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'O Filho Eterno' mostra o amadurecimento do pai de um garoto com síndrome de Down

Longa de Paulo Machline fala sobre diferença, afeto e aceitação

Luiz Carlos Merten, O Estado

02 Dezembro 2016 | 03h03

Cristóvão Tezza assistiu à sessão de O Filho Eterno no Festival do Rio. Ao rever o filme, em Curitiba, comentou com o diretor Paulo Machline – “Você mudou o filme.” E o escritor não deixou por menos – “Ficou melhor.” Paulo Machline não mudou seu filme, no sentido de remontar. Mas fez mudanças substanciais que ajudam a tornar O Filho Eterno mais atraente. Vamos por partes.

O Filho Eterno não nasceu como umprojeto do diretor. Foi um convite do produtor Rodrigo Teixeira. Machline hesitou. O livro ganhou um monte de prêmios. Conta, do ponto de vista de um pai escritor, sua complicada aceitação do filho, que nasce com Síndrome de Down. “Quando o Rodrigo me propôs, disse não, de cara. E até tinha uma justificativa – não era um universo que me fosse afim. O Rodrigo me disse para pensar com calma, me deu um tempo. Eu li e me caiu a ficha. Sou pai, meu filho não tem a Síndrome de Down, mas é um filho, poxa. A história é sobre diferença e afeto, sobre aceitação. Comecei a pesquisar. Conheci pessoas, histórias incríveis. E aceitei.”

O filme foi feito em Curitiba, no auge do movimento pró-impeachment da presidente Dilma Rousseff. “A gente estava no meio do tornado”, reflete Machline. “Cheguei à conclusão de que, se a gente não construísse uma bolha, não conseguiria filmar. Era muita agitação.” Machline agradece o carinho dos paranaenses, mas não perde o senso crítico. “Era um processo muito doido. Havia no ar aquele clima de legalidade. ‘A república de Curitiba defende a lei’, e ao mesmo via muita arrogância, discriminação, preconceito, machismo daqueles mesmos defensores da ordem.”

Um pai e seu filho diferente – que exige cuidados especiais. Um pai que não se dá, e sofre com isso. Nesse abismo que ele constrói com o filho, a mulher, entra o futebol – quase, ou como, um personagem. Tudo isso já estava no roteiro, foi filmado. Mas então, o que mudou, para o escritor dizer a seu adaptador que o filme virou outro, e melhor? Na entrevista, Machline explica. Está mais feliz com o próprio filme. Quando conversou com o repórter, ele já estava com a mala pronta – a valise. Veio rapidinho, para a exibição do filme e a rodada de entrevistas. Nos últimos meses, Machline tem vivido no Uruguai.

É lá que grava a nova temporada de O Hipnotizador. A série com Leonardo Sbaraglia é uma produção de Rodrigo Teixeira. Machline dirige com Marco Dutra e Aly Muritiba. O diretor não tem parado. Está satisfeito com sua atividade, mas sente que precisa parar um pouco e voltar com um projeto mais pessoal. “Tenho algumas ideias que estou sedimentando. Preciso me bagunçar mais um pouco, como quando fiz Natimorto (de Lourenço Mutarelli).” 


ENTREVISTAS

Paulo Machline (DIRETOR)

"Só mexer 

com a trilha já mudou tudo"

Paulo Machline dirigiu Natimorto e Trinta, sobre Joãosinho Trinta. Dois filmes bem diversos um do outro. O Filho Eterno não era um projeto dele, mas Macline terminou por fazê-lo a seu modo.

Cristóvão Tezza viu o filme no Festival do Rio e diz que agora é outro filme. O que você mudou, afinal, nesses dois meses?

Na verdade, foram coisas simples. Estava no Uruguai, gravando, quando O Filho Eterno foi finalizado no Brasil. Seguia a distância, mas não é a mesma coisa. O som foi equalizado muito alto. Os foguetes do futebol parecem tiroteios. E o filme tinha muita música, você escreveu isso quando viu o filme no Rio. O que fiz foi baixar o som e tirar a música, só. Nas cenas em que o garoto desaparece e o pai o procura na rua, seu desespero aumenta. Havia música demais. Agora, ficou só o ritmo da respiração ofegante do Marcos Veras. E só isso fez outro filme, é verdade.

 

Você vacilou antes de aceitar fazer o filme. Por quê?

Porque achava que não era o meu universo. Bobagem, é uma história de afeto, de pai e filho. Basta olhar sem preconceito. Mas os pais com filhos especiais têm problemas com o livro, com o filme. O Cristóvão teve muita coragem ao dizer o que muitos pensavam, mas não tinham coragem de admitir. “Não quero esse filho!” Acho que a coisa começou a funcionar quando descolei do livro. Dei mais importância à mulher. Criei a minha história. De certa forma, transformei um livro de alta literatura num filme acessível. E agora estou feliz.


Débora Falabella (ATRIZ)

"Sinto que mudei. Não é um papel simples"

Débora Falabella faz a mãe em O Filho Eterno. A personagem é minimizada, não existe no livro de Cristóvão Tezza. Débora está no ar com Nada Será Como Antes. Ela fala desses papéis tão diversos.

A série está sendo um sucesso, e é um papel glamouroso. Como é se ver em personagens tão diversas?

O mais engraçado é que o Nada foi gravado há bastante tempo. O Zé Villamarim fez a série antes de Justiça. Deu um pouquinho de medo porque era meu primeiro trabalho com o Murilo Benício, seu marido desde Avenida Brasil, mas o Jorge Furtado disse que escreveu para a gente. Meu pai ajudou a criar a TV em Minas, então é uma coisa que sempre ouvi falar. Além da história de amor, que é linda, as personagens da série são visionárias, à frente do seu tempo. A Verônica tem consciência da questão feminista, que hoje é superatual. Acho maravilhoso.

E a mãe de O Filho Eterno. Ao contrário do pai, ela não rejeita o filho...

O livro do Cristóvão Tezza é muito centrado na paternidade. O Paulo Machline é que introduziu a mãe. Acho uma coisa linda, um pouco triste também. O pai vai reagindo do jeito dele, e o casal se afasta. Tem uma cena em que ela diz tudo o que sentiu. É tão maduro. Mas para a mãe é algo mais natural. Ela já amava esse filho desde antes de ele nascer. É uma coisa instintiva. Achei muito importante ter feito O Filho Eterno. Sinto que mudei. Não é uma história para se viver impunemente. Espero que isso passe para o público.

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