gostomuito desse mergulho no inferno, desse se arriscar em nome doamor. Não se constrói uma utopia sem risco nem sacrifício e achoque é isso que me atrai tanto no Orfeu." São coisas que eleconsegue racionalizar depois, mas um tanto difíceis deverbalizar durante o processo criativo.Mais difícil, mais denso, dramático Na obra do diretor, é freqüente que filmes extrovertidos como "Xica da Silva" e "Deus É Brasileiro", sejam seguidos poroutros mais intimistas e até sombrios, como "Chuvas de Verão" e"O Maior Amor". Mas Cacá não planeja essas coisas, ou nãoplaneja assim. Elas acontecem, muitas vezes de forma intuitiva.Ele foi construindo "O Maior Amor" e saiu essa mistura de"Orfeu" e "Chuvas de Verão". É um filme de um formato maisdifícil, mais denso, dramático, mas é bobagem ficar dizendoessas coisas que talvez assustem o público. "É uma história queeu acho que valia contar e que, espero, comova tanto as pessoascomo comoveu a mim, enquanto fazia." Cacá não quer ser escravo do mercado, dessa idéiaabsurda de que é preciso fazer filmes para 1 milhão deespectadores. Ele até espera que "O Maior Amor" seja visto pormuita gente, mas não é para acrescentar novo triunfo aocurrículo e sim, porque acha que, no atual estado deesgarçamento das relações humanas e sociais no País, a estéticae a ética têm de ser outras. Tendo surgido no Cinema Novo - tendo feito com GlauberRocha a revolução do Cinema Novo -, Cacá Diegues fez filmesalegóricos, carnavalescos, utópicos, sombrios. Eles sãodiferentes, mas possuem unidade. São obras de um autor. "Nãogosto de rever meus filmes, mas às vezes ocorre ter de ver,porque vou fazer uma palestra, participar de um debate. Nãogosto de ver porque a gente está sempre em mutação e é raro ofilme que você não quer mudar. Mas eu tenho o maior orgulho dosfilmes que fiz, nas condições em que fiz. Todo filme é sempreproduto de um momento." Belo, como reflexão sobre o homem e omundo, como realização, "O Maior Amor" não tem a beleza visualde outros trabalhos do diretor. A imagem é propositalmente sujae feia. Em "Orfeu", Cacá construiu uma favela cenográfica porqueera arriscado invadir a favela real, como exigia a trama dofilme. Aqui, de seus primeiros encontros com o diretor de arteTulé Peake e o fotógrafo Lauro Escorel surgiu a decisão de que ofilme seria feito em locação.Visão assombrosa da miséria brasileira Na tela, surge essa visão assombrosa da misériabrasileira, o lixão que se opõe ao mundo de classe média do paide Antônio, o protagonista, e ao mundo do poder e do dinheiro noqual ele, como astrofísico, circula, na sua volta ao País. Cacáfez um filme com a cara e as contradições do Brasil. Suaindignação pelo País dos miseráveis é premente, mas "O MaiorAmor" não é panfletário. É obra da maturidade de um artista emsintonia com sua época. Cacá cavucou no baú das lembranças. Aimagem da derrota do Brasil na Copa de 1950 é coisa que elecarrega - naquele dia, Cacá viu seu pai chorar, como chorava opovo brasileiro. "É uma coisa muito forte. Metaforicamente, todaa grande cultura brasileira, o carnaval, a música, o futebol, ésempre obra dos derrotados socialmente", ele diz. A recusa do jovem Antônio em participar da guerrilhagera uma das cenas mais emocionantes do filme - quando ele, comohomem maduro, dedica a homenagem que está recebendo ao antigoamigo guerrilheiro e diz que deve ser belo morrer jovem, poraquilo em que se acredita. Não é um filme autobiográfico, masgeracional. Cacá usa o rap na trilha, mas também usa ChicoBuarque, parceiro em "Quando o Carnaval Chegar", "JoannaFrancesa" e "Bye-Bye Brasil". "Não pensei nisso durante arealização, mas depois tive muito essa sensação de que era umfilme da nossa geração, o filme que o Chico faria, se fossecineasta, em vez do grande músico e escritor que é." O desafio está lançado. "O Maior Amor do Mundo" abre oque promete ser uma temporada de grandes filmes brasileiros.Logo em seguida virá o Festival do Rio, com essa grande vitrineda produção nacional que é a Première Brasil. Há muitaexpectativa pelos filmes que serão exibidos lá, por "Antônia",de Tata Amaral, por exemplo. Já existem certezas, como odelicado "O Céu de Suely", de Karin Aïnouz, e o emotivo "Eu meLembro", de Edgar Navarro. Nem Cacá nem Karin e muito menosNavarro estão no mainstream do cinema brasileiro atual, comesses filmes, mas todos têm em comum a tristeza (além da altaqualidade). Uma cinematografia que produz filmes como os delessó pode estar no bom caminho. O Maior Amor do Mundo (Brasil/2006, 106 min.) - Romance. Dir. Cacá Diegues. 16 anos. Cotação: Ótimo

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