O gênio de Buñuel, em duas mostras em SP

Sendo bom o cineasta, qualquer pretexto vale para se fazer uma mostra. É o caso de Luís Buñuel, que terá seu 101º aniversário de nascimento comemorado mês que vem. Mas a mostra já começa hoje, em São Paulo, e vai até 25 de fevereiro, com filmes aos sábados e domingos, às 14 h e 16 h, no Museu de Arte Moderna (MAM) em seu auditório Lina Bo Bardi (Pque. do Ibirapuera, s/n, portão 3, tel. 5549-9688.) Para quem perder, outro ciclo buñuelesco acontece às terças, 12 h e 17 h, na PUC - auditório Banespa/Biblioteca Nadir Kfouri, r. Monte Alegre, 984, tel. 3670-8265. O MAM exibe oito filmes do mestre espanhol e a PUC seis deles. Com exceção de dois, o surrealista Um Cão Andaluz e o mexicano O Anjo Exterminador, as mostras se limitam ao Buñuel da última fase, quando ele escolheu como parceiro o roteirista Jean-Claude Carrière. Não é um Buñuel tão irreverente ou ousado, antes um cineasta reflexivo e sereno, que não deixa de pregar suas peças no conformismo. Hoje a mostra exibe primeiro O Discreto Charme da Burguesia e depois O Fantasma da Liberdade. De 1972, Charme é uma brincadeira de Buñuel com o espectador. Mestre na mistura de ficção com realidade resultando em absurdos divertidos, ele coloca em cena um grupo de pessoas aparentemente respeitáveis, de classe média, que não param de chegar num restaurante para jantar, mas nunca conseguem comer, até mesmo quando se sentam à mesa. Chegam na noite errada, fogem quando descobrem o cadáver do dono do restaurante na sala ao lado, ou são interrompidos por manobras militares. Buñuel usa o jantar como centro da vida burguesa, todo um ritual de mostrar boas maneiras e riqueza. À mesa, esse tipo de gente tem o que fazer e sobre o que conversar, para preencher seu vazio, segundo a ótica do cineasta. E tome adultério, drogas, perversão como tempero. O Discreto Charme da Burguesia foi o filme de maior bilheteria de Buñuel, nem A Bela da Tarde rendeu tanto. Ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Desde o começo do filme, percebe-se que a representação é deliberadamente excessiva e os atores estão esplêndidos nessa clave, como Fernando Rey como um embaixador e Stephane Audran como a anfitriã. Uma das melhores cenas é um jantar em que a comida é falsa e os comensais acabam descobrindo que estão num palco, diante do público. Já O Fantasma da Liberdade é mais abertamente uma comédia em que o avesso das coisas é o elemento essencial. De 1974, é uma série de episódios vagamente relacionados entre si, que começam e acabam rapidamente, com um dos personagens saindo de cena e indo para outro lugar. Logo se está mergulhado numa outra história. Começa com as tropas de Napoleão invadindo Toledo em 1808; na cidade espanhola, um grupo de cidadãos (Buñuel inclusive) está diante de um esquadrão de fuzilamento. Logo a ação vai para a França contemporânea e é nesse ambiente que há a cena mais polêmica do filme, uma mesa de jantar onde os convivas sentam-se em privadas, daí entram em um cubículo para comer com total privacidade. Há mais: um condenado à morte é libertado pela polícia e dá autógrafos ao chegar à rua, um homem tem câncer e ganha um cigarro do médico, etc. um episódio precioso é o que mostra um casal. chamado à escola da filha, pois ela desapareceu. Chegados à escola, acham a menina na classe, ela responde presente na chamada e vai com os pais para a delegacia, onde um policial interroga-a sobre sua altura, seu peso, etc. É chamado um outro policial para procurá-la pela cidade e ele pergunta: posso levá-la comigo?

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