Chris Pizzello/Invision/AP
Chris Pizzello/Invision/AP

O efeito #MeToo na carreira dos acusados de assédio

O comediante Louis C.K. voltou a se apresentar e foi recriminado; novo filme de Woody Allen pode não ser lançado

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2018 | 05h00

NOVA YORK - O público que comprou entrada no famoso Comedy Cellar, no Greenwich Village, em Manhattan, domingo passado, 26, não contava com a surpresa. O Cellar é uma das mais importantes casas de comédia stand-up do país, por onde passaram – e ainda passam – Jerry Seinfeld, Chris Rock, Dave Chappelle e Amy Schumer. O formato das noites pode incluir sucessivos comediantes em sets de cerca de 20 minutos. De repente, um homem careca pediu ao mestre de cerimônias para fazer sua performance. Sob o holofote, o público descobriu Louis C.K., ator e mais respeitado comediante americano de sua geração, além de proeminente assediador sexual, denunciado em novembro passado por cinco mulheres encorajadas pelo movimento #MeToo.

Na segunda-feira, a rede social irrompeu em recriminações, lideradas por mulheres comediantes, calejadas num mundo profissional notoriamente masculino. Duas mulheres que estavam na plateia disseram que comediante chegou a fazer uma piada de mau gosto sobre estupro. É importante lembrar que Louis C.K. não é acusado de estupro e sim de se masturbar diante de mulheres contra a vontade delas. Logo depois da denúncia sobre o que era um rumor há anos circulando entre comediantes, Louis C.K. admitiu que era verdade, e disse que ia se retirar e passar “a ouvir mais”. Na volta que alguns acusam de prematura, está sendo acusado de surdez.

As recriminações e a defesa do comediante por seus colegas homens são exemplo do dilema do movimento #MeToo, que explodiu com as denúncias graves contra o produtor de cinema Harvey Weinstein, em outubro passado. Qual a contrição aceitável, qual o preço que deve ser pago por acusados em casos que vão da importunação ao estupro? O dono do Comedy Cellar, Noam Dworman, que não estava presente quando Louis C.K. apareceu, lamentou o comediante não ter tocado no motivo que o fez desaparecer por nove meses, como se declarasse sua quarentena encerrada.

“Não há regras,” diz ao Estado a produtora Melissa Silverstein. Ela fundou e edita o website Women and Hollywood (Mulheres e Hollywood), além de ser cocriadora do festival de cinema Athena, do Barnard College da Universidade de Columbia, especializado em liderança de mulheres. “Há uma nova conversa e o caso de Louis mostra que não basta desaparecer por um tempo.” 

Sobre a notícia de que o último filme de Woody Allen, A Rainy Day in New York, pode não ser lançado pela Amazon, que financiou a produção, Silverstein disse que, apesar de não conhecer os bastidores corporativos da decisão, a falta de sucesso dos filmes recentes do diretor de 82 anos não deve ter pesado tanto na decisão quanto o fato de que ele é acusado pela filha adotiva, Dylan Farrow, de ter abusado dela quando era criança. “Há uma reverência pelo mundo masculino do autor, a ideia de qualquer filme ruim de Woody Allen é melhor do que a maioria dos filmes que estão aí.”

Não há uma linha de progresso ou contrição linear como resultado do #MeToo. Mas, argumenta Melissa Silverstein, o movimento sacudiu todo o universo do cinema. “As pessoas estão tentando compreender como agir, quais serão as regras do jogo para o futuro.” Ela lembra que a luta por igualdade em Hollywood precede, em vários anos, o #MeToo. E atribui ao movimento provocar uma conflagração de tendências que já vinham acontecendo, como luta por pagamento igual para homens e mulheres, maior número de mulheres diretoras e produtoras e mais histórias sobre experiências de mulheres.

Audiências de grupos demográficos diferentes querem se ver na tela. Este ano, dois grandes sucessos de bilheteria como Pantera Negra e Crazy Rich Asians (Podres de Ricos) sugerem que, além de qualquer sincera ou insincera contrição cultural, Hollywood tem interesse financeiro em diversificar sua narrativa.

O nervosismo com novas revelações continua, a julgar pelas conversas na rede social, e um exemplo recente é o de Leslie Moonves, CEO da rede CBS, um dos mais poderosos executivos da mídia americana há duas décadas, recentemente acusado de assédio sexual por 6 mulheres e de intimidação por dezenas de outras. Moonves foi mantido no cargo enquanto o comitê gestor da empresa, que sabia de uma investigação pela polícia de Los Angeles, diz que apura as acusações.

É difícil separar a questão de poder da questão do assédio sexual que está no DNA da indústria do cinema americano. “O #MeToo”, diz Melissa Silverstein, “não é sobre a mudança de comportamento de mulheres. É sobre o balanço de poder.”

 

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