O ilusionismo de um prestidigitador genial

A bem da verdade, ele nunca saiu de cena. Desde que estabeleceu o bê-á-bá da narração cinematográfica com Cidadão Kane, no começo dos anos 40, Orson Welles esteve sempre na mídia. Mas, quando morreu, em 1985, era um homem amargurado. Empilhava projetos, tinha dificuldade para concluir filmes inacabados. Os anos 90 assistiram a um revival de Welles. Seu Othelo foi relançado em cópias restauradas, Dom Quixote teve exibições públicas, até a famosa experiência brasileira do ator e diretor - É Tudo Verdade - foi resgatada. Como se não bastasse tudo isso, o crítico e cineasta Peter Bogdanovich lançou seu livro de entrevistas com Welles. Pois o revival continua. A Continental está lançando em DVD dois dos títulos mais prestigiados da carreira do autor.Um deles é Mr. Arkadin, lançado como Confidential Report nos cinemas americanos, nos anos 50, e como Grilhões do Passado, no Brasil. O outro é F for Fake, que virou Verdades e Mentiras no País. Os discos possuem biografias e filmografias. O segundo inclui uma seleção de fotos com criações famosas de Welles no teatro e cinema. A cada qual o seu Welles - A maioria da crítica prefere Cidadão Kane, por sua importância histórica. Não por acaso, foi escolhido o melhor filme americano de todos os tempos na votação organizada pelo American Film Institute. O próprio Welles preferia a versão original de Soberba, lamentando que The Magnificent Ambersons tivesse sido remontado à sua revelia pelo estúdio. Mas há críticos que preferem ´Mr. Arkadin´ a tudo o que Welles fez.Entre eles está o francês Eric Rohmer, hoje diretor. No seu livro Le Gout de la Beauté (Editions Flammarion), que compila suas críticas, o hoje diretor não poupa elogios a Mr. Arkadin. Embora reconheça o primado de Kane na obra wellesiana, abre sua preferência por Arkadin. Quando fez esse filme, em 1955 Welles já era o pária que se sabe. Escorraçado dos EUA, foram realizar Othelo na Europa e na África (e o filme terminou vencendo o Festival de Cannes sob a bandeira do Marrocos). Mr. Arkadin é co-produção franco-espanhola. Temática e até estruturalmente, é similar a Kane, contando a história de outro maipulador.Welles adorava esses personagens dominadores e monstruosos, capazes de usar as pessoas sem o menor resquício de culpa. Ele próprio faz Mr. Arkadin, o tycoon que está sendo chantageado e contrata detetive para investigar seu passado nebuloso. À medida que vão surgindo os personagens capazes de dar depoimentos sobre esse passado, as pessoas começam a morrer misteriosamente. O filme foi feito em duas versões, inglês e espanhol. Reúne um elenco prodigioso - além do próprio Welles, Michael Redgrave, Patricia Medina, Akim Tamiroff, Mischa Auer e Katina Paxinou, que seria depois a mamma Parondi do cult ´Rocco e Seus Irmãos´. Será necessário acrescentar que, em se tratando de um filme de Welles, Mr. Arkadin exibe o gosto do ator e diretor por ângulos insólitos e soluções técnicas audaciosas?De Kane a Arkadin, a grande arte de Welles é sempre um ato de ilusionismo. O mestre radicalizou em F for Fake. É um documentário, ou melhor, um falso documentário, mas o que importa o falso e o verdadeiro? A conclusão de Welles é que o falso, na arte, pode ser genuíno pelo simples fato de que a própria arte é uma falsificação da realidade. Welles cita o lendário Houdini, que lhe teria dado lições de mágica quando ele tinha 11 anos. Houdini dizia que todo mágico é um ator. Welles aparece desde o começo vestido de mágico. Assume-se como charlatão e diz que todo artista é prestidigitador que se apropria de idéias ou objetos alheios para transformá-los em outra coisa.Na origem desse filme está um documentário do francês François Reichenbach sobre falsificadores. Elmyr de Hory, que acrescentou obras-primas de Monet, Matisse, Picasso e Modigliani aos museus de todo o mundo, é citado com o escritor Clifford Irving, autor de uma biografia forjada de Howard Hughes. Welles acrescenta o próprio nome à galeria, valendo lembrar a falsa invasão da Terra pelos marcianos, que o tornou célebre no rádio, nos anos 30. O melhor episódio envolve a bela Oja Kadar, que terminou sendo a última mulher do diretor. Welles conta como ela teria seduzido Picasso. É maravilhoso.Mr. Arkadin EUA, 1955. F for Fake França/Espanha, 1974; Continental; À venda na 2001, Fnac e Cultura, ou então pelo fone 287-2696. Preço médio: R$ 30/35

Agencia Estado,

12 de outubro de 2000 | 19h58

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