ALEX SILVA|ESTADÃO
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O fotógrafo e cineasta Jorge Bodanzky ganha retrospectiva no MIS

O diretor de 'Iracema - Uma Transa Amazônica' tem imagens adquiridas pelo IMS e expõe em junho ao lado de Martin Parr

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

09 de maio de 2016 | 06h00

Fotógrafo e cineasta veterano, o paulistano Jorge Bodanzky, aos 74 anos, ganha, a partir de 18 de junho, uma retrospectiva no Museu da Imagem e do Som (MIS) ao lado do colega britânico Martin Parr, dez anos mais novo e em tudo diferente do brasileiro, a começar pelo humor impiedoso do inglês. Bodanzky, ao contrário de Parr, sempre preferiu fotografar pessoas e povos com os quais se identifica – e com uma deferência que escapa ao espírito gozador do colega. Prova desse respeito ao antípoda é a série dos índios Zuruahã que vai exibir na mostra No meio do rio, entre as árvores: A Amazônia de Jorge Bodanzky, à qual pertence a foto abaixo, à direita, com crianças dessa tribo amazônica mantida isolada até os anos 1970. Foi justo nessa época que Bodanzky surgiu para o mundo do cinema com Iracema – Uma Transa Amazônica, marco do filme documental que ficou censurado por seis anos durante a ditadura militar no Brasil (leia abaixo).

Bodanzky fez inúmeras viagens ao território amazônico desde então. As imagens dos Zuruahã são de 2005 e encontram-se agora sob a guarda do Instituto Moreira Salles, que adquiriu todo o acervo analógico do autor, incluindo os filmes feitos por ele em Super-8. O cineasta começou sua carreira como repórter fotográfico, trabalhando para a revista Realidade, o extinto Jornal da Tarde e o Estadão.

Com o golpe militar e o fechamento da Universidade de Brasília, em 1965, Bodanzky foi para a Alemanha estudar cinema na Escola de Ulm. Teve a sorte de ser aluno do cineasta alemão Alexander Kluge (Alemanha na Primavera) que continua ativo, aos 84 anos. Outro nome com quem conviveu foi o fotógrafo de cinema e documentarista checo Jan Spáta (1932-2006), que dividia com Bodanzky o interesse por gente à margem da sociedade, ele que viveu a juventude entre manifestações por tarifas de ônibus mais baixas e provocando burgueses escandalizáveis nos Jardins, até encontrar sua turma na Cinemateca Brasileira.

Ao visitar sua prima Sylvia Orthof em Brasília, dois anos antes do golpe militar, Bodanzky decidiu entrar para a universidade local, onde foi aluno de Amélia Toledo, Athos Bulcão e Paulo Emílio Salles Gomes. Foi com Amélia, hoje com 89 anos, e o falecido Athos Bulcão (1918-2008) que exercitou pela primeira vez seu olhar de fotógrafo. Lá ele descobriu o Brasil e a cultura brasileira, excursionando por cidades satélites como Gama, na época um reduto de miséria e prostituição – e essa experiência seria útil ao filmar Iracema.

O primeiro número da revista Zum, do IMS, estampou algumas fotos dessa época, um documento valioso sobre os primeiros anos da Capital. Depois de seu estágio alemão, Bodanzky começou a operar a câmera para diretores ligados ao Cinema Novo e também para os cineastas da Boca do Lixo paulistana, sendo seu primeiro filme reconhecido como fotógrafo o premiado O Profeta da Fome (1970), de Maurício Capovilla. Ele trabalhou com grandes diretores, de João Batista de Andrade a Hector Babenco. Nunca interrompeu seu trabalho como cinegrafista – um de seus trabalhos mais recentes é o documentário À Margem do Concreto (2005), dirigido por Evaldo Mocarzel.

