HB Filmes
HB Filmes

'O Hector merecia muito isso. Acho que o amor venceu', diz Bárbara Paz

Documentário sobre Hector Babenco, de Bárbara Paz, é a aposta brasileira para concorrer ao Oscar em 2021

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2020 | 18h29

Até agora, nunca deu certo, mas a comissão que escolhe o representante do Brasil para o Oscar tenta pensar com a cabeça da Academia. Quais as chances reais de determinado filme cravar sua indicação? Um é escolhido pelo tema, outro pelo prestígio que integrantes da equipe técnica e artística possam ter em Hollywood. Reunida remotamente (tempos de pandemia), a comissão de 2020 iniciou os trabalhos às 10h30 da manhã desta quarta, 18, e levou três horas para chegar à escolha. O Brasil vai de documentário no Oscar 2021.



Já havia ido em 2020, quando Democracia em Vertigem, de Petra Costa, foi selecionado para concorrer na categoria. O escolhido agora é Babenco – Alguém Tem de Ouvir o Coração e Dizer: Parou, de Bárbara Paz, que concorreu à indicação com outros 18 títulos, incluindo ficções como M-8, de Jeferson De, Marighella, de Wagner Moura, e Casa de Antiguidades, de João Paulo Miranda Maria. Pode não ter sido a primeira vez, mas faz toda diferença saber que a Academia Brasileira de Cinema, que forma a comissão, desta vez prescindiu de pessoas ligadas ao governo. Votaram somente profissionais do audiovisual – a diretora e roteirista Viviane Ferreira, que também foi presidente; a produtora Cláudia Bessa; o diretor e roteirista André Ristum; o diretor de fotografia Lula Carvalho; o produtor Leonardo Monteiro de Barros; a produtora Renata de Almeida Magalhães; e o diretor Toni Venturi. 

O filme sobre Babenco levou o prêmio de melhor documentário no Festival de Veneza de 2019 e no Festival de Viña Del Mar, no Chile, em 2020. Bárbara Paz conversa pelo telefone com o Estadão. Está no Rio, filmando com Júlia Rezende. O filme, Porta ao Lado, é sobre dois casais. “A gente deveria ter filmado no primeiro semestre, mas veio o isolamento e a produção parou. Agora estamos trabalhando com muito cuidado, seguindo os protocolos de segurança.” Essa guria, como se diz no Sul, não é mole. Gaúcha de Campo Bom, Bárbara tinha 17 anos quando chegou a São Paulo. Fez teatro infantil, participou da Casa dos Artistas do SBT, foi capa da Playboy e, ao mesmo tempo que tudo isso lhe deu muita projeção – popularidade –, também originou preconceito, como se ela, por ter participado do reality show, não pudesse evoluir como pessoa – e como artista. Bárbara não deixa por menos: “Sou movida pelo desejo de evoluir, tenho sede de conhecimento”. 

Ela encontrou Hector Babenco num momento difícil da vida dele. Hector fizera tratamento nos EUA, mas o câncer voltou com força. Ela o assistiu na etapa final – como mulher, amiga, amante. Conversavam longamente sobre a vida, o cinema. “Ele era o primeiro a dizer que éramos dois sobreviventes.” O cineasta morreu em 2016. 

Bárbara passou por muitas dificuldades sem perder a garra. Neste ano de pandemia – de suspensão para tanta gente –, não parou de trabalhar. Hector lhe dizia: “Pare de querer viver agradando os outros”. Foi a grande descoberta que ela fez neste ano atípico. “O meu autoral vai me comandar”, anuncia. Juntando determinação com a vontade de aprender/conhecer, Bárbara tem feito muitas coisas. Aprendeu a acreditar mais no seu olhar. “Tenho uma casinha na Bahia e fiquei lá isolada, fiz um material de videoarte que foi muito bacana. Fui a Ouro Preto e fiz um curta que estou finalizando, ATO. Tem a ver com o momento, com o isolamento. Esse movimento para o interior da gente pode levar a descobertas profundas.” 



