O fim de uma era e, como em Zweig, a questão é de tom

Algum crítico há de insistir que A Excêntrica Família Tennenbaum e Viagem para Darjeelin são melhores. Não se iluda. Os demais filmes de Wes Anderson podem ser bons - e O Fantástico Sr. Raposo é ótimo -, mas o melhor é a comédia que estreia hoje. A própria definição de ‘comédia’ é relativa, senão temerária. Anderson pratica o humor, com certeza, mas o dele é fino, no limite do drama e do suspense. Para não falar da ação - que O Grande Hotel Budapeste tem, o tempo todo.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

03 de julho de 2014 | 02h00

O cinema de Anderson é levemente farsesco, e necessita de um tom que só a interpretação pode dar. Ela não é - nunca - naturalista e por isso mesmo grandes atores, de Gene Hackman a Anjelica Huston, de Edward Norton a Bill Murray, adoram trabalhar com ele. Em Berlim, em fevereiro, Murray disse que, pelo amigo Wes, faz ‘qualquer coisa'.

Nos últimos anos, o texano de 45 anos - nasceu em Houston, em 1.º de maio de 1969 - tornou-se frequentador assíduo dos maiores festivais de cinema. Já concorreu ao Urso de Ouro - por Tennenbaum e A Vida Marinha de Steve Zissou -, à Palma de Ouro - por Moonrise Kingdom - e ao Leão de Ouro, por Darjeeling. O júri da Berlinale de 2014 outorgou-lhe, enfim, seu grande prêmio. Ufa! Já não era sem tempo.

Nas entrevistas que deu em Berlim - leia acima -, Wes Anderson assumiu a matriz europeia de seu Hotel Budapeste. Confessou que o filme nasceu de seu amor pela literatura de Stefan Zweig. Não citou nenhum livro específico do autor de A Carta de Uma Desconhecida - que virou filme (grande) de Max Ophuls. Anderson disse que o filme foi-lhe sugerido pelas observações de Zweig sobre a Viena do fim da Belle Époque em diversos livros, em especial no autobiográfico O Mundo Que Eu Vi. O clima que recria em Hotel Budapeste é justamente esse - o fim de uma época e sua substituição por outra. Vale lembrar que Zweig, fugindo do nazismo, exilou-se no Brasil, e aqui se matou.

Na trama de Hotel Budapeste, o escritor Jude Law vai a um hotel outrora famoso e consegue ganhar a confiança, além da admiração, do dono. Mr. Mustafa, interpretado por F. Murray Abraham, lhe conta como, 30 anos antes, iniciou como mensageiro (bellboy) no prestigiado Hotel Budapeste. Menino, ele é interpretado por Tony Revoloni. Liga-se a M. Gustave, que é a alma do hotel. M. Gustave (Ralph Fiennes) é um gentleman e um admirador das mulheres, não apenas as jovens, como aquela por quem ‘Zero’ (Revoloni) se apaixona, mas as velhas, também - como Tilda Swinton.

Ela morre e deixa de herança para M. Gustave um quadro valiosíssimo. Seu filho, Adrien Brody, vai fazer de tudo para eliminar o intruso Mr. Gustave, que a essa altura já se ligou a Zero, a quem dá lições de vida e elegância. Mas não é fácil sobreviver ao assassino de aluguel (Willem Dafoe) contratado por Brody. E tudo se passa numa república fictícia, entre as duas grandes guerras, e no momento em que comunismo e fascismo se alastram pela Europa. Brody vira fascista, o que aumenta os perigos de Mr. Gustave e Zero, mas eles não apenas vão salvar seu valioso quadro como Zero vai herdar o hotel.

Quando lhe perguntam quem são seus mestres, Anderson, invariavelmente, cita Ernst Lubitsch, William Wyler, Frank Borzage e Roubem Mamoulian, mas, acima de todos, coloca Stanley Kubrick. É um racionalista extremo, que cria um filme como uma peça de ourivesaria, mas que foge ao cerebralismo justamente por esse tom particular que é o seu. Há algo de ligeiramente falso, de afetado, no cinema de Anderson. Ele fez sua animação (Sr. Raposo) como live action, filma suas live actions como se fossem animações. Luchino Visconti filmava o fim de sua era aristocrática. Wes Anderson, um Visconti filtrado por Lubitsch, por Kubrick? E por que não? É divertido, inteligente, maravilhoso. Numa palavra - brilhante.

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