Paralelamente continuou rodando documentários como diretor, roteirista e cinegrafista, entre eles um com Jorge Mautner (Navegaramazônia, 2005) e uma revisão histórica da Capital (Brasília, a Utopia Inacabada, 2002). Ele, que fotografou filmes de ficção e tem uma filha diretora (Laís Bodanzky, de Chega de Saudade), não pretende abandonar o gênero. “Ela é diferente, eu sou aventureiro, gosto de viajar, de documentar a vida em outras regiões”, diz, revelando sua maior influência como realizador, o francês Jean Rouch, que revolucionou o cinema nos anos 1960 cruzando o real e o ficcional com raro despojamento. “Eu me identifico com seu modo de olhar, assim como o de Cassavetes e Wim Wenders”.

Bodanzky prepara para breve uma série televisiva de seis capítulos sobre a história da Transamazônica, estrada que inspirou seu Iracema, para a HBO. Não é seu primeiro trabalho para uma produtora estrangeira. O próprio Iracema foi rodado para a ZDF alemã em 1974. “Fiz com o Estúdio Madalena um livro com os fotogramas em Super 8 que deram origem ao Iracema, que espero ver pronto para a mostra no MIS”, revela o fotógrafo, que agora virou personagem da filha: Jorge Mautner vai interpretar Bodanzky em Como Nossos Pais, quarto longa dirigido por Laís Bodanzky, ainda em produção.

‘Iracema’, mais que uma transa amazônica numa época violenta

Filme que fez de Jorge Bodanzky um cineasta, Iracema- Uma Transa Amazônica nasceu seis anos antes de começar a ser rodado – mais precisamente, na rodovia Belém-Brasília, em 1968. Bodanzky era fotógrafo da revista Realidade e esperava o colega repórter levantar dados para uma reportagem num posto de gasolina. “Fiquei dois dias observando a movimentação de jovens prostitutas, de 12, 13 anos, em torno do posto, rondando os caminhoneiros”, conta. Hermano Penna, amigo roteirista, se encarregou de desenvolver um argumento. Hector Babenco colaborou num primeiro momento. Orlando Senna acabou codirigindo. Não havia entre eles a consciência de que o nome Iracema era um anagrama de América, como insinua um crítico norte-americano, que viu no docudrama – “nem era esse o nome, na época” – uma grande metáfora. Mesmo assim, o crítico escreveu que se tratava de uma parábola sobre o destino de um continente miscigenado à deriva.

A história de Tião, o caminhoneiro, e Iracema, a jovem prostituta que viaja com ele Brasil afora, em todo o caso, se adaptava ao propósito de Bodanzky: retratar o que se passava na Amazônia numa época em que a Belém-Brasília já estava concluída e a Transamazônica apenas começava. Além da prostituição, o cineasta queria sobretudo falar da destruição da floresta, do contrabando de madeira, dos grileiros e da megalomania do regime militar, que usou a Transamazônica como propaganda do “Brasil grande”.

Bodanzky não queria uma prostituta de verdade como protagonista. Foi a um programa de auditório numa rádio de Belém, onde escolares matavam aula, e descobriu Edna Cerejo, a Iracema ideal, hoje professora e avó. “Fomos para o Mercado Ver-o-Peso fazer umas fotos e a mãe dela, lavadeira, lhe deu uns safanões por não estar na escola”, conta. Finalmente, a mãe autorizou sua participação nas filmagens que começaram – e não foram interrompidas pelos militares por ser uma produção da televisão alemã, a ZDF. O filme estreou na Alemanha em fevereiro de 1975, mas teve de fazer uma carreira clandestina no Brasil, pois as autoridades se recusavam a considerá-lo um filme brasileiro – e, portanto, não podia obter um certificado da Censura Federal.

Como fez Tião no filme, abandonando a garota num prostíbulo à beira de estrada, o Brasil abandonou a Transamazônica. O resultado é o que se vê hoje. “Penso, porém, que a sociedade civil está mais organizada e vejo que há uma enorme resistência à destruição”, observa Bodanzky. “As pessoas de lá, as comunidades indígenas, podem salvar a Amazônia, mas elas nunca são ouvidas”.

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