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O filme coreano 'Certo Agora, Errado Antes' seduz com seu relato de dupla face

Longa do diretor Hong Sang-Soo mostra como poucos detalhes podem fazer grande diferença no amor e no cinema

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

26 de maio de 2016 | 04h00

Como o francês Éric Rohmer, o sul-coreano Hong Sang-Soo tem capacidade de contar histórias que parecem não dizer nada de mais, mas que contêm um mundo dentro delas.

É assim com esse delicado e sutil Certo Agora, Errado Antes. Descrita a seco, a trama parece rala. Um diretor de cinema, Ham Cheon-Soo (Jae Yeong Jeong) chega a uma pequena cidade nos arredores de Seul. Ele vai apresentar um dos seus filmes e fazer uma palestra depois.

Há um desencontro e Ham vai matar o tempo no jardim de um templo. Lá conhece por acaso uma jovem pintora e dá início a um flerte. Eles vão ao estúdio da moça, depois saem para comer sushi, em seguida vão a uma festa com amigos. Falam, fumam e bebem o tempo todo. Acima de tudo, falam. O cinema de Sang-Soo acredita no diálogo.

Mas também crê no rigor das imagens. Usa muitos planos fixos e somente movimenta a câmera quando necessita, por causa da linguagem. Nunca de maneira exibicionista ou virtuosística. Busca a simplicidade, essa arte difícil.

Simples não quer dizer simplório. Pelo contrário, há um complexo experimento de linguagem embutido em toda essa simplicidade. Desta forma: a historinha de Ham e da bela Yoon (Kim Min-Hee) é desdobrada em duas. Duplicada.

Quando se pensa que terminou, recomeça. Quase do mesmo jeito. Mas com pequenas diferenças. Ora é um enquadramento que difere do inicial. Ou o tempo de duração das cenas. Ora são os diálogos. Um pouco sinuosos na primeira versão, mais francos e abertos na segunda. Aos poucos, a história “igual”, por força dessas ligeiras modificações formais, se torna diferente.

O procedimento lembra um pouco o de Smoking/No Smoking, de Alain Resnais. Nessa história, oferecem um cigarro a um personagem e ele recusa. Na réplica, aceita. Este simples fato determina toda uma série causal diferente. Dialoga também com o chamado “efeito borboleta”, sobre pequenos fatos que podem gerar grandes consequências.

Esse dispositivo parece, já em si, fascinante. Mas não se trata de forma vazia, desenhada para diletantes. No jogo amoroso dos personagens discute-se questões cruciais, como o valor da verdade e da imaginação, a arte da sedução, a memória e o tempo. É, em todos os sentidos, um filme simples apenas na aparência. Parece, como outros de Sang-Soo (Montanha da Liberdade,  Hahaha e A Visitante Francesa), fruto de muita meditação e depuração de estilo.

 

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