"O Livro da Vida": apocalíptico, irreverente e demolidor

Ele já foi chamado de Jean-Luc Godard do cinema americano, de Jim Jarmusch dos anos 90. Durante boa parte de sua carreira, o problema do cultuado Hal Hartley talvez fosse convencer o público e os críticos de que tem luz ou identidade própria, sem necessidade de estar sendo sempre comparado ao grande revolucionário franco-suíço da linguagem e da política ou ao mais cool dos independentes americanos surgidos nos anos 80. Talvez por viver cercado da desconfiança dos críticos, Hartley fez da confiança a pedra de toque do seu cinema. Não por acaso, um de seus filmes se chama justamente Confiança (Trust). O tema volta, mesmo que não de forma tão aberta, em O Livro da Vida.É o episódio de Hartley para o projeto Missão para Comemorar o Ano 2000, que resultou na série O Ano 2000 Visto por... Vale lembrar rapidamente - diretores de todo o mundo, entre eles os brasileiros Walter Salles e Daniela Thomas, foram convidados pela rede francesa La Sept Arte a fazer filmes sobre o réveillon do ano 2000. O de Hartley é um dos mais originais. No último dia do ano passado, Jesus desembarca em Nova York com uma bela assistente, uma certa Madalena. O réveillon do ano 2000 seria o fim da vida? Hoje se sabe que não foi, mas havia gente que acreditava que talvez pudesse ser. O Cristo moderno de Hartley possuía a resposta e lutava, de terno, gravata e laptop, pela salvação da humanidade. O filme tem a marca de um dos autores mais interessantes dos anos 90.Hartley trabalhava havia dois anos numa peça sobre cristãos milenaristas, quando recebeu o convite de La Sept Arte. Por sua experiência, baseada em pesquisas de campo e documentação, ele sabia que essas pessoas aguardavam o que, para elas, seria o fim do mundo com alegria, na expectativa de um julgamento de Cristo sobre os vivos e os mortos. Havia coisas que Hartley não conseguia encaixar no seu projeto de peça. Desviou-as para o filme que Arte lhe encomendava.Controvérsia - A história propõe uma reinterpretação - controversa, para dizer-se o mínimo - do Apocalipse. O tema foi tratado com som e fúria, e a banalidade de praxe, por Hollywood em filmes como Fim dos Dias e Stigmata. Ambos, é bom dizer, estão entre os favoritos do público de DVD e vídeo. Ao lançar O Livro da Vida, Hartley tinha consciência de que seu filme passaria despercebido pelo público americano, mais ocupado em acompanhar a última aventura guerreira de Arnold Schwarzenegger. Mas ele também dizia que O Livro da Vida encerrava um desafio jocoso para os programadores de TV dos EUA. Esperava, sinceramente, vê-lo na telinha.Quem acompanha o diretor que foi preferido do público na Mostra Internacional de Cinema de 1991 (com Trust) sabe que confiança é uma palavra-chave no vocabulário de Hartley. Seus filmes tratam quase sempre das mesmas obsessões - relações familiares desgastadas, vidas vazias, pessoas feridas que olham para o outro com desconfiança, senão hostilidade. Como possibilidade de redenção, o autor coloca a confiança que lhe é tão cara. Sem ela, a humanidade está condenada à solidão. Não é porque os personagens de O Livro da Vida sejam Jesus e Madalena que o novo filme deixa de incorporar preocupações tradicionais do diretor.Hartley sempre foi considerado cool até o limite do gélido. Admite que descobriu a emoção com Henry Fool, mas o filme de 1998 - o mesmo ano de O Livro da Vida - não ampliou muito o círculo de iniciados que admiram seu cinema. Ele aceita ser chamado de godardiano, mas também paga tributo à influência de Robert Bresson, a quem admira até mais. Acha Godard divertido gosta de suas sutilezas, da maneira de ver a vida e o cinema. Mas assume que diferem num ponto fundamental - Hartley busca inspiração nos próprios filmes. Suas idéias saem sempre dos filmes que já fez e que ele retrabalha para fazer novos filmes.O Livro da Vida é apocalíptico, irreverente e demolidor, mas o espectador quase não se dá conta disso, ou absorve o impacto sem trauma, porque Hartley não coloca ênfase nenhuma no que diz ou faz. Bem e mal digladiam-se no mundo tecnológico desse filme. A ironia mescla-se ao que não deixa de ser uma discussão filosófica sobre a possibilidade de redenção do homem. O Jesus de Hartley, interpretado pelo ator-fetiche do diretor (Martin Donovan), é um católico relapso que desembarca no aeroporto de Nova York acompanhado da sua Madalena. É um executivo que vem numa missão especial do pai - justamente avaliar se a humanidade merece ser salva. O Diabo, interpretado por Thomas Jay Ryan, ronda seu caminho e o filme desenrola-se num caleidoscópio de imagens embaladas pela música ´pulsante´ - à falta de uma definição melhor -, que desempenha um papel fundamental na trama.Justificando Polly Jean, Ben Watt, Georgia Hubley e Ira Kaplan, diz que deixou que a música interferisse no que escrevia e assim ela influiu na direção, condicionando suas reações aos ambientes e até o método de movimentação cênica dos atores. Talvez não seja o melhor Hartley, que por sua vez também talvez seja um cineasta supervalorizado. Mas coloca temas pertinentes e que merecem atenção. Não são só as questões filosóficas e morais. A própria questão estética, também. Hartley usa tecnologia digital, ampliada para a bitola de 35 mm. Faz, portanto, o cinema que está na moda. O Livro da Vida é suficientemente pessoal e atraente para satisfazer o público que se acostumou a idolatrar o diretor.O Livro da Vida (The Book f Life). Drama. Direção de Hal Hartley. EUA/98. Duração: 63 minutos. 14 anos

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