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O homem que amava experimentar as formas

Ciclo no MIS resgata o alemão Werner Schroeter, autor de grandes filmes que dialogam com a ópera

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2013 | 19h27

Há controvérsia se a paixão de Werner Schroeter era a ópera ou a diva Maria Callas. Uma e outra o levaram ao cinema, e seus primeiros filmes eram curtas em 16 mm cujo objetivo parecia ser querer eternizar a persona – as performances – da sublime Maria. Quando começou a fazer longas, Schroeter assimilou códigos narrativos de óperas famosas. Os críticos, inicialmente, não sabiam como reagir perante seus assumidos excessos estilísticos, mas ele terminou por se impor e obter reconhecimento. Ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim por Palermo oder Wolfsburg e o Teddy Bear, o Urso gay, em 2010, no ano de sua morte.

Embora sua iniciação tenha sido um pouco mais tardia – Eika Katappa é de 1969 –, Werner Schroeter não deixa de pertencer à geração que mudou o cinema alemão nos anos 1960. É tempo de lembrá-lo num ciclo que começa hoje no Museu da Imagem e do Som. No começo daquela década, em Oberhausen, os jovens firmaram um documento anunciando o tipo de cinema que queriam fazer. Influenciados pela Nouvelle Vague francesa, sua agenda privilegiava a autoria e a ênfase nas questões sociais e políticas.

Volker Schlöndorff, Alexander Kluge e Werner Herzog foram os arautos daquela geração e no seu bojo vieram Wim Wenders e Rainer Werner Fassbinder. Werner Schroeter e Rosa von Praunheim, outro vencedor do Teddy Bear, seguiram trajetórias mais alternativas. Schroeter triunfou primeiro na Dokumenta de Kassel, com A Morte de Maria Malibran, em 1972. Cinema, ópera, o expressionismo reinventado, num excesso de fazer autores como Ken Russell e Baz Luhrmann parecerem acadêmicos. Cinco anos mais tarde, há uma ruptura com Os Irmãos Napolitanos, documentário que acompanha a vida pobre (miserável?) dos irmãos do título. Quase como um desdobramento dessa experiência, Palermo oder Wolfsburg, mais três anos depois, investiga a dura vida de emigrantes italianos na Alemanha.

Muitos críticos se interrogam sobre o ‘velho’ Schroeter – e o barroco invade, enfim, as imagens de Concílio do Amor. Jean Tulard faz um definição sucinta do filme em seu Dicionário de Cinema: Deus, para punir a corte dissoluta dos Bórgia, envia a sífilis. Voltam os excessos, a beleza e o horror. A arte de Schroeter muitas vezes foi chamada de ‘decadente’, mas ele nunca transigiu consigo mesmo – foi sempre crítico. Ao jornal Berliner Zeitung, ele declarou certa vez: “Você faz ou não faz”. Pode parecer uma definição empobrecedora de arte e até de atitude perante o mundo, mas não. Schroeter era do tipo que fazia, e por isso você deve entender – ousava.

Ele ganhou seu Teddy Bear pelo experimentalismo radical. Em 2008, ao apresentar o que terminou sendo seu último longa, Nuit de Chien, Noite de Cão, em Veneza, o festival aproveitou e lhe outorgou um prêmio especial por sua contribuição à arte e – sempre – à experimentação no cinema. O cinema de Schroeter nunca é narrativo no mesmo sentido que a palavra serve à obra de outros diretores, como Fassbinder, Herzog e Wenders. Na sua mistura de gêneros e formatos, mas também pela estilização formal e pelas rupturas da narração linear, Schroeter foi único.

Noite de Cão fornece um exemplo interessante do incômodo que seu cinema muitas vezes provocava. O filme baseia-se num livro do uruguaio Juan Carlos Onetti. Pascal Greggory faz o protagonista, que chega a uma cidade fictícia em meio a uma guerra. Tudo o que parece abstrato na escrita de Onetti vira concreto na visualização de Schroeter. Greggory precisa agir, e agir rapidamente. Toma decisões e elas vão num crescendo até o momento em que ele sente que não há fuga possível. O homem em choque com o destino. É como se Schroeter, no ocaso de sua vida – e carreira –, quisesse ser Fritz Lang. Ele morreu em 1970, aos 65 anos.

MOSTRA WERNER SCHROETER

MIS.Avenida Europa, 158, Jardim Europa, De 30/7 a 7/8. Grátis. www.mis-sp.org.br

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