"O Homem do Ano" está nos cinemas

José Henrique Fonseca tinha 15 anos quando seu pai, o escritor Rubem Fonseca, o levou para ver Berlim Alexanderplatz, de Rainer Werner Fassbinder. A maratona de 16 horas não apenas não derrubou o garoto como teve um efeito atordoante sobre ele. Zé Henrique ficou possuído pelo vírus do cinema. Aos 38 anos, ele estréia hoje em 22 salas do Rio, de São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Porto Alegre o filme que adaptou do livro de Patrícia Melo, O Matador. Com o título trocado para O Homem do Ano e estrelado por Murilo Benício e Cláudia Abreu, o filme conta a saga de Máiquel, o matador de aluguel da Baixada Fluminense. E fez parte da programação oficial do Festival de Berlim, em fevereiro, e recebeu o grande prêmio dos festivais de Miami e São Francisco. Zé Henrique passou sete anos num corpo a corpo com este projeto. Leu o livro de Patrícia em 1996 antes mesmo que O Matador chegasse às livrarias. Imediatamente descobriu que a história de Máiquel era a que queria contar. À escritora, disse que seu livro era a versão turbinada de um conto de seu pai, O Cobrador. Direitos adquiridos, Zé Henrique conseguiu que seu pai fizesse a adaptação. Ele reage indignado à acusação de que foi uma jogada de marketing. A escolha do pai deveu-se a outros fatores. "Ele é um grande cinéfilo e esse foi um filme feito em família. Aproximei-me da Cacau (Cláudia Abreu) porque queria que ela tivesse um papel. Terminamos casando e fazendo uma filha, Maria Maud, a quem O Homem do Ano é dedicado. Costumo dizer, brincando, que fiz uma família e fui filmar." Trata-se, obviamente, de uma brincadeira com o cult underground Matou a Família e Foi ao Cinema, de Júlio Bressane. Todo mundo define O Homem do Ano como um policial. "Você acha que é?", pergunta o diretor. Para ele, não é, pelo menos no sentido tradicional atribuído à palavra como definidora de um gênero. O que lhe interessou foi Máiquel, como personagem. "Conheci muita gente como ele, jogando bola. Gente da periferia, sem esperança, que sonha com essa sorte grande. A dele é cometer um assassinato e virar herói. Vira matador profissional a serviço da pequena burguesia emergente da Baixada." Zé Henrique pode não ter feito um filme nota 10, mas conseguiu colocar na tela uma fatia do verdadeiro câncer que consome o tecido social brasileiro. O filme foi rodado na Baixada Fluminense em maio e junho de 2001. Zé Henrique logo em seguida começou a trabalhar na montagem, que foi até o fim daquele ano. Dedicou 2002 inteiro à música, que surgiu de uma parceria com Dado Villa-Lobos. Por que tanta importância atribuída à música, a ponto de ela merecer um ano de trabalho? "A música é importante, como o som, de maneira geral. Me ajuda a criar o que eu queria, que era um clima subterrâneo." O filme quase não teve direção de arte. "Filmamos em locações, na Baixada, e o cenário já estava todo pronto." Agora, é esperar pela reação do público.

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