'O Longo Amanhecer' conta história de Celso Furtado

Economista é homenageado em documentário que recebeu menção honrosa no festival ‘É Tudo Verdade’

Cley Scholz , Agência Estado

08 de abril de 2004 | 16h29

O que explica que um País rico e vasto como o Brasil tenha tanta miséria? O que impede o povo brasileiro de romper o ciclo de pobreza que o acompanha desde os tempos coloniais? Por que os juros são tão altos se a economia precisa crescer para gerar empregos? Essas são algumas das perguntas sobre as quais se debruçou durante toda a sua vida o economista Celso Furtado (1920-2004), um dos maiores pensadores da história do Brasil, homenageado em documentário que recebeu menção honrosa no festival ‘É tudo verdade’ (estréia sábado, 5, nos cinemas).   Trailer de 'O Longo Amanhecer - Cinebiografia de Celso Furtado'  O documentário O Longo Amanhecer, Cinebiografia de Celso Furtado - título homônimo de uma coleção de ensaios do autor - reúne depoimentos inéditos do economista com imagens de arquivo da história do Brasil nas últimas décadas.  Em depoimento gravado poucos meses antes de morrer, Furtado explica por que resolveu seguir o caminho que o levaria a tornar-se três vezes ministro, professor da Universidade Yale e catedrático em desenvolvimento econômico pela Universidade de Paris, onde lecionou por duas décadas durante o exílio. Nascido em Pombal, no interior da Paraíba, ele conta que descobriu muito cedo a vocação para as letras. Pensou em escrever ficção ou textos para o teatro, mas chegou à conclusão de que a melhor alternativa seria escrever ensaios. Seu desejo era captar o essencial da realidade e ajudar a transformá-la. "Percebi que o ensaio era muito mais forte, era onde minha cabeça podia ser mais frutífera", comenta. "Percebi que meu caminho não era a ficção, mas captar a realidade através da análise, entender o Brasil e transformar o mundo real em exercício mental." Furtado sempre usou a força do seu pensamento e dos seus ensaios para tentar mudar a realidade brasileira, estudando alternativas para a superação da miséria. Mas, se ele buscou dentro de si a forma mais eficaz de defender suas idéias, o filme em sua homenagem peca ao não fazer o mesmo. O documentário teria sido mais eficaz (atraindo público maior) se aproveitasse melhor as imagens da transformação econômica no período em que o protagonista viveu, desde a formação em direito no Rio, no final dos anos 40, passando pela experiência no Chile, quando ajudou a fundar a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas ), a participação no governo Juscelino Kubitschek , a experiência como primeiro ministro do Planejamento do Brasil, no governo de João Goulart, o exílio no Chile e depois na França e o retorno ao Brasil após a anistia, quando voltou ao governo como ministro da Cultura de José Sarney. Com depoimentos algumas vezes tediosos e mal editados, o filme não deve conseguir atrair ninguém que já não seja admirador de Furtado.  Para quem sabe da importância do autor na história do Brasil, o filme de pouco mais de uma hora dirigido por José Mariani é não só marcante e emocionante como muito oportuno. O debate das idéias do autor , com a participação de economistas importantes como Antonio Barros de Castro, João Manuel Cardoso de Melo, Maria da Conceição Tavares e outros, mostra que desde os anos 50 o País já enfrentava o atualíssimo debate entre os chamados monetaristas e desenvolvimentistas. O assunto está muito presente nos cadernos de economia nos últimos tempos, com os monetaristas defendendo juros altos para segurar a inflação e os desenvolvimentistas pedindo incentivo à produção para garantir crescimento e redução do desemprego.  Também continua oportuna a tese de Furtado que deu origem à identidade da região Nordeste, no final dos anos 40, quando ele convenceu JK a parar de fazer obras contra a seca e a criar a Sudene para ajudar a região a se desenvolver convivendo com o clima típico da região. Segundo a economista Maria da Conceição Tavares, Furtado foi o único brasileiro exilado por patriotismo: "Radical nas idéias, não vendeu a alma ao diabo."   O Longo Amanhecer - Uma Cinebiografia de Celso Furtado (Brasil/2007, 73 min.) - Documentário. Dir. José Mariani. Livre. Cotação: Bom

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