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O diretor Laurent Cantet fala de 'Retorno a Ítaca’, sobre a volta de um exilado a Cuba

Filme com roteiro de Leonardo Padura foi realizado antes das novas relações do país com os EUA

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

10 de junho de 2015 | 03h00

Cubano exilado volta a Havana e reencontra os amigos que ficaram. Matam saudades, contam-se histórias, acertam velhas contas. E tudo ocorre num terraço com vista da cidade, cujos sons intervêm na trilha. Ulisses, o retorno a Ítaca. Cuba, os Castros, Fidel e Raul, espinhos cravados na garganta do Ocidente.

O novo filme de Laurent Cantet chega na hora certa. Em dezembro, estreou na França, depois de passar na Mostra. No começo do ano, EUA e Cuba reaproximaram-se. A abertura chegou à ilha, mas ainda lentamente. Numa entrevista realizada num café junto ao Museu do Louvre, em Paris, o diretor contou que Retorno a Ítaca foi proibido no Festival de Havana. A hora certa foi, de certa forma, uma coincidência. O filme começou a nascer bem antes.

Não é só sua segunda aventura cubana, mas também a segunda com Leonardo Padura. Pode dizer como começou?

Começou com o convite para dirigir um dos episódios de Sete Dias em Havana, todos baseados em textos de Leonardo (Padura), um escritor que já conhecia e admirava. Cuba evoca música, sensualidade, miscigenação racial. O triunfo da revolução e a resistência aos EUA tiveram um impacto muito forte, e não apenas no imaginário de esquerda. Para Sete Dias, Leonardo me propôs uma de suas histórias, mas, quanto mais o projeto evoluía, mais me dava conta de que seria um desperdício narrar como curta o que devia ser longa. Propus a Leonardo que fizéssemos outra coisa para Sete Dias (La Fuente) e guardássemos Retorno a Ítaca. Passaram-se três anos entre um filme e outro. Fiz até outro no meio, Foxfire – Confissões de Uma Gangue de Garotas.

E qual foi a dificuldade?

Todo filme rodado em Cuba necessita da aprovação do Icaic, o Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica. Foram solidários, não impuseram condições, considerando-se o teor crítico do material de Leonardo (Padura). Mas há uma burocracia a cumprir, e isso exige tempo. Havia a questão do dinheiro. E a do elenco – precisava de atores que dissessem o texto em espanhol. E precisava de grandes atores. Desde o início sabia que teriam de dizer textos longos, de três ou quatro minutos. Seria complicado filmar com não profissionais.

Foi difícil de rodar?

Foi preciso encarar e resolver problemas operacionais. Precisamos achar o terraço, reunir câmeras para captação simultânea. Nós nos programamos para filmar por 17 noites e teríamos conseguido, mas aí choveu e o plano de filmagem atrasou. Mesmo assim, foi um filme prazeroso de fazer. Tinha o texto de Padura, elenco engajado.

Como muitos de seus filmes – 'Entre os Muros da Escola', 'Foxfire' –, esse trata do grupo. Por que a sua fascinação pelo coletivo?

Não falo nenhuma novidade ao dizer que nós, humanos, nascemos para viver e interagir em grupo. Se vale para a organização social, vale também para o cinema. A diferença é que, nos filmes anteriores, os grupos eram de jovens. Aqui, são adultos maduros. Fora isso, em todos os filmes e grupos, são pessoas inquietas, que não desistiram de sonhar. Por meio de suas histórias cruzadas, o filme nos permite revisitar toda a história recente de Cuba, as esperanças de toda uma geração que acreditava na revolução e que teve de acordar para a dura realidade. Acima de tudo, o filme é minha ode à amizade, que mantêm essas pessoas unidas, e isso apesar de acertos de contas que se revelam duros.

Padura foi um escritor que optou por ficar em Cuba sem desistir de fazer críticas ao regime. Que problemas você enfrentou por dar voz a Padura?

Embora as autoridades tenham nos dado todo apoio para filmar, certamente não ficaram muito satisfeitas com o teor crítico do filme. Ítaca deveria ter passado no Festival de Havana, no fim do ano, mas a exibição foi cancelada, sinal de que o regime ainda não estava preparado para absorver críticas.

Em São Paulo, no ano passado, o filme quase venceu o prêmio da crítica na Mostra. Como você avalia a recepção a seu filme?

Ítaca passou em vários festivais – Veneza, Toronto, San Sebastian, Biarritz. Depois da proibição, em dezembro, o filme foi exibido agora em maio, em Havana. Foi genial. Não fomos autorizados a debater, após a projeção, mas o público se reuniu na frente do cinema e tivemos um debate acalorado ali mesmo. Todo mundo queria falar.

Como o filme foi recebido na França? 

Tive muito boa crítica, exceto por Cahiers du Cinéma, que não gosta do meu cinema e eu também não gosto da revista, portanto, estamos quites. Com Entre os Muros da Escola, fizemos mais de 1 milhão de espectadores. Esse quadro mudou, O filme autoral e político hoje tem muito menos ressonância. E houve a questão do timing. Ítaca estreou na França semanas antes do anúncio da reaproximação entre EUA e Cuba. Se o lançamento tivesse sido feito em cima da data – mas quem ia saber? –, poderíamos ter tido números mais positivos, mas não me queixo. Fiz o filme que queria, e na hora certa. Se o tivesse feito depois, poderia ser chamado de oportunista, quem sabe?

O terraço de seu filme evoca outro terraço, o de Ettore Scola. Seu filme tem algo que evoca o autor italiano – nós que amávamos tanto a revolução...

Respeito Scola, mas ele não foi uma referência, pelo menos consciente. Apesar das críticas que podem ser feitas a Cuba, o país virou um símbolo de resistência e de permanência. Queria que essa paixão fosse para a tela, e acho que consegui, graças aos diálogos de Padura e ao elenco. Era evidente a emoção com que os atores diziam o texto. Às vezes, pedia para refazer partes das cenas. Um diálogo aqui, outro ali. Eles queriam sempre repetir tudo e o faziam cada vez com mais intensidade. Não eram mais os personagens, eram eles. Entre os Muros da Escola superou minha expectativa. Ítaca, também. São filmes de grupo, feitos pelo grupo. E eu fui um catalisador.

Padura negociou liberação em Cuba 

O escritor Leonardo Padura, coautor do roteiro de Retorno à Ítaca, intercedeu pessoalmente para que o filme fosse exibido em Cuba, o que aconteceu em 2015. “É um longa feito com o coração e as vísceras de todos que trabalharam nele”, disse ele, que manteve negociação com o ministério da Cultura e o Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficas, o Icaic.


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