O fantasma no cinema de Buñuel

Buñuel, 101. Don Luis nasceu em fevereiro de 1900, em Calanda. No ano passado, ciclos e retrospectivas em todo o mundo festejaram o nascimernto do gênio surrealista. O centenário passou, as reverências a Luis Buñuel continuam. É uma das raras unanimidades da história do cinema e, neste caso, nem o anjo pornográfico Nélson Rodrigues se atreveria a dizer que a unanimidade é burra. Há dois ciclos que homenageiam Buñuel na cidade. Na verdade, é o mesmo ciclo, desenrolado em dois locais e em dias diferentes.No MAM, Museu de Arte Moderna, de 14 de janeiro a 25 de fevereiro, sempre aos sábados e domingos, às 14 e 16 horas, serão exibidos os filmes Esse Obscuro Objeto do Desejo, O Fantasma da Liberdade, O Discreto Charme da Burguesia, Diário de uma Camareira, Um Cão Andaluz, O Anjo Exterminador, Via Láctea e A Bela da Tarde. Na PUC, Pontifícia Universidade Católica, as sessões serão às terças, de 16 de janeiro a 20 de março, às 12 e 17 horas, mostrando Esse Obscuro Objeto do Desejo>, O Fantasma da Liberdade, O Discreto Charme da Burguesia, O Anjo Exterminador, Via Láctea e A Bela da Tarde.Com exceção de Um Cão Andaluz, dos anos 20, justamente a estréia do autor, em parceria com outro surrealista famoso, Salvador Dalí, e O Anjo Exterminador, rodado no México, no começo dos anos 60, são todos, basicamente, títulos da fase final da carreira de Buñuel, marcada pela parceria com o roteirista Jean-Claude Carrière. Não se pode dizer que Carrière tenha domesticado Buñuel, e nem isso seria verdade, mas na parceria de ambos os filmes são mais serenos sem perder em nada o espírito demolidor e iconoclasta. A forma é mais clássica e a estrutura narrativa repousa (quase) sempre em esquetes. A narrativa episódica revelou-se a ideal para expressar o surrealismo, segundo Buñuel.Pegue-se o primeiro filme do diretor, não o que abre o ciclo, no domingo. Nesse dia os filmes são O Discreto Charme da Burguesia e O Fantasma da Liberdade. Para começar a falar sobre Buñuel é bom começar justamente por Um Cão Andaluz. As imagens desse filme fazem parte do imaginário de todo cinéfilo que se preze. Na abertura, uma navalha corta o olho, imagem emblemática do próprio surrealismo como um todo, pois quer dizer que aquilo que o espectador vai ver, dali para a frente, refere-se justamente ao que transcende o olhar, pertence aos domínios do inconsciente, ao que não pode ser explicado pela razão.A mão cheia de formigas, as cenas eróticas, tudo contribuiu para a sensação que o filme, imediatamente, provocou. A propósito de Um Cão Andaluz, feito na França, o próprio Buñuel disse que a massa imbecil havia considerado belo e poético o que para ele, era um desesperado apelo ao crime. Veio depois A Idade do Ouro (em 1930), também na França, e o documentário Las Hurdes (1932), rodado numa das regiões mais miseráveis da Espanha, que não integram a programação. Também ficaram de fora os filmes que Buñuel rodou no México e até o cult Viridiana, com o qual ele ganhou a Palma de Ouro em Cannes. O ciclo, para valer, começa com o filme imediatamente seguinte - O Anjo Exterminador, também com Silvia Pinal.Nada mais surrealista que a premissa do Anjo. Um grupo de pessoas fica preso dentro de uma casa, na qual se realiza uma festa. A partir daí, as pessoas despem o manto da civilidade e as cenas e situações permitem a Buñuel investir, com virulência, contra o espírito burguês, esse um de seus alvos preferidos, ao longo de toda a carreira, com a família, a religião, a propriedade e as armas. Com O Discreto Charme, ele ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Boa parte do filme mostra os burgueses querendo comer ou fazer amor, o que não deixa de ser tudo a mesma coisa. Numa cena estão à mesa, abre-se uma cortina e o cenário é um teatro, como se o comportamento burguês fosse (não será?) só uma representação. Em outra, os burgueses também estão à mesa, mas sentados em vasos sanitários. É divertido e algo mais.Há cenas e imagens que percorrem e até assombram esses filmes. Em Via Láctea, que passou no Brasil como O Estranho Caminho de São Tiago, Buñuel revisa quase 2 mil anos de cristianismo, revendo tudo aquilo que, para o dogma da Igreja se constitui heresia. Seu Cristo saltita as melenas ao vento e, numa cena memorável, Julian Bertheau, como um mordomo, disserta sobre a graça, no seu sentido teológico, enquanto dispõe pratos e talheres numa mesa. As perversões de Sevérine, a mulher insatisfeita que passa meio turno num bordel A Bela da Tarde, as duas atrizes (Carole Bouquet e Angela Molina) que representam as diferentes faces da mesma mulher em Esse Obscuro Objeto de Desejo, o ciclo é cheio de idéias integrantes. Nada mais natural, pois Buñuel, com Ingmar Bergman e alguns poucos, é considerado um dos raros pensadores que trabalharam com o cinema ao longo do século das luzes. O fantasma que assombra seu cinema é a liberdade. O surrealista Buñuel sempre foi, acima de tudo, um libertário.Mostra Buñuel. MAM - Auditório Lina Bo Bardi. Parque do Ibirapuera, s/n - portão 3, tel. 5549-9688. Até 25/3. E terça, às 12 e 17 horas. Grátis. PUC - Auditório Banespa / Biblioteca Nadir Kfouri. Rua Monte Alegre, 984, tel. 3670-8265. Até 20/3

Agencia Estado,

11 de janeiro de 2001 | 21h26

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