O impacto de Plínio Marcos chega às telas

O cineasta José Joffily recorda-secom perfeição do impacto que sofreu ao assistir, quando jovem, auma montagem de Dois Perdidos Numa Noite Suja, peça dePlínio Marcos. "Quando estávamos acostumados a ver no palcopessoas bem vestidas e bem-nascidas, surgem, de repente, doismaltrapilhos que, em vez de serem solidários, travam umaviolenta disputa entre si", conta o diretor que, ao perceber aperenidade do texto, decidiu adaptá-lo ao cinema. O filmeestréia amanhã em São Paulo, no Rio e em Belo Horizonte. Apesar de fiel à essência do texto do dramaturgo,especialmente quando trata de exclusão social, a versãoapresenta aspectos modernos. "A disputa entre dois pobrescoitados já não choca mais como nos anos 60, quando a peça foiescrita", comenta Joffily. "Sentíamos, eu e o roteirista PauloHalm, que o texto devia ser atualizado, mas sem perder a belezae a força da dramaturgia do Plínio." Depois de um mês de conversa, chegaram à solução ideal:a ação se passaria em Nova York e um dos personagens seria umamulher. Assim, Tonho e Paco são dois brasileiros que vivem nosEstados Unidos à custa de subempregos. Tonho é um mineiroingênuo que confiou no sonho de conquistar riqueza na América.Paco, na verdade Rita, é a menina rica que abandonou a famíliadepois de seduzida pelo pai e que ganha a vida se prostituindo -como tem uma fisionomia andrógina, ela se passa por um garoto. Ele quer voltar ao Brasil. Ela quer se tornar umapopstar e vender mais discos que a Madonna. Por necessidade,falta de opção e solidão, Tonho e Paco passam a viver juntos emum galpão abandonado. "A essência da peça foi mantida, como adisputa entre os personagens; isso torna menos importante o fatode Paco ter se transformado em uma mulher", comenta Joffily."O que interessa é o confronto e, como o texto do Plínio éuniversal, poderia acontecer, por exemplo, entre um menino e umvelho; uma idéia, aliás, que também passou pela nossa cabeça." As filmagens se dividiram entre duas semanas em NovaYork, onde foram rodadas as externas, e três em uma fábricaabandonada no Rio, onde o diretor de arte Cláudio Amaral Peixotorealizou um competente trabalho de adaptação, reproduzindo umgalpão abandonado com referências americanas. "Durante váriosdias, Cláudio e eu circulamos por Nova York roubando placas ecatando papéis, cartazes, latas, garrafas e maços de cigarro,que ajudaram na reconstituição", diverte-se Joffily. A escolha do elenco também foi decisiva para a coesão doprojeto. Tonho é interpretado por Roberto Bomtempo, atorveterano que realiza o quarto filme dirigido por Joffily. Já Paco é vivido por Débora Falabella, que estréia nocinema. Ela foi escolhida após um processo de seleção. "Haviaoutras candidatas também boas, mas Débora exibiu uma fúria quenos conquistou", conta o diretor. "Seu rosto angelical e comtraços andróginos é perfeito para encobrir a incrível ferocidadede Paco."

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