Raccord Produções
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O eterno retorno de Nelson Rodrigues

Terminam neste domingo, 16, as filmagens de 'Álbum de Família', de Daniel Belmonte, rodado de forma remota

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2020 | 21h00

Era só uma questão de tempo, até que alguém assumisse o desafio de fazer um filme remotamente. No Brasil, a iniciativa coube a Daniel Belmonte, que levou seu projeto à Raccord Produções. Neste domingo, 16, terminam as filmagens de Álbum de Família. Nelson Rodrigues, o eterno retorno. Belmonte conta: “Confinado em casa, confesso que estava enlouquecendo. As lives viraram a válvula de escape, todo mundo está fazendo. Mas o meu negócio é o cinema. Comecei a pensar num projeto que fosse viável e a resposta veio por meio de Nelson Rodrigues”.

Desde março, Belmonte está isolado. Seus amigos, também. Quem pode, neste Brasil imenso, está cumprindo a quarentena. E a maioria das pessoas está confinada com a família. “Nelson pensou a sociedade brasileira, a família brasileira. Em dezembro se completarão 40 anos de sua morte. Pensei em alguma coisa que me permitisse abordar o tema da família. O isolamento deixa as pessoas mais vulneráveis, carentes de afeto. Terminei chegando ao Álbum de Família. Levei minha ideia à Clélia Bessa, da Raccord, porque a considero minha madrinha. Anos atrás, a Clélia me ajudou a distribuir o longa que dirigi, o B.O. Embora a Raccord não seja distribuidora, ela aceitou o desafio e o filme conseguiu vir a público.”

E Clélia: “O Daniel foi meu aluno de roteiro no curso de cinema. Como produtora, minha função é ajudar os diretores a contar suas histórias. E a de Álbum de Família é muito boa, um roteiro excelente. Não deu para resistir”. Só para lembrar, a Raccord é uma produtora estabelecida, com rica carteira de filmes. Agora mesmo, tem um projeto imenso – Pluft, o Fantasminha – baseado na obra de Maria Clara Machado –, que a diretora Rosane Svartman filmou de forma original e criativa. Para dar aos fantasmas a mobilidade e leveza que deveriam ter, Rosane filmou debaixo d’água, uma iniciativa que Hollywood considerou inviável quando Sofia Coppola anunciou que só filmaria A Pequena Sereia desse jeito. A Raccord bancou o projeto e agora é só uma questão de tempo, no novo normal, para que o filme chegue às salas.

Foi nesse momento que chegou para ela o filme de Daniel Belmonte. Só para lembrar, B.O. era sobre dois garotos que faziam um filme na base da guerrilha. A metalinguagem está de volta em Álbum de Família. Uma equipe se reúne para ensaiar a peça de Nelson Rodrigues e o objetivo é questionar a ideia da família tradicional a partir das próprias experiências de confinamento dos integrantes da equipe durante a pandemia. “O filme é o nosso testemunho afetivo de um momento e um olhar sobre a dramaturgia de Nelson. É possível julgar um autor pelo crivo do mundo de hoje?”, pergunta-se o diretor. E ele mesmo esclarece: “Os atores contracenam uns com os outros usando os recursos que o cinema possibilita (tela dividida, voz off) e as ferramentas da internet (Zoom, WhatsApp).”

Tudo isso pode parecer muito diferente, mas Clélia faz uma ressalva importante. “Estamos rodando remotamente, em isolamento, mas com uma equipe tradicional. Temos fotógrafo, técnico de som, diretor de arte, assistente de direção, diretor, todas as funções necessárias e clássicas no cinema nacional”, explica. O modelo de produção foi que mudou. “Tudo isso nos traz um aprendizado muito grande e que será importante para os novos tempos. A pandemia está trazendo novos modelos de produção e alguns serão incorporados, dependendo do projeto, em tempos normais, no pós-pandemia”, reflete Clélia.

Ela dá um exemplo. “No pré-pandemia já ocorria de a trilha ser gravada remotamente, com orquestras de outros países.” E mais: “Estamos conseguindo integrar as famílias de nossos artistas. A mulher de Otávio Muller tem operado a câmera nas gravações que são feitas na casa deles. Tonico Pereira, um ator maravilhoso, não ficou satisfeito com algumas cenas e quis gravar de novo. Tudo isso é novo para a gente e está sendo viabilizado por se tratar de um modelo inovador de produção”.

Daniel Belmonte conversa com o repórter pelo telefone numa pausa da produção. Ele é ator no próprio filme e, nesse dia, está preparando o set em sua casa. Os sets virtuais são montados nas casas do elenco e sofrem interferências da direção de arte, como se fossem locações. O processo é realizado pela plataforma Zoom, sem contato físico entre os membros técnicos da equipe e os atores. O contato, quando existe, é do elenco com familiares que são integrados às cenas.

Álbum de Família foi escrita por Nelson em 1945. Proibida no ano seguinte, só pôde ser encenada em 1965. Retrata uma família que, sob a ótica do locutor – que representa a opinião pública – é perfeitamente feliz, mas essa é só uma aparência. A intimidade é outra – paixões incestuosas, perversões variadas.

Belmonte está entusiasmado. “As coisas estão saindo melhores do que o sonhado, por conta desse elenco fantástico que conseguimos reunir. Tem muita gente jovem e talentosa, mas também tem as feras. O Otávio, o Tonico, a Renata Sorrah, o Lázaro Ramos, todo mundo consciente da excepcionalidade dessa experiência”, diz.

Clélia pretende levar o experimento ao limite. “Estamos trabalhando para lançar logo. Ao contrário do Pluft, que pode esperar, Álbum de Família está sendo feito na urgência desses tempos que estamos vivendo. A ideia é chegar ao público também num novo formato.

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