'O Guerreiro Didi e a Ninja Lili' chega às telonas nesta sexta

Novo filme do 'trapalhão' conta com sua filha no elenco e com o cirurgião plástico Marcus Figueiredo na direção

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

08 Junho 2019 | 17h00

Seu caso é raro, muito provavelmente único, no cinema mundial – ou você acredita que exista outro dublê de cineasta e cirurgião plástico? Dr. Marcus tinha marcada nesta quinta-feira, 19, uma cirurgia – uma prótese de mama. Aos 43 anos, formado há mais de 20, ele já perdeu a conta das cirurgias que fez, desde sua clínica particular até os hospitais públicos, do Estado e do município, em que trabalhou no Rio de Janeiro. Mais fácil, para Marcus Figueiredo, é contabilizar sua filmografia. Ele fez perto de 150 documentários na Globo, dois filmes como assistente de direção e três como realizador – os cinco com Renato Aragão, o Didi. Estréia nesta sexta o 47º filme do trapalhão. Dr. Marcus fez uma plástica para dar cara nova ao cinema de Didi.  Veja também:Trailer de 'O Guerreiro Didi e a Ninja Lili'   O Guerreiro Didi e a Ninja Lili atende a uma pesquisa feita com espectadores (e fãs) de Renato Aragão. O que eles gostariam de ver Didi fazer? Uma parcela muito expressiva respondeu – "uma aventura de artes marciais". Atendendo ao pedido de seu público, Didi desenvolveu a idéia do novo filme. Antes mesmo que fosse filmada a primeira cena, a data de estréia já havia sido escolhida – hoje –, para evitar a concorrência direta com os blockbusters de Hollywood. Didi é um guerreiro e, desta vez, conta com a ajuda da filha, a ninja Lili, mas não é fácil enfrentar Indiana Jones, Hulk, Super-Homem, Wall-ie e Batman, todos os super-heróis dos blockbusters desta temporada. Didi já está acostumado à guerra. "É preciso matar um leão por dia", quando se faz cinema, ele gosta de dizer. O Guerreiro Didi e a Ninja Lili tem a cara do cinema do trapalhão, mas ela foi repaginada pelo dr. Marcus. As pessoas podem até achar que é a mesma fórmula de sempre, mas para Marcus Figueiredo os filmes são diferentes em tudo. "O público de Didi espera determinadas coisas, que tratamos de oferecer, mas a paleta de cores, o conceito estético, tudo muda, de filme para filme." O conceito de O Guerreiro Didi e a Ninja Lili baseia-se no mangá, o gibi japonês. Leitura da direita para a esquerda, de cima para baixo. São idéias aplicadas ao visual do filme, mas tão sutilmente que muitos espectadores nem vão perceber. Rei do humor circense, Didi há muito se acostumou a provocar risos na corda bamba, mas nunca como aqui, onde ele ficou, literalmente, pendurado por um fio, ou fios. Nas cenas de lutas, ele e a filha Lili voam e dão patadas como os heróis de O Tigre e o Dragão, por exemplo, que também são pendurados por fios. Com prazos e orçamento reduzidos, O Guerreiro Didi ainda estava sendo filmado em meados de abril, quando o repórter do Estado visitou o set em Itapecerica da Serra. A pós-produção foi a mais apertada da carreira de Renato Aragão. A equipe ainda filmava e as cenas de lutas, as primeiras que foram feitas, já iam sendo montadas e enviadas para a Casablanca, estúdio no qual profissionais especializados apagavam digitalmente os fios e cabos usados nas cenas de ação. Didi acompanha o filme até a primeira montagem. Ele se preocupa com o capricho da imagem – fotografia, figurinos e direção de arte devem estar nos trinques. Seu olho clínico capta as ‘barrigas’ da narrativa, mas Didi não evita que as coisas muitas vezes sejam repetidas, o que, segundo ele, é necessário para que sejam absorvidas pelas platéias mirins. Feita a primeira montagem, ele sai de cena – "é muito cansativo" – e entrega o filme a Marcus Figueiredo. Dr. Marcus gostaria de ousar mais. Ele sabe que o gosto do público mudou, e não só o gosto. Platéias formadas na internet absorvem muito mais rapidamente – mais de que as platéias viciadas em TV dos anos 60 – as intenções contidas em cada tomada. Às vezes, elas batem na tela e bastam alguns segundos para que as crianças percebam a intenção. Ultrapassar esse ponto pode ser arriscado. O espectador mirim que captou a ‘mensagem’ não se interessa em ficar vendo-a se repetir. No caso de O Guerreiro Didi, a intenção declarada de absorver elementos da linguagem do mangá produz cenas muito elaboradas visualmente, em especial no começo. O restante é mais previsível, em termos. Didi concretiza aqui seu desejo de fazer um filme de época. E ele não deixa de fazer o seu Oliver Twist – a história dos garotinhos obrigados a roubar –, mas com uma diferença. "Não seria capaz de fazer o Oliver Twist. O livro de Charles Dickens é triste e depressivo. Meu trabalho é alegre, para cima." Até nisso o casamento com Marcus Figueiredo foi acertado. "Marquinhos tem uma formação técnica fora de série no cinema brasileiro. Ele sabe tudo, o que me tranqüiliza bastante." Dr. Marcus teve uma típica trajetória de garoto de classe média baixa. Os pais esforçaram-se para que o irmão e ele tivessem uma formação sólida, estudando primeiro na rede pública e, depois, com bolsa, em escolas particulares. Marcus era atraído pela área biomédica e foi fazer medicina, com especialização em cirurgia plástica. Pai de uma filha de 24 anos – formada em Direito pela USP –, ele nunca havia pensado no cinema como alternativa profissional, mas em 1996 algo se passou. Marcus começou a questionar-se se queria continuar fazendo cirurgias – reparadoras e estéticas – pelo resto da vida. Foi na época em que O Quatrilho foi indicado para o Oscar, criando verdadeira euforia em relação ao cinema brasileiro. As leis de patrocínio, o reconhecimento externo, tudo indicava que o cinema voltava a ser viável na chamada ‘Retomada’. Dr. Marcus resolveu investir numa carreira cinematográfica. Na cara e na coragem, vendeu o carro e foi estudar cinema na Ucla. Fez um curso de extensão durante dois anos. De volta ao Brasil, ele retomou a clínica e hoje alterna as duas atividades, sempre evitando correr da sala de cirurgia para o set, e vice-versa. Um dia, ele vai ter de optar. Será pelo cinema. "A cirurgia é uma área muito bacana, mas é muito repetitiva. Já fiz todas as operações que queria e nem 1% dos filmes que quero realizar." Mas o cinema ainda não paga as contas e ele segue, tentando o difícil, mas não impossível. Ser bom nas duas áreas.

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