O filme da Júlia tem a ver com isso. A par dos sucessos de bilheteria, Júlia Rezende faz filmes menores – na produção, não na ambição. São os filmes autorais em que ela se expõe mais, em que discute o feminino – ela própria na sociedade. Um exemplo disso é Depois a Louca Sou Eu, com Débora Falabella, que estreou na Mostra de Cinema do ano passado.

Justamente a Mostra de 2019. Renata Almeida, a sra. Mostra, conseguiu integrar o Teatro Municipal ao circuito do evento. Lá ocorreram a homenagem a Fernanda Montenegro, a apresentação de A Vida Invisível – que foi a aposta brasileira no Oscar passado – e a do documentário de Bárbara. “Tudo aquilo foi mágico. O filme havia sido premiado em Veneza e apresentar no Municipal, recebendo aquele carinho das pessoas, foi muito gratificante.” E agora estamos, um ano depois, vivendo esse outro momento de euforia. “Babenco já estava apontado para estrear nos EUA em janeiro. Com certeza, haverá uma campanha para o Oscar. Por conta das particularidades deste ano, a Academia já jogou a festa de premiação para mais adiante e está aceitando o lançamento em streaming. Será preciso focar no que fazer, agora ainda estou nesse turbilhão.”

O repórter lembra uma cena de Babenco – Alguém Tem de Ouvir o Coração e Dizer: Parou. Por mais que as pessoas procurassem animá-lo, ele sabia que seria Meu Amigo Hindu seria seu último filme. No seu imaginário, a última cena que ia filmar, a última cena do filme seria a de Bárbara dançando. Cantando na Chuva. “Hector queria filmar com apenas uma câmera, mas sugeriu que eu colocasse outra câmera, a minha, para o making of. Fiz a cena com toda entrega e, quando terminei, lhe perguntei se a sua última cena tinha sido satisfatória. Ele me agradeceu, cheio de carinho. Momentos assim a gente não esquece.”


 


A atriz de teatro infantil ganhou acolhimento no teatro adulto – foi Maggie the Cat na montagem de Gata em Teto de Zinco Quente, de Tennessee Williams, por Eduardo Tolentino. Fez novelas, videoarte, adora fotografar e dirigir. Bárbara não é uma, é múltipla. Não renega a Casa dos Artistas, e por que haveria de fazê-lo? Conta que sua vida daria um filme, e está disposta a fazê-lo. Já trabalha nisso. Brinca que, lá em cima, Hector está mexendo os pauzinhos. “O Hector merecia muito isso. Acho que o amor venceu.” 

Logo no começo, Bárbara e Hector conversam e ele ensina a relação entre distância focal e enquadramento. Esse clima de afeto e cumplicidade dá o tom do longa. Ilustra perfeitamente o que Bárbara diz na abertura do texto, sobre o seu desejo de conhecimento.

Babenco era bem conhecido na Academia. Ele foi indicado para o Oscar por O Beijo da Mulher Aranha, em 1986. No ano passado, Petra Costa ficou entre os indicados por um documentário narrado na primeira pessoa. Agora, Bárbara busca a indicação – na categoria de melhor filme internacional – por outro filme muito pessoal, e autoral. Bárbara e seu olhar. Embora o procedimento não seja inédito, talvez seja raro. Desde que Agnès Varda contou para João Jardim – em Janela da Alma – como filmou a agonia do marido, Jacques Demy, não se via esse grau de intimidade e exposição. Wim Wenders filmou a morte de Nicholas Ray em Nick’s Movie, uma relação de amizade e admiração. Bárbara e Hector. O importante é seguir o cronograma da Academia para o Oscar de 2021, marcado para 25 de abril. Haverá Brasil no próximo Oscar? A sorte está lançada.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.