Juan Guerra/AE
Juan Guerra/AE

O intrépido Wagner Moura

Em entrevista exclusiva, o ator fala do novo filme, A Busca, do papel em Hollywood e diz que ser pai mudou sua vida

Luiz Carlos Merten,

10 de março de 2013 | 09h11

Existem filmes mais importantes na carreira de Wagner Moura, como Tropa de Elite (1 e 2), de José Padilha, e Cidade Baixa, de Sérgio Machado, mas ele guarda um carinho especial por O Caminho das Nuvens, que Vicente Amorim dirigiu em 2003. Por maior que seja o afeto, Wagner reconhece que, se fosse fazer o filme hoje, o interpretaria diferente.

 

“É a história de um pai de cinco filhos, que atravessa o Brasil pedalando com a família. Eu ainda não era pai. Agora sou, de três filhos. Isso me deu outra visão. A paternidade e a morte são as experiências definitivas na vida do homem”, garante.

 

Palavra do Capitão Nascimento, personagem emblemático do cinema do País nos anos 2000. Em A Busca, que estreia sexta-feira, Wagner faz outro pai, e ele vive uma experiência transformadora ao procurar o filho adolescente que caiu na estrada. A Busca começa numa casa destroçada como o casamento do herói. Ele tenta convencer a mulher a reatar o casamento. Mariana Lima recusa, mas é mais com amargura que ódio. A união acabou. O final ocorre em outra casa, e agora ela é plena de história(s). Procurando o filho, o personagem de Wagner encontra o pai – um papel pequeno que Lima Duarte transforma em algo visceral e inesquecível.

 

“Queria que o Lima gostasse de mim. Fiquei nervoso de contracenar com ele”, Wagner revela. E ele acrescenta uma informação sobre o roteiro escrito a quatro mãos pelo diretor Luciano Moura (nenhum parentesco) e sua mulher, a roteirista Elena Soares. Os dois, Luciano e Elena, estão juntos há 23 anos. Já ultrapassaram a zona da estabilidade, mas o marido, pessimista por natureza, vive cada momento como se fosse o último e talvez seja essa a receita da durabilidade, que faz, como dizia Vinicius, que o amor seja eterno enquanto dura. A informação de Wagner refere-se ao roteiro, que chama de ‘raro’ – “A curva dramática me chamou a atenção assim que li. Meu personagem começa o filme de uma forma e termina de outra. Isso é um prato cheio para qualquer ator.”

 

Por alguma razão inconsciente, que não consegue explicar, mas tem a ver com sua experiência pessoal, Wagner fica tocado com histórias que envolvem a relação entre pais e filhos. “Quando li o roteiro, tão consistente, achei que poderia aprender alguma coisa com ele e talvez acrescentar algo à minha vida.” E ele diz: “A nossa ideia, a ideia do Luciano, com esse filme, é emocionar.” Não é só o roteiro que é raro. A Busca, que terá lançamento de blockbuster – quase 400 salas –, vai aterrissar no cinema brasileiro quase como um óvni. Não é uma comédia nem um ensaio sobre a violência urbana. É um relato intimista, interiorizado. O pai busca o filho e, secretamente, espera que ao encontrá-lo talvez possa reconstituir a família, convencendo a mulher a voltar.

 

O roteiro, a preparação – Wagner, Mariana e Brás Antunes, que faz o filho (e é filho de Arnaldo Antunes na vida real), ficaram algumas semanas construindo uma história de vida familiar em São Paulo, mesmo que ela já seja passada quando A Busca se inicia –, a realização, tudo foi muito rico, como experiência artística e humana. Wagner gosta disso. É um cara de amigos, de fidelidades. Isso não o impede de arriscar. Agora mesmo, acaba de fazer um blockbuster em Hollywood e Elysium, do diretor Neill Blomkamp, o mesmo de Distrito Nove, está cercado de mistério. “Pô, bicho, gostaria de falar, mas tem uma cláusula no contrato que me impede de revelar o que quer que seja. Só posso dizer que o Neill é muito inteligente e a experiência foi boa.”

 

Elysium é uma das estreias anunciadas do verão norte-americano. Um pouco desse mistério será desvendado em abril, quando o filme, ou parte dele, será apresentado, no México, no evento chamado Sony Summer, com as pré-estreias mais importantes da companhia no ano. “Estou cheio de expectativa”, Wagner anuncia. E ele conta como foi difícil atuar em outra língua.

 

“Eu tinha um coach (instrutor) no estúdio, para me assessorar, mas ele só intervinha quando eu dizia alguma barbaridade ou a pronúncia era horrível. E não era o caso. Falo inglês, mas é diferente representar numa língua que não é a nossa. As línguas latinas, o espanhol, o italiano, o francês, são mais difíceis, mas a pronúncia fica mais fácil para a gente. A sintaxe inglesa é mais fácil, mas em compensação a pronúncia pode derrubar. É duro achar o certo para dizer beach e bitch, praias e p..., que têm significados muito distintos.”

 

O ator já vai emendar outro filme em inglês, do qual será protagonista, mas a falta de dinheiro atrasou a produção. “Sobre esse eu posso falar.” Wagner vai fazer Fellini Black and White, sobre o sumiço de 48 horas do grande artista durante sua primeira visita aos EUA, em 1957.

 

O diretor será Henry Bromell, da série Homeland. Ausente da Globo – das novelas – desde Paraíso Tropical, de Gilberto Braga, ele anuncia sua volta com Dois Irmãos, que Luiz Fernando Carvalho vai adaptar de Milton Hatoum. Após longo período, o projeto voltou à lista das prioridades globais. No teatro, não tem planos. “Sabe o que é? Depois de ter feito Hamlet (com o diretor Aderbal Freire Filho), não consigo encontrar nada que me motive.” O fato de circular no estrangeiro – nos EUA – permite a Wagner dizer: “Para os gringos, o Brasil é a bola da vez. Todo mundo quer fazer negócio com o Brasil, investir no Brasil. O próprio fato de eu estar filmando fora tem a ver com isso”. A distância – mas ele diz que, mesmo quando filmava no Canadá, nunca ficou longe do País – não inibe seu comprometimento.

 

Ele gravou um vídeo de apoio ao novo partido de Marina Silva. Mesmo reconhecendo os avanços do Brasil, deplora certas práticas. “Detesto a palavra governabilidade e os compromissos que ela implica. Sustentabilidade é fundamental, houve avanços na questão da igualdade social, mas o Brasil, que é uma das maiores economias do mundo, perde a chance de oferecer a contrapartida de um governo baseado em transparência e respeito aos direitos. A grande questão no Brasil, e isso desde a Colônia, desde as capitanias, é a da terra.” 

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