Divulgação
Divulgação

'O Jogo da Imitação' revê a história de cientista brilhante que sofre intolerância

Filme foi indicado a oito categorias do Oscar

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

11 de fevereiro de 2015 | 03h00

Em O Jogo da Imitação, tem-se a história de um gênio cuja obra permaneceu muito tempo na sombra, conhecida apenas por especialistas. Há, também, neste filme indicado para oito categorias do Oscar, um caso particular na história da intolerância, e da opressão, aquela que fazia da homossexualidade um crime passível de processo penal na Inglaterra dos anos 1950.

O personagem é Alan Turing (1912-1954), um gênio da matemática, que colocou o seu talento a serviço de uma missão tão prática quanto decisiva naquele que foi o maior conflito do século 20. Durante a 2.ª Guerra Mundial, os alemães haviam desenvolvido um código secreto, tido como impossível de ser quebrado. Era o famoso Enigma, pelo qual os nazistas trocavam mensagens indecifráveis para os Aliados.

Turing, um matemático jovem e até então desconhecido, lidera uma equipe que se dedica em tempo integral a quebrar esse código. E vem dele a grande sacada. Para decifrar o Enigma, engenhoca capaz de um número altíssimo de combinações, seria preciso criar uma máquina que realizasse aquilo de que cérebro humano não era capaz. Formalizou o conceito de algoritmo e criou a “Máquina de Turing”. Surgia assim um protótipo do que seriam os modernos computadores, as máquinas “inteligentes” da nossa era. Daí a dupla importância do trabalho de Turing. Não apenas descobriu a chave de um código tido como perfeito, feito que salvou número incalculável de vidas, como preparou terreno para o mundo da informática no qual vivemos.

 

No entanto, Turing não recebeu a recompensa nem mesmo o reconhecimento por suas façanhas e descobertas. Isso porque o que fora feito durante a guerra permaneceu em sigilo até os anos 1990, quando enfim tudo veio a público. E, depois, porque Turing foi processado por “indecência”, figura jurídica britânica. Na época, teve de concordar em se submeter à castração química (administração de hormônios femininos) para evitar a prisão. Em meio a conflitos insustentáveis acabou por se suicidar. Cabe lembrar que, no século 19, o escritor Oscar Wilde cumpriu pena na prisão de Reading pelo mesmo “crime”.

Essa é a história exemplar contada pelo cineasta Morten Tydum. Dessas oito categorias em que está indicado, pelo menos numa delas, é tido como forte candidato - na de melhor ator para Benedict Cumberbatch. De fato, é da melhor qualidade a interpretação dele. Numa trama difícil para um ator, ele faz aflorar a emoção na dose justa e nos momentos adequados, que não são tantos assim. A trama se desenrola em meio a um conflito mundial de proporções catastróficas, com pouco espaço para sentimentalismos ou problemas pessoais. O matemático está envolvido numa tarefa de alta complexidade, urgente e na qual sofre pressões, tanto de seus superiores, quanto de desafetos e invejosos. Cumberbatch contracena com Keira Knightley, única mulher com papel relevante na trama. Era será sua auxiliar e o ajudará a esconder sua sexualidade sob uma união de fachada.

A história de O Jogo da Imitação não é apenas testemunho da glória e da tragédia pessoal de Turing. Os paradoxos da guerra não estão ausentes da trama. Uma vez quebrado o código nazista, um dilema se apresenta. Se os Aliados usarem as informações agora disponíveis para salvar algumas vidas, podem atrair a desconfiança dos inimigos. Assim, a quebra do código deve ser cuidadosamente guardada para as ocasiões especiais e decisivas da guerra. Enquanto se oculta o conhecimento do código, vidas continuam a ser perdidas, para que mais vidas, talvez, possam ser salvas no futuro. Mas quem decide esse tipo de coisa não se sente um pouco como Deus?

Trabalhando entre esses eixos - do interesse coletivo e das paixões individuais, O Jogo da Imitação revela-se interessante, às vezes comovente, e, sobretudo, maduro. Se fôssemos classificá-lo como filme de guerra, teríamos de fazer a ressalva de que fica sempre ao largo das batalhas, dos embates entre soldados, tanques e aviões. Foca no outro lado da guerra, aquele de modo geral oculto pelo cinema. A guerra no gabinete, decidida de maneira cerebral, com suas exigências de tática e estratégia. Nesta outra guerra não há muito movimento, o sangue é um elemento virtual, e fica mais complicado identificar heróis ou vilões. No entanto, é bem a guerra, com sua dureza, com sua crueza mesmo, que se pode intuir em meio a cálculos abstratos e torneios de lógica.

Neste ambiente, Alan Turing foi bem um herói dessa guerra invisível. No entanto, foi tratado primeiro como um zé-ninguém e depois como se fosse um vilão. Só por resgatar sua memória e importância O Jogo da Imitação já se justifica. Mas, além disso, é muito bom filme. 

Tudo o que sabemos sobre:
Oscar 2015O Jogo da Imitação

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.