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O filme de monstros do mestre do suspense

'Os Pássaros’, de Alfred Hitchcock, faz 50 anos e ganha edição de luxo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2013 | 21h12

Quem viu o recente Hitchcock, de Sacha Gervasi, com Anthony Hopkins, sabe dos problemas que Alfred Hitchcock enfrentava por volta de 1960. Face a uma nova geração de diretores que surgia, ele chegou a ser considerado ultrapassado, mas reagiu, enfrentando tudo e todos, para fazer Psicose, que reinventou seu cinema. Mas não foi fácil, e, se não fosse o apoio de sua mulher, Alma Reville – que o filme aponta quase como coautora –, a história teria sido outra. Seja como for, no desfecho de Hitchcock, o filme, o mestre do suspense, de novo no ápice, não sabe direito que filme vai fazer, ou pelo menos o diz. Num golpe de marketing, o pássaro sinistro vem pousar no seu ombro.

Com Os Pássaros, o problema foi outro e também virou filme – The Girl, A Garota, com Sienna Miller. Obcecado por sua estrela, Tippi Hedren – e ela resistiu a seus avanços –, Hitchcock liberou sua porção mais sádica e dominadora. A pobre Tippi sofreu nas mãos dele, mas, além do papel de Melanie em Os Pássaros, Hitchcock também fez dela a sua Marnie, na obra-prima doente, segundo a definição de François Truffaut, que leva o nome da personagem.

Os três filmes, realizados entre 1960 e 64, compõem uma trilogia. Abordam os complexos de Édipo e Electra. Desde os anos 1940, Hitchcock já vinha fazendo filmes psicanalíticos. Os críticos gostam de dizer, meio de brincadeira, que Freud e ele nasceram um para o outro. É sério, e a trilogia edipiana é o bloco de filmes pelo qual Hitchcock merece seu lugar no panteão dos grandes, por mais que momentos isolados – A Sombra de Uma Dúvida, Janela Indiscreta, Um Corpo Que Cai/Vertigo, escolhido no ano passado, na Inglaterra, como o melhor filme de todos os tempos, e Intriga Internacional – desfrutem de excelente reputação.

Em maio, no Festival de Cannes, ao apresentar a versão restaurada de Um Corpo Que Cai, a própria Kim Novak lembrou que o culto começou depois e, na época, muita gente se decepcionou com Vertigo. Os críticos são assim mesmo. Se dependesse da maioria deles, o cinema não avançaria. Muitos só conseguem pensar dentro de limites estreitos. Hitchcock sabia disso. No livro com a entrevista que concedeu a Truffaut, diz ao discípulo que se preocupe com o ‘Japão’, um país e uma cultura exóticos e distantes. Era a sua maneira de dizer – aposte na diversidade e no risco.

Os Pássaros está saindo em Blu-Ray numa edição de colecionador que comemora os 50 anos do filme. A Universal caprichou e, além do próprio filme, com imagem e som perfeitos em alta definição, os extras incluem o trailer, o teste de Tippi Hedren, o final original, que foi excluído, uma comparação entre o storyboard e as cenas filmadas, um pôster em tecido e, preciosidade maior, um trecho em áudio do diálogo entre Hitchcock e Truffaut, incluído no livro reeditado pela Cosac Naify.

O cinéfilo agradece, mas o agradecimento vai mesmo é para Hitchcock, por ter feito o filme. Há 50 anos, mais até do que havia ocorrido com Um Corpo Que Cai, o desapontamento foi grande quando surgiu o filme de monstros do mestre. Em Cannes, onde Os Pássaros teve sua première de gala – no ano em que O Leopardo, de Luchino Visconti, venceu a Palma de Ouro -, a recepção foi glacial. O culto veio depois, e hoje o filme é considerado clássico. Em Psicose, baseado no pulp de Robert Bloch, Hitchcock contara a história de um edipiano que mata a mãe e assume seu lugar, numa fissura do inconsciente que transforma Norman Bates num caso emblemático de mente doentia. Norman não tem cura. Mata para proteger seu segredo. Mitch, o personagem de Os Pássaros – que Hitchcock adaptou de um conto de Dafne Du Maurier, autora que já lhe fornecera a história de Rebecca, a Mulher Inesquecível, em 1940 –, pode ter uma mãe dominadora que interfere na sua relação com as mulheres, mas, tal como é interpretado por Rod Taylor no filme, ele não é um assassino. Marnie rouba para compensar sua disfunção sexual, mas, como versão feminina de Norman Bates, ela não apenas tem cura como clama por ela, numa cena-chave.

Melanie (Tippi) conhece Mitch numa loja de animais em São Francisco. Há uma química imediata entre eles e ela se passa por funcionária. Logo em seguida, o segue até Bodega Bay, onde Mitch vive com a mãe. Leva um casal de pássaros numa gaiola. Do nada, é atacada por uma gaivota no barco em que faz a travessia da baía. É o primeiro signo da violência que virá, mas o ataque dos pássaros, com todas as explicações que os personagens buscam para ele, é uma metáfora das relações familiares, do amor possessivo da mãe e do sexo reprimido. Os pássaros voltam-se contra os homens, mas também pode ser que o filme seja uma parábola cristã – para que os homens reassumam sua humanidade e fraternidade.

A nora indesejada é atacada, em muitas cenas se inverte a situação clássica e os humanos ficam presos (em gaiolas?), à mercê dos bicos ameaçadores dos pássaros. O final em aberto segue-se a um ataque particularmente destruidor, em que todos, mãe, filho e nora, precisam se auxiliar mutuamente. O interessante é que os ataques não são o que o filme tem de melhor e, sim, o que os precede – a forma como Hitchcock arma o suspense, na expectativa do apocalipse. Algumas cenas tornaram-se cultuadas e George Romero admite que Os Pássaros foi seu farol para fazer A Noite dos Mortos Vivos, em 1968.

Hitchcock buscou sempre a perfeição técnica e os ataques, avançados em 1963 – com sons eletrônicos, em vez de música – ficaram defasados, face ao que hoje é possível fazer. Mas talvez seja equivocado pensar que o próprio mestre gostaria de refazer as cenas dos pássaros, sem tocar no restante. Elas contribuem para a aura do filme, como o porto em Marnie, que é um telão expressionista. São formas de romper com o realismo que Hitchcock exercitou em poucos filmes – A Sombra de Uma Dúvida, Psicose.

Um aspecto não negligenciável é que Melanie/Tippi, mesmo quando atacada, não grita. Danny Peary, em seu livro sobre cult movies, assinala que poucas mulheres gritam no cinema de Hitchcock – e os casos mais notáveis são a Doris Day de O Homem Que Sabia Demais, a segunda versão, e a Janet Leigh de Psicose.

Tippi, como Marnie, grita para que o marido (Sean Connery) a ajude, mas é um grito de angústia, muito mais que de medo. O caso de Melanie/Tippi possui desdobramentos. Na vida, para punir a atriz que o rejeitava, Hitchcock substituiu por pássaros de verdade o que deveriam ser pássaros de mentira. O silêncio imposto a Melanie também era uma agressão a Tippi. A aura do filme não cessa de crescer.

OS PÁSSAROS – EDIÇÃO DE 50º ANIVERSÁRIO

Direção: Alfred Hitchcock (EUA/1999, 119 min.)

Elenco: Tippi Hedren, Rod Taylor

Distribuidora: Universal, R$ 69,90 - Blu-Ray

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