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'O Julgamento de Viviane Amsalem' e a representação de um pesadelo kafkiano

Longa dos irmãos Ronit e Shlomi Elkabetz critica o machismo que aflige uma mulher que luta para se divorciar em tribunal israelense 

Luiz Zanin Oricchio , O Estado de S. Paulo

22 de agosto de 2015 | 07h00

Os irmãos Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz dirigem este drama do patriarcado israelense. Na verdade, trata-se de um drama de tribunal. Logo de início, somos apresentados aos personagens. A mulher, Viviane (Ronit) deixou a casa e pede o divórcio ao marido. Este, Elisha (Simon Abkarian) se recusa a concedê-lo. O tribunal é religioso, formado por três rabinos, e estes nada podem fazer contra a vontade do marido. Por exemplo, se ele falta à audiência, nada pode ser feito. Se se recusa a assinar os papéis, terá de ser convencido a isso. No meio tempo, testemunhas são convocadas e ouvidas. O caso se arrasta por cinco anos e só termina quando a esposa atende a uma exigência do marido.

O longa O Julgamento de Viviane Amsalem é todo filmado em um cenário único, o tribunal. O clima é sufocante. Aos poucos, audiência após audiência, as razões de todos vão surgindo. Mas o que vai se formando, de mais importante, é o ameaçador pano de fundo machista, em que a mulher é refém das vontades do marido. É julgada por homens e mesmo as mulheres que comparecem como testemunhas parecem contaminadas pela cultura patriarcal.

Insinua-se, aqui e ali, a influência no drama de outro judeu genial - Franz Kafka, o escritor dos tribunais, da lei sem sentido, do absurdo da vida. O que se tem, nessa Vara de Família israelense, é algo como uma transmutação do clássico de Kafka, O Processo, num andamento banal do dia a dia, implacável, sem nenhuma solenidade.

Mesmo a sala do tribunal é comum, despojada, sem nenhum parentesco com aqueles salões gigantes e rococós, cheios de símbolos, adereços e juízes togados. Aqui é uma sala comum, palco de um drama comum. Mas o que nela se fala e se ouve é terrível. A mulher afirma que não ama mais o seu marido, não deseja viver com ele. Os juízes acham as razões irrelevantes. O marido a agride, fisicamente? Deixa faltar algo em casa? Não. Então, por que separar? Só mais tarde aparecerão questões mais íntimas. Eles mantêm relações sexuais? Com que frequência? Ou se não, desde quando não têm sexo?

O interessante é que a dupla de cineastas procura mostrar o absurdo da estrutura judicial com toda a crueza, porém sem demonizar ninguém.

Viviane apresenta-se não como coitadinha e vítima, mas como alguém disposta a defender seus direitos. Ou o que julga ser seu direito. O marido, Elisha, pouco se parece a um patriarca truculento e sem coração. É apenas fanaticamente religioso e cabeça dura. Pode-se deduzir que, para ele, a própria cerimônia da separação soa como algo ímpio. Os juízes, de maneira geral, procuram acomodar a situação. Mas quando se convencem de que não há remédio, tentam convencer o marido.

Sem a sua anuência, nada feito.

Enfim, não existem vilões facilmente identificáveis. O “vilão”, se ele existe, é a própria estrutura judicial, parte também de uma formação mais ampla, a da sociedade. Nesse sentido, todos os atores parecem imersos nesse pesadelo kafkiano. A maior vítima, sem dúvida, é a mulher. Mas o próprio marido, os advogados e os juízes, todos sem exceção encenam esse drama da incompreensão e não conseguem agir como sujeitos racionais e encontrar uma solução tão simples. Há algo maior, que se coloca fora e acima deles, e, todos, nesse teatro do absurdo, comportam-se como marionetes. É um belo filme. Duro, incisivo, tocante.

Veja o trailer:

 

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