"O Homem Sem Passado" é uma pequena jóia

Não há nada mais urgente do que definir uma identidade própria no mundo globalizado. Certo? Em termos, segundo interpretação de O Homem sem Passado, de Aki Kaurismaki. Se alguma coisa este filme nos diz é que, tão importante quanto a identidade, é a construção de uma vida feliz. Talvez fosse melhor dizer: a "invenção" de uma vida. Pois é justamente disso que se trata quando M., surrado por skinheads, perde a memória e fica sem seu passado. O que é um passado? É o lastro de uma vida, o que dá estabilidade a uma personalidade. Pedro Nava, fabuloso memorialista, dizia que recuperar o passado é como ter um carro com os faróis na traseira. Ilumina o passado, não clareia o caminho à frente. Ok, o passado não diz nada sobre o futuro, mas pode determiná-lo, pelo menos em parte. Esse é o sentido dessa pequena fábula de Kaurismaki. Sem o passado, M. ganha liberdade para construir seu futuro. Claro, é uma liberdade relativa (como todas), pois o personagem deverá reconstruir a sua vida na periferia de Helsinque, entre a arraia-miúda que constitui a margem social, e que existe mesmo em um país como a Finlândia, com renda per capita semelhante à da França e cerca de sete vezes superior à brasileira. Pois é em meio aos pobres do seu país que o finlandês M. deverá (re)aprender a vida. Dele mesmo pouco se sabe, exceto por um capacete de soldador, que estava entre suas coisas quando foi agredido e pode dizer algo sobre a sua profissão. Mas é só. O resto é invenção, ou reinvenção de toda uma existência. A maneira como Kaurismaki acompanha esse processo faz toda a diferença. Tudo, nesse filme, funciona como ilustração do lema de que menos é mais. Não há no rosto do personagem um único sinal de autocomplacência. Ele simplesmente dá seguimento ao fluxo da vida. Tenta encontrar um meio de subsistência, um lugar para morar, e até mesmo um novo amor. A luz é fria, os movimentos são contidos, como contida é a exteriorização dos sentimentos. A Finlândia retratada por Kaurismaki em nada faz lembrar o país que se transformou em um dos pioneiros na tecnologia de celulares. O ar que se respira é retrô, e a impressão se reforça pelo uso das músicas. Há todo um tom anos 80 que percorre a trama. Como se Kaurismaki dissesse que essa vida um tanto passadista, reinventada em ritmo nostálgico, na verdade tem muito mais graça do que esta que nos é dada. Mas ele é pudico demais para afirmar isso com todas as letras. Apenas insinua, o que é a melhor maneira de ser convincente. Então essa realidade moderna, que ficara de fora, entra, sem nenhuma indulgência, pelas frestas da trama, sem nunca sobrecarregá-la. Por exemplo, na cena do banco que vai ser assaltado, mas está quebrado porque entrou como parte menor em uma grande fusão multinacional. Ou no interrogatório policial, quando desconfiam que M. pode ser um emigrante. "Mas falo finlandês", responde o homem. "Os estrangeiros aprendem rápido", diz o policial. Ou no pacotinho de chá usado, que M. guarda dentro de uma caixa de fósforos e mergulha na água quente fornecida pela dona do bar para matar a fome. Epifanias de bolso desta pequena obra-prima.

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