"O Jardineiro Fiel" é ovacionado em Veneza

O Jardineiro Fiel, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, que foi indicado ao Oscar por seu primeiro longa-metragem Cidade de Deus (2002), foi simplesmente o mais aplaudido de todos na sessão para a imprensa local e internacional. O filme de Meirelles e La Seconda Notte di Nozze (A Segunda Noite de Núpcias), do italiano Pupi Avati, são os últimos da mostra competitiva a serem exibidos hoje. O Festival de Veneza se encerra amanhã. Hoje, o diretor e os atores Ralph Fiennes e Rachel Weisz de O Jardineiro Fiel compareceu á entrevista coletiva de imprensa em Veneza para falar sobre a produção.Meirelles compete em Veneza com uma produção do Reino Unido, Quênia e Alemanha com um filme baseado no romance de John Le Carré, sobre os horrores e experiências feitas pelas multinacionais farmacêuticas na África."As indústrias farmacêuticas são como as indústrias de armas", sustenta um dos personagens do filme de Meirelles, que marca com o mesmo estilo e ritmo de Cidade de Deus sua produção inglesa."Meirelles impregnou o filme de sua visão do Terceiro Mundo. Incluir a vida das "favelas" de Nairobi em uma intriga internacional em meio a uma história de amor foi uma idéia genial", declarou o ator Ralph Fiennes,protagonista do filme.A morte brutal de Tessa (Rachel Weisz), a esposa de um discreto diplomata inglês no Quênia, conduz o funcionário, apaixonado jardineiro, a descobrir o profundo amor por sua mulher, assim como as secretas atividades que ela desempenhava como ativista e defensora da África.Assassinada juntamente com o médico local, o diplomata se nega a aceitar que se trate de um caso de infidelidade, como sustenta a versão oficial.Indignado pelas insinuações, inicia uma longa investigação para descobrir que na realidade sua mulher foi assassinada por ordem da indústria farmacêutica que experimentava novos remédios contra a aids em humanos."Os crimes das indústrias farmacêuticas são tremendos, mas não acredito que protestem contra o filme, porque só me dariam mais publicidade", assegurou o cineasta. "Queríamos denunciar o fato de que usam os africanos para seus experimentos assim como o alto custo dos remédios e a proteção que gozam dos governo", acrescentou Meirelles. O filme, que entra nos bairros pobres da capital africana mescla imagens belíssimas de desertos, cânions e savanas, tem uma trilha sonora com ritmos musicais especiais, composta pelo espanhol Alberto Iglesias, conhecido por sua parceria com o cineasta também espanhol Pedro Almodóvar. O filme mostra também a impotência da ajuda humanitária internacionalDiante da avidez dos poderosos e resulta em um pedido pol~itico pra que o mundo ajude a população da África, vítima inocente."Não sou um militante, sou um idealista e por isso acredito no poder do cinema. No passado participei de missões da Unicef no Congo e em Uganda para sensibilizar a população pobre sobre a aids. Viagens que me fizeram entender que as coisas devem mudar", confessou Ralph Fiennes."Para mim foi mais fácil trabalharam porque pela primeira vez tínhamos verba. Eu sempre trabalhei com muito pouco dinheiro", contou o diretor. Meirelles, que conhece o sucesso da experiência de combate à aids no Brasil com produtos medicinais de baixo custo, documentou a fundo o problema na África."Tive que eliminar nove minutos de gravação com dados oficiais sobre as multinacionais farmacêuticas, que por anos foi a indústria mais rica do mundo, depois do petrólio e dos bancos, pois cortavam o ritmo da ação no filme", admitiu Meirelles.

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