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O homem e a água, uma história apaixonante

Documentário da dupla Jennifer Baichwald e Edward Burtynsky vai além da denúncia e atinge o sagrado

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 Março 2015 | 03h00

Em meio à crise hídrica que assola o País, a estreia de um filme como Marcas da Água traz subsídios para uma discussão tão necessária quanto importante. A dupla de cineastas Edward Burtynsky e Jennifer Baichwal vai além do que poderia ser a denúncia. O Estado norte-americano da Califórnia é referido várias vezes por sua legislação ambiental e por iniciativas desastradas para resolver a escassez de reservas hídricas numa região em que elas são usadas abundantemente. Há 40 anos, e pela via da ficção, Roman Polanski já revelou o que havia para ser denunciado na questão da água na Califórnia em seu clássico noir Chinatown. Jennifer e Burtynsky terminam o filme com imagens de celebração – um torneio de surfe na Califórnia, o banho coletivo no rio Ganges, na Índia, um voo de helicóptero sobre a nascente do rio Stikine.

São imagens que cortam o fôlego – e emocionam – pela beleza. Depois de toda a informação acumulada em Marcas da Água, o espectador relaxa e desfruta o prazer estético. O filme é sobre a relação do homem com a água. É um ótimo aperitivo para o É Tudo Verdade, que começa dia 9. No rio Stikine, na Colúmbia Britânica, o índio fala da relação do homem com a água. Tudo é sagrado, dizia o centauro para o jovem Jasão na Medeia de Pier Paolo Pasolini. Tudo é sagrado, de novo, aqui. Os homens, os peixes, os alces, a vegetação, todos se alimentam da mesma água. Dela depende o equilíbrio humano e ambiental. Logo, o filme mostra exemplos de desequilíbrio, outras nascentes de rios em que a água vira lodo. A capacidade do homem de poluir é inesgotável.

Em nome do desenvolvimento econômico – do lucro –, praticam-se atos inomináveis contra a natureza. O filme não julga – mostra. Jennifer e Burtynsky não são didáticos. São artistas, diretores de cinema. Usam a linguagem e tudo o que ela oferece, de tecnologia e criatividade, para atuar no imaginário do espectador. Cabe a cada um reformular no inconsciente o que viu/está vendo e formar sua opinião. Assim como a Califórnia, nos EUA, a China fornece o cenário por meio da construção de represas gigantescas – a de Xiaolanangdi, no rio Amarelo, e a de Xiluodu, no Yang-Tsé. Na China, em outro documentário, Em Busca da Vida, Jia Zhangke mostrou a construção da represa das Três Gargantas com um claro objetivo de denúncia.

Populações foram deslocadas das áreas que seriam inundadas e jogadas no mundo. Famílias foram destruídas, patrimônios perderam-se. Os arautos do desenvolvimento vão dizer que nada disso tem importância, ou tem importância apenas relativa. No futuro, terá valido a pena. Sim, no futuro, mas até lá...? Em outro documentário que deveria ter vencido o Festival de Berlim deste ano – El Botón de Náscar –, o chileno Patricio Guzmán também começa contando uma história da água. O Chile é uma estreita faixa de terra imprensada entre as cordilheira e o oceano. Descendentes de tribos indígenas também falam da importância – prática & mítica – da água.

Dessa história milenar da água, Guzmán tira outra reflexão – ao exibir vestígios da barbárie da ditadura de Augusto Pinochet, fornecidos pelo oceano. São muitas – e diferentes – maneiras de encarar a água. O cinema tem essa capacidade, os artistas que trabalham com ele. São histórias que fazem pensar, que emocionam. Marcas da Água é dessa estirpe. 

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