Jensen Walke
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'O grande problema do mundo é a concentração de riqueza', diz Al Gore, vencedor do Nobel da Paz

Novo filme do ex-vice-presidente dos Estados Unidos, 'Uma Verdade Nada Inconveniente', estreia na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo nesta segunda-feira, 23

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2017 | 06h01

Na sexta-feira, 20, quando conversou com o Estado, Ai Weiwei – autor do cartaz da 41.ª Mostra e do filme de abertura, Human Flow – disse que, mais do que a tragédia dos refugiados, seu filme é sobre a crise da democracia e do planeta, que produz essas massas de nômades que se deslocam pelo mundo em busca de oportunidades – que os países desenvolvidos não querem mais lhes dar.

No sábado à noite, foi a vez de Al(bert) Gore, que falou por telefone sobre seu filme Uma Verdade Mais Inconveniente, atualmente na Mostra (20h50 desta segunda, 23, no CineArte 1) e com estreia anunciada para 16 de novembro. Passaram-se dez anos desde Uma Verdade Inconveniente, que, entre outras coisas, virou um êxito planetário e ganhou o Oscar.

O blockbuster dos documentários, e Gore venceu também o Nobel da Paz. Ele confirma agora o que disse Weiwei. A crise do clima é da democracia. A surpresa é que Mr. Gore, apesar de Donald Trump, está otimista. Quanto a candidatar-se de novo, “os próximos meses vão redefinir a oposição nos EUA.”

Como surgiu a ideia desse segundo filme?

O primeiro foi mais difícil. Quando me propuseram, achei que era uma loucura, que ninguém ia ver. A repercussão ultrapassou toda expectativa. Voltar ao tema foi consequência. Avaliar o que ocorreu nesses dez anos, e foi muita coisa.

O segundo filme dedica boa parte do tempo ao acordo de Paris e chega aos cinemas depois que o presidente Trump rompeu unilateralmente e retirou os EUA. Não é um retrocesso?

Pode-se dizer que sim, mas a saída dos EUA não destruiu o acordo, pelo contrário. Os países signatários defendem o acordo e, mesmo na América, administrações regionais contestam a decisão do Executivo e recorrem judicialmente ou executam os próprios programas. Muitas cidades aderiram à energia renovável, e isso tem sido um acontecimento notável.

O filme destaca os casos da Índia e do Chile. Como está a situação desses países?

O Chile, sob a presidência de (Michelle) Bachelet é o país do mundo que mais investe em programas e usinas de energia renovável. Parece piada no filme, mas o investimento estoura nossa estatística e aquela coluna não para mais de subir. A Índia foi o caso mais dramático no Acordo de Paris. O país não tinha fontes de crédito nem financiamento, precisava desesperadamente de energia para atender à demanda de uma das populações mais carentes do mundo. Não estávamos falando de desperdício, como na maioria das nações do Primeiro Mundo. Eram demandas básicas. A situação evoluiu tanto na Índia que a indústria automobilística do país comprometeu-se, num período incrivelmente curto, de só produzir carros elétricos. Isso vai equivaler a zero carbono, o que será decisivo para a melhoria das condições ambientais.

Apesar disso, as condições seguem críticas. Tivemos uma temporada particularmente dura de tufões, furacões e ciclones, e dos mais destruidores. O filme mostra o efeito do aquecimento global sobre as geleiras e o consequente impacto nos oceanos. Onde vai parar a água? Nas ruas de Miami...

E esse ano tivemos destruição em toda a América Central. Veja, não estou querendo minimizar essas tragédias nem fazer projeções otimistas puramente especulativas. Mas nos últimos dez anos a consciência ambiental aumentou muito e agora, graças ao presidente (Barack) Obama, dispomos de instrumentos de aferição muito mais importantes e precisos. Desde que fazemos essa medição, foi possível constatar que 14 dos 15 anos mais quentes da história iniciaram-se em 2001, com o recorde de 2016, que provocou toda essa hecatombe.

Apesar disso a plataforma de Mr. Trump é ‘aquecimento global bullshit’...

O grande problema do mundo atual é a concentração de riqueza. Os ricos estão cada vez mais ricos, não sou eu que digo isso. Para resolver a crise do clima temos antes de resolver a crise da governabilidade. O grande capital, o mundo do dinheiro, é quem manda de fato. Tem influência demais hoje em dia. Existem pessoas e empresas que investem pesado na negação da crise do clima – ‘Climate change denial’ – porque não querem enfrentar nenhuma possibilidade de restrição de seus lucros.

No Brasil, em busca de apoio no Congresso, o presidente (Michel) Temer tem adotado medidas que colocam em risco áreas da Amazônia e até dificultam a aferição do trabalho escravo – em pleno século 21. O que se pode fazer contra isso?

Não tenho expertise para ficar analisando o caso do Brasil, mas não é um fenômeno de vocês. Os apoiadores de Trump representam o que há de mais retrógrado em política ambiental. Vieram com tudo, mas a Suprema Corte tem imposto restrições a medidas do presidente e a oposição a ele cresce no Congresso, mesmo entre os republicanos. Creio que os próximos meses, ainda este ano, serão decisivos para que Trump feche seu primeiro ano de governo com uma oposição forte e articulada. E aí empresas como a ExxonMobil não vão mais poder dizer impunemente que o aquecimento global acabou, porque não é verdade. Há muito dinheiro, muita pressão sobre a mídia para tornar a verdade inconveniente.

Por falar nisso, qual é a liberdade dos diretores dos filmes? O senhor tem controle?

O final cut é deles. Davis Guggenheim fez um trabalho maravilhoso no primeiro, mas Bonni Cohen e Jon Shenk partiram para uma linha de cinema verité muito interessante. Eu não mando nada. Só posso fazer piada, porque eles expõem como envelheci nesses dez anos.

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