"O Ladrão": drama familiar na URSS do pós-guerra

Uma criança à procura do pai. Parece coisa já vista e pode soar até como alarme contra a pieguice, não é? No entanto, O Ladrão, do russo Pavel Chukhrai, é a negação desse preconceito inicial. Se de fato o filme (indicado para o Oscar de filme estrangeiro, ganhador do Felix e de três troféus em Veneza) centra-se na discussão da figura paterna, o faz sem nenhuma concessão melodramática. Ao contrário.A história é ambientada no duro pós-guerra da então União Soviética. É narrado em off, por um personagem que recorda sua infância, passada naquele tempo. Os primeiros planos são de gelar a alma. Numa paisagem desolada, de inverno russo, uma mulher deita-se no solo para parir uma criança. É viúva de um soldado, e mãe do narrador. Mulher e recém-nascido se arrastam por um um país semidestruído, tentando encontrar um lugar quente para dormir, alguma comida para sustentar-se. Seis anos depois, Katya conhece um soldado, Tolya, num trem. Passam a viver juntos. O garoto, Sanya, passa a relacionar-se com Tolya como se este fosse seu pai.Até aí, nada, a não ser aquela relação sempre complicada pelo menos em princípio, entre criança e padrasto. Um elemento complicador põe um tanto mais de tempero à trama: aos poucos, Katya vai percebendo que o homem por quem se apaixonou vive de um expediente heterodoxo. É ladrão, amigo do alheio. Muito simpático, ganha a confiança das pessoas nas habitações coletivas onde moram. Depois, com a casa vazia, alivia os vizinhos dos seus pertences e, claro, obriga a família a mais uma viagem forçada.Esta história terá alguns desdobramentos que não convém contar. O mais interessante, mesmo, é a observação do relacionamento entre o garoto Sanya e seu padrasto. Em dois tempos: primeiro na infância, depois na adolescência, quando eles se reencontram depois de uma separação.Sanya logo percebe quem é o pai que o destino lhe reservou. A relação, como se disse, é ambígua, nada linear. Isso porque o garoto, por um lado, incorpora as críticas que a mãe faz ao homem e ao, digamos, ramo de atividade a que resolveu dedicar-se. Por outro, sucumbe ao charme do padrasto, homem capaz de um gesto de carinho, que se segue a outro de violência.Não é menor, também, o sentido de observação de Chukrai da União Soviética no pós-guerra. Como se sabe, talvez tenha sido o país que maior preço pagou pela vitória contra os nazistas. Contam-se cerca de 20 milhões de mortos, entre civis e militares. Na gélida Rússia, pessoas morriam como moscas em cidades sitiadas como Stalingrado e Leningrado. Frio e fome formavam o binômio fatal, que continuava operante na dura reconstrução após a vitória.O cineasta adota um olhar bem realista para descrever essas cenas. As casas velhas, precárias, pelas cidades, transformadas em habitações coletivas. Remanescentes do exército perambulando ao léu, enquanto outros tratam de aproveitar-se de um status recém-conquistado. Preparam-se para ocupar postos na Nomenklatura, que iria fortalecer-se depois de encerrada a guerra. E há a arraia-miúda, que vaga de cidade em cidade, sem outro objetivo que não matar a fome e o frio de cada dia. É assim o trio formado por Sanya, Katya e Tolya. Outsiders de um país que deveria recomeçar, senão do zero, pelo menos de muito baixo.O Ladrão tem, assim, esse aspecto político, que não é negligenciável. Como se Chukhrai quisesse relembrar tudo o que custou a guerra para um grande império que iria finalmente esfacelar-se em 1991. Caiu sem um tiro, por cansaço interno, talvez. E deu no que deu, o que não é de modo algum motivo para comemoração dos russos, haja vista a baixa popularidade entre eles de Gorbachov, tido como responsável pela ruptura do império.Esse lado documental, de registro político, tem valor de pano de fundo. Um pano de fundo importante para entender essa história de cunho notadamente psicológico. Aliás, a boa simbiose entre os dois planos dá liga à trama e empresta consistência ao filme.Se a relação entre filho adotivo e padrasto já é conflituosa, imagine-se isso na situação de carência imaginada pelo filme. A essa dificuldade material, soma-se o sofrimento existencial de seres que vivem para o dia-a-dia, sem projeto, sem presente, talvez sem futuro.Tolya, então, é um tipo ideal nesse deslocamento. Numa nação que passaria (como outras) a sustentar-se internamente pelo fomento ao nacionalismo, usa o uniforme do mítico Exército Vermelho, criado por Trotski, para assumir seu papel de ladrão de galinhas. Um rebaixamento muito sintomático, que não deixa de ser um comentário político depreciativo, feito por um diretor que talvez não tenha idade para ter vivido aquele tempo - o que não o invalida como comentário, pois se a experiência direta fosse a única possível teríamos de negar o incêndio de Roma, como um dia observou João Saldanha.Mesmo rebaixado, Tolya é um pai para o garoto. Quer dizer, um ponto de referência nesse mundo hostil. Não é preciso ter lido psicanálise para saber a importância desse ponto de ancoragem para a existência de qualquer pessoa. Por isso, Tolya, no fundo um pobre-diabo, ocupa esse lugar fundamental no imaginário de Sanya. Por isso também a violência da reação quando esse pai emprestado pela vida enfim tombar do já precário pedestal em que está colocado.É a queda de um ídolo, rapidamente transformado em vilão mas que deixa um vazio permanente para Sanya. Uma cicatriz para o resto da vida, é o que descreve esse belo filme de maturidade artística.O Ladrão (The Thief). Drama. Direção de Pavel Chukhrai. Rússia-Fr/97. Duração: 97 minutos. Top Cine 1, horário normal. 14 anos.

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