O lixo como metáfora da vida em ‘Entre Vales’

Longa de Philippe Barcinski fala de perdas e reconstrução

Flavia Guerra , O Estado de S. Paulo

09 de maio de 2014 | 20h28

Entre Vales, segundo longa de Philippe Barcinski, é um filme de sensações. Do desapego e deslocamento que o personagem Vicente (Ângelo Antônio) vivencia até as experiências físicas e radicais pelas quais ele passa ao deixar a rotina de empresário e viver em meio ao lixo.

 

Já nas primeiras cenas, quando Vicente mergulha em um mar de dejetos materiais e emocionais, é quase possível sentir o mau cheiro que ele também sente ao se juntar a um grupo de catadores de um aterro sanitário. "Mas o fedor não era o pior. Difícil mesmo foi pisar naquele chão instável, a textura dos materiais, meio moles, os urubus, o barulho dos caminhões, dos tratores. Eu tinha sonhos com aquilo", comenta o ator, que relembra que a principal cena noturna do filme, em uma madrugada, foi "uma verdadeira descida ao inferno". "Experimentei sensações que até hoje me voltam quando ouço o sinal de caminhão dando a ré", conta.

Em Entre Vales, ele é um economista especializado em análise do potencial econômico de futuros aterros sanitários. Pai de Caio e marido da dentista Marina, seu cotidiano é confortável até sofrer grandes perdas, que o levam a caminhos tortuosos. São estes que o conduzem ao lixão e às cooperativas de reciclagem.

Não foi por acaso que Philippe Barcinski escreveu o roteiro de Entre Vales (com Fabiana Werneck Barcinski) pensando no lixo e em sua simbologia. "Em 1991, fui ao aterro sanitário de Gramacho (fechado em 2013, onde o filme foi rodado), no Rio, para fazer pesquisas para um documentário, que acabou não acontecendo. Era a época em que Eduardo Coutinho filmava Boca do Lixo e Marcos Prado fazia Estamira lá", conta o diretor. "O assunto era pouco conhecido. E fiquei muito impactado. Pensei que, se conseguisse fazer um filme que passasse 1% das minhas sensações, já valeria a pena", relembra Barcinski.

O diretor percebeu que havia no lixo várias histórias de perdas, de filhos, família, emprego... "A vida os levou para lá. Quando mudei para São Paulo, vi muitos carroceiros na rua. E cheguei até as cooperativas, que também me surpreenderam. Mas, em vez de perda, eram de reconstrução, de quem estava retomando a vida", continua. "E aí a ideia. E se eu contasse a história de alguém que perde tudo? Que incrível o lixo ser um ímã. O lixão, de perdas, e a cooperativa, de recomeço. Em um ambiente tão rico sensorialmente. E, aos poucos, a gente entende quem Vicente é, em uma história na qual o tempo é dilatado. Tudo o que acontece tem bastante força."

::: Cultura Estadão nas redes sociais :::
:: Facebook ::
::  Twitter ::

 

‘Experiência foi transformadora’, diz Ângelo Antônio

Quem é o Antônio (ou Vicente)?

É um homem que se desconstrói e reconstrói. Podemos nos tornar pessoas completamente diferentes do que somos. Há lugares na gente que não sabemos que existem. Em situações-limite, somos capazes de tudo. Isso é assustador.

Para as filmagens, você literalmente se jogou no lixo. Como foi isso? Teve medo de pegar alguma doença, de se machucar?

Foi transformador. Não tive medo de ficar doente. Tomamos todas as vacinas, usamos botas, luvas, etc. Era preciso me jogar. Difícil foi entender o universo, ganhar o respeito das pessoas. Fizemos uma grande preparação. Foi lindo quando, um dia, um catador me disse: "Você já está igual à gente. Achava que ator servia só para beijar atriz bonita’.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.