"O Invasor" expõe a violência em toda a sociedade

O terceiro longa-metragem docineasta Beto Brant, O Invasor, é um thriller urbano e contacom a estréia no cinema de Paulo Miklos, integrante da bandaTitãs. Ele faz o "invasor" do título, contratado por doisengenheiros para assassinar um sócio indesejável. Depois determinado o serviço, o matador de aluguel passa a infernizar avida dos mandantes. É quando o filme revela sua ambição mais funda: além deser uma boa trama de suspense, um entretenimento envolvente,pretende desvendar os bastidores da violência urbana brasileira,o que o torna muito atual. O Invasor é a terceiracolaboração entre Brant e o escritor e roteirista Marçal Aquino.Os dois já tinham trabalhado juntos em Os Matadores e Açãoentre Amigos. O novo filme estréia nesta sexta-feira.Nele, dois engenheirosdecidem matar o sócio e contratam um assassino de aluguel.Depois de feito o serviço, este não se dá por satisfeito, passaa freqüentar a firma, infernizando a vida dos mandantes, e chegaa ter um caso com a filha do empresário que assassinou. Invade apraia alheia, e da maneira mais radical possível. Visto commais cuidado, o filme se revela um preciso, cirúrgico e cruelinstrumento de dissecção. Expõe, a seco, as entranhas dadesordenada estrutura social brasileira, essa mesma quetransformou as metrópoles brasileiras em verdadeiros territórioscomanches. Não por acaso todos os personagens de O Invasortransitam muito por São Paulo. Os dois sócios e mandantes docrime, Ivan (Marco Ricca) e Giba (Alexandre Borges), começam ahistória indo à periferia para fazer contato com Anísio (PauloMiklos), o profissional incumbido de matar Esteves, o outrosócio da construtora que está sendo empecilho para um negócioilegal tramado por Giba. Há depois a longa seqüência na qual Anísio leva aninfeta Mariana Ximenes da casa dela, num bairro nobre, para umpasseio pela periferia. O epílogo dessa viagem, embalada pelosom de rap, mostra o casal transando dentro do carro e tendo acidade lá embaixo, digamos assim, a seus pés. Há vários outrospercursos dentro da cidade, todos eles comportando tomadaslongas, significativas. A fotografia é lisérgica, exprime odilaceramento da metrópole. A trilha sonora, exasperante,acompanha o tom e dá o clima desejado pelo diretor. Perto do final da história, o já desesperado Ivan voltapara casa e tromba num cruzamento com um carro caindo aospedaços. Está na periferia e ao seu lado há uma favela. Os doisocupantes do carro que bateu no seu pertencem ao "outrolado" da sociedade. Dessa colisão constante entre diferentes nasce toda aforça do filme. Mas uma dramaturgia convencional diria que odiretor perde muito tempo indo de um lugar a outro. É que, emO Invasor, o real não está na partida nem na chegada, mas sedispõe no meio do caminho, como dizia aquele personagem deGuimarães Rosa. Isso porque, entre outras coisas, o filme escancara,talvez pela primeira vez no moderno cinema brasileiro, acontinuidade oculta que existe entre os termos díspares dacidade. O usual, até então, era registrar um nicho específico,os ricos, ou os pobres, ou a classe média, isolados ou eminteração. Muitas vezes classes sociais diferentes foram postasem contato, como em Quem Matou Pixote? e Como Nascem osAnjos. O Invasor vai além. Tenta fotografar a cidade comoum todo, fazendo um corte cirúrgico da pirâmidade social que acompõe. E que fica sendo uma representação, em escala, dasociedade brasileira como um todo. Por isso os dois engenheiros se dirigem à periferia paraencomendar um crime que não têm coragem ou competência"técnica" para executar sozinhos. Por isso também Anísio vaida periferia ao centro, para ocupar um lugar que julga ser seu,de direito, após ter limpado o caminho para os dois mandantes.Mas é por isso também que o bandido namora a garota rica, comose ao possuir a moça, se apossasse também de sua classe social -houve um tempo em que o encontro amoroso entre diferentes sedava sob o signo do lirismo, como em Pobre Menina Rica, apeça de Vinícius de Moraes musicada por Carlos Lyra. Hoje aconversa é outra. Mas Anísio vai