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'O Grande Mestre’ une amor, kung fu e reflexão

Novo filme de Wong Kar-wai procura dar densidade a gênero já desgastado

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

01 de novembro de 2013 | 21h37

[Em sua primeira incursão no gênero artes marciais, o chinês (de Xangai, radicado em Hong Kong) Wong Kar-wai usa todo o aparato visual que já conhecíamos de seus trabalhos anteriores como Sempre Juntos e Amor à Flor da Pele. Logo de início, em O Grande Mestre, há uma luta deslumbrante sob chuva torrencial. A água não entra na cena por nada. Ela fornece a luz e a coreografia necessárias para tornar original uma luta que, de outra forma, seria espetacular porém parecida com centenas de outras já vistas pelo espectador. Desta, não se esquece.

Aliás, um dos desafios de Kar-wai será entrar num terreno já minado por tantas obras parecidas entre si. Não se pode dizer que tenha perdido a aposta. A começar pela escolha do personagem, Ip Man (Tony Leung) que teria sido o homem a iniciar o mitológico Bruce Lee nas artes marciais.

Ip Man, aliás Wing Chun, evoca sua vida por flashbacks, desde os tempos de aprendizado, nos anos 30, até seus amores, frustrações e desafetos, ligados ora ao acaso ora a mudanças políticas do período. Esse é outro dos aspectos que fazem de O Grande Mestre algo mais que mera repetição de tantos outros filmes do gênero – o cuidado com a evocação do tempo e das contradições através das quais a História avança em aparentemente rumo cego e arrasta consigo seus personagens. Por mais poderosos que sejam, como diz a lenda do Ip Man, esses personagens também são humanos e sujeitos às condições do seu tempo. De uma forma ou de outra, vão sendo levados pela onda da História, assim como os homens ditos comuns.

Com O Grande Mestre, Kar-wai quis, obviamente, fazer um trabalho comercial, muito mais do que os anteriores e já citados como Felizes Juntos e Amor à Flor da Pele. Nestes, o apelo principal era sensual e romântico. Radicalmente romântico, deve-se dizer, até porque envolve paixões terminais. Mas nem por isso os filmes deixavam de seduzir por sua sensualidade doce, ambientação de cores marcantes, suaves movimentos de câmera e música envolvente - até mesmo com Nat King Cole cantando boleros em espanhol.

Alguns desses elementos de estilo estão presentes de O Grande Mestre. O gosto pelos planos ralentados e por certa aura romântica convivem com as exigências do gênero kung fu e sua premência por lutas a cada reviravolta do enredo. Ao mesmo tempo, Kar-wai destaca o pano de fundo histórico de modo que sua trama não fique solta num vácuo atemporal, como acontece em tantos filmes de gênero. Esses suportes dão sustentação à trajetória de um personagem que se confunde com a lenda, mas que também teve existência real.

De tal modo que O Grande Mestre acaba sendo como um vistoso jardim de muitas entradas e que pode tanto satisfazer gostos divergentes como desagradar a um público cada vez mais ansioso por pratos de paladar único. Sustentando-se sobre cenas de ação, toques de romance e reflexão histórica, propõe-se como espetáculo de amplo espectro. Mas se agrada a alguns justamente pela diversidade de abordagens, pode decepcionar os que gostam de músicas de uma nota só. Talvez os amantes das lutas marciais achem tediosos os intervalos entre elas. Quem gosta de história e romance não costuma ter paciência com longas cenas de ação, e assim por diante.

Nosso mundo está ficando cada vez mais especializado e esta tendência monotemática atinge o cinema. Por isso, de modo geral, os produtos comerciais saem da fábrica, digo, dos estúdios, com aparência tão anódina. Querendo satisfazer a um público sempre mais amplo, descartam as arestas e irregularidades que lhes dariam perfil definido. Saem amorfos, sem personalidade, e merecem ser chamados de produtos.

Isso não se pode dizer de O Grande Mestre. A marca do diretor está impressa nele.

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