O impressionante "Inferno" de Tanovic

O Inferno, de Danis Tanovic é a segunda parte da trilogia que Krszystof Kieslowski deixou escrita. Vamos recapitular - para consternação de seus fãs, o diretor polonês havia anunciado que se retirava do cinema após a trilogia das cores, formada por A Liberdade É Azul, A Igualdade É Branca, A Fraternidade É Vermelha. Cooptado pelo produtor Marin Karmitz, Kieslowski começou a escrever outra trilogia, Paraíso, Inferno e Purgatório, que não pôde filmar - morreu em 1996, aos 55 anos. O projeto passou para outros diretores. O alemão Tom Tykwer, de Corra, Lola, Corra, fez O Paraíso, que Tanovic definiu como ´medíocre´. Não é, mas Tykwer fez o filme que acha que Kieslowski faria, tentando chegar o mais próximo possível do estilo do diretor.Não chegou e esse é o problema. Tanovic, que ganhou o Oscar por Terra de Ninguém, sabe que ninguém pode filmar como Kieslowski, por isso fez o filme dele. É o inferno das relações familiares e também do ciúme.Três irmãs que vivem separadas e só uma cuida da mãe doente. A família é disfuncional. O pai, pilhado numa situação de abuso, foi denunciado (pela mulher) à polícia e se matou. Cada filha tem seu problema - uma se apaixona por professor casado, a outra por um gay (que fornece a chave para o enigma do pai), a terceira tem um marido adúltero. Todo Kieslowski está nos temas (e no belíssimo personagem do bilheteiro no trem), mas não no estilo. Nunca saberemos como seria o inferno de Kieslowski. O de Tanovic impressiona, com o mal que as pessoas se fazem e fazem aos outros. O desfecho sombrio fecha o circuito com a cena da ave, o cuco, na abertura.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.