O legado de Johnny Cash, tema do filme Johnny e June

A biografia de Ray Charles (1930-2004) chegou às telas um ano depois de sua morte. JohnnyCash (1932-2003) levou mais tempo. Marvin Gaye (1939-1984) deveser o próximo. A morte de ídolos da música, bem como suasbiografias no cinema, sempre se mostraram infalíveis para dar umgás nas vendas de CDs. Ainda mais quando as duas situações sãoseqüenciais. Só que ultimamente o mercado discográfico parecenão estar muito em sintonia com o interesse que estespersonagens - e obviamente seu legado de clássicos - despertamno público nessas ocasiões. Pode ser até que a memória coletivase acomode tão logo o filme saia de cartaz, mas para quemrealmente vai fundo na questão é lamentável uma boa oportunidadeperdida. O sucesso fenomenal de Ray puxou a venda da trilha dofilme, mas não foi incentivo suficiente para as gravadoraslançarem (e isto não apenas no Brasil) os títulos originais deRay Charles, muitos deles imprescindíveis. Johnny Cash teve mais sorte (nos Estados Unidos). E oque ele deixou em 50 anos de carreira não é pouco: em quantidadee qualidade. Uma boa introdução a sua obra pode ser encontradanas lojas brasileiras. Trata-se da compilação Ring of Fire -The Legend of Johnny Cash (Universal). Ali estão os originaisde clássicos que Joaquin Phoenix canta no filme, como Cry, Cry,Cry (seu primeiro single), Folsom Prison Blues, I Walk theLine (todas produzidos por Sam Philips na Sun Records entre1955 e 56), além do dueto com June Carter em Jackson, de 1967. É uma boa panorâmica, que vai de Cry, Cry, Cry até apungente versão de Hurt, do Nine Inch Nails, incluída noderradeiro álbum American IV: The Man Comes Around, tambémlançado no Brasil, em 2002. Na compilação há duas sensacionaisfaixas ao vivo. Uma delas, A Boy Named Sue, narra com ironiaos constrangimentos de um rapaz por ter sido batizado com umnome feminino. A gravação é de 1969, distante de qualquer alusãoà sutileza de Brokeback Mountain. A outra é San Quentin, emque ele diz que odeia cada polegada do lugar. As duas canções foram gravadas num concerto no presídiode San Quentin em fevereiro daquele ano. No ano anterior ele játinha gravado Johnny Cash at Folsom Prison, um de seus álbunsmais populares. Imagine a reação dos presidiários diante de taistemas. Foi a primeira vez que ele cantou A Boy Named Sue, quese transformou em hit instantaneamente. Cash vivia então seusegundo pico de popularidade. Como se pode constatar ouvindo aíntegra do concerto - lançado em CD em 2000, com nove faixas nãoincluídas na versão original - ele se mantinha em grande formavocal. Dos anos 70, período em que entrou em declínio, há poucoo que destacar. Dessa fase, o CD Ring of Fire traz A Man inBlack (1971) e a bela A Thing Called Love (1972), depoissalta para Highwayman (Jimmy Webb), de 1985, quando formou abanda The Highwaymen com Willie Nelson, Waylon Jennings e KrisKristofferson, fazendo relativo sucesso. A canção não é atébacana, mas como a maioria do que ressurge daquela década, soadatada. Em 1993 veio o encontro com o U2 na densa The Wanderer extraída do álbum Zooropa. Daí para a frente, Cash surpreende ao gravar covers deautores de gerações mais novas como os incluídos na sérieAmerican Recordings de álbuns acústicos produzidos por RickRubin: One (U2), Personal Jesus (Depeche Mode), Rusty Cage (Soundgarden). Com a dor expressa no canto (sem jamais perder abeleza), Cash já passava então por sérios problemas de saúde.Morreu de complicações decorrentes do diabetes, quatro mesesdepois de June Carter. Foi a voz mais sublime do country e,conseqüentemente, de todo o cancioneiro americano.O filme - Cinebiografia de Johnny Cash, uma lenda da música country norte-americana, chega aos cinemas brasileiros com Joaquin Phoenix e Reese Whitterspoon disputando o Oscar em suas respectivas categorias de melhor ator e melhor atriz. Na tela, o espectador acompanha o tumultuado romance entre o cantor e sua mulher, a também cantora June Carter. Phoenix canta todas as músicas do filme.Serviço - "Johnny & June" (Walk the Line, EUA/2005, 136min.). Drama. Dir. James Mangold. 14 anos. Em grande circuito.Cotação: Bom.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.