da periferia ao centro e volta do centroà periferia, com sua nova garota, para mostrar a ela o lugaronde ele é rei. A periferia é o inferno? Em termos. Para Anísiopode ser um paraíso, como ele diz à namorada. Principalmentequando se está drogado e enxerga-se a cidade ao longe - a cidadelá embaixo, como possibilidade ilimitada. Anísio parece umsoberano contemplando seus domínios. Essa representação davontade de potência dos marginalizados não deveria serdesconsiderada como um dos móveis do crime urbano, como se sabe.Quem é um nada social pode se sentir um herói de si mesmo aoempunhar uma arma e humilhar um "bacana". Mas qual o sentido de todo esse trânsito durante ofilme? Certamente não o de indicar que haveria uma ilusóriamobilidade social. Anísio vai e vem, os engenheiros idem, mas asclasses continuam como antes, imutáveis, ancoradas em suasrespectivas posições. Eles, como pessoas físicas, podem passar;a estrutura continua. Uma interpretação possível para tanta movimentação é ade que se existe algo que circula livremente entre os váriosandares da pirâmide é a violência. Não existiriam mais focos deviolência a serem combatidos e eventualmente extintos. Aviolência passou a ser uma espécie de moeda de troca, queatravessa todos os estratos sociais e une a todos. Passou a serum dado assustador e cotidiano, um denominador comum nacional. Em termos de cinema, essa interpretação já estavaesboçada em filmes como o curta-metragem de Andréa Seligman,Onde São Paulo Acaba, ou no documentário O Rap do PequenoPríncipe contra as Almas Sebosas, de Paulo Caldas e MarceloLuna. Nos dois, as cenas mais impressionantes são as dasperiferias que parecem "abraçar" as cidades, os centros. Sãoimagens de um cerco, neles insinuado, e que se completa agora emO Invasor - em termos práticos, a distinção entre centro eperiferia torna-se obsoleta. A violência como moeda corrente é causa ou conseqüênciada crise ética dos personagens? Questão em aberto. Já se disse eé correto: ninguém presta nessa história. Os dois engenheirospagam a um terceiro para se livrar de um sócio que, justamentepor pruridos éticos, atrapalha os negócios. Um deles,interpretado por Alexandre Borges, parece imune a qualquerdilema moral. O outro simplesmente sente medo e alguma culpa;torna-se paranóico, sente-se perseguido, temor não de todoinfundado. A mulher interpretada por Malu Mader aproxima-se deIvan apenas para controlá-lo e faz parte de um plano paraeliminá-lo. Anísio é um personagem paradoxal - e isso se sentequando se vê a platéia simpatizar com ele. Anísio é o mal, aviolência, a morte, mas também aquele que vem desestruturaroutra violência, aquela bem-posta e bem-arranjada, a do mundodos altos negócios. Não seria a primeira vez que uma platéia declasse média esclarecida simpatiza com a idéia de uma violênciavinda de fora e que desarruma aquilo que ela entende ser matrizda grande violência social do País: o abismo das classes sociais,uma das piores distribuições de renda do planeta, a indiferençadas elites, o caráter predatório do capitalismo à brasileira.Essa simpatia pelo fator que desarruma o arranjo das elites podeser interpretada erradamente como se o filme estivesseglamourizando a marginalidade, como se fazia nos anos 70. Mas de um modo ou de outro, não há personagem positivonesse retrato agudo da metrópole e do País. Ninguém é herói ousequer anti-herói. Nenhum personagem se oferece como modeloviável de identificação para o espectador. O final em abertoaponta para várias direções e não existe redenção em nenhumadelas. Enfim, não brilha, no final, nenhum "raiozinho de sol"- aquele que os produtores pediam (em vão) para Fellini colocarem seus filmes. Esse final em acorde dissonante tem deixado em choqueplatéias que viram O Invasor em pré-estréias. Não háaplausos, não há lágrimas. Apenas perplexidade. Talvez seja opreço que o filme tem a pagar pelo retrato sem complacência quefaz de um condomínio social falido. Serviço - O Invasor. Drama. Direção de Beto Brant.Br/2001. Duração: 97 minutos. 18 anos

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