Paris Filmes
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O diretor Ari Aster e seu terror à luz do sol

‘Midsommar’ deve tudo a obra cultuada dos anos 1970, ‘O Homem de Palha'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2019 | 07h00

Tem havido uma extraordinária revalorização do terror - como gênero popular, responsável por grandes êxitos de bilheteria, e também como expressão autoral, com reconhecimento pela Academia de Hollywood. Jordan Peele é o arauto dessa tendência, com filmes como o vencedor do Oscar, Corra!, e Nós. Mas tem também Ari Aster, o diretor de Midsommar - O Mal Não Espera a Noite, que estreou na quinta, 19. Terror à luz do dia - Terror at Midnight Sun, como o longa de 1959, com Barbara Wilson. Peele e Aster são os novos queridinhos da crítica.

E James Wan? (Con)Corre numa outra vertente. Wan tem o terror no DNA e está mais preocupado em assustar do que com as possibilidades de leitura em segundo e terceiro grau que seus filmes podem proporcionar. A série Invocação do Mal virou cult, A Freira, que ele não dirigiu, é uma (quase) obra-prima. Terror romântico, o retorno a James Whale, sem nenhuma conexão com os clássicos Dráculas que ele dirigiu nos anos 1930. Corra! deve tudo a Ira Levin e Bryan Forbes, que adaptou o romance do primeiro - The Stepford Wives. O que lhe confere originalidade é o fato de que a maioria da crítica jovem desconhece Esposas em Conflito.

Outro Ira Levin é o mentor intelectual de Ari Aster - muito provavelmente não existiria Hereditário sem A Semente do Mal, que Roman Polanski filmou - O Bebê de Rosemary.

Midsommar é agora cria de The Wicker Man, que Robin Hardy filmou em 1973, passou no Brasil como O Homem de Palha e virou cult, inspirando Iron Maiden (uma música) e Radiohead (um clipe). Neil LaBute fez o remake em 2006, formatado como narrativa de ação para Nicolas Cage. O Sacrifício, como se chamou o remake, concorreu em várias categorias no Framboesa de Ouro - pior tudo: filme, diretor, ator, roteiro, etc. Substitua o herói pelo grupo, e é sem tirar nem pôr. Um grupo de amigos viaja para comunidade fechada, num lugar remoto da Suécia. A cada 90 anos, para comemorar o solstício de verão, realiza-se um ritual pagão que dará origem ao oráculo comunitário. Do grupo participam Dani e Christian. Ela perdeu a família tragicamente, ele espera fazer sua tese de fim de curso sobre a comunidade. Mas o lugar é definitivamente bizarro. Sob a aparência luminosa, o que se esconde mais embaixo é sinistro - canibalismo, autoimolação, sacrifícios humanos. A ‘mensagem’ não poderia ser mais explícita. Definitivamente, não se pode confiar em amigos.

O texto vai ter spoiler. A ida do grupo para aquele lugar não tem nada de casual. São atraídos, e com propósitos bem definidos. Como na dança que vai definir a rainha do verão, as candidatas vão caindo, até não restar nem uma, os amigos também vão sendo eliminados. O mal não espera a noite. O horror de quem faz a escolha final transforma-se em riso (cruel?). 

O Coringa não está sozinho. Midsommar dura 2h27. A versão do diretor, já em exibição nos Estados Unidos, tem mais, 2h51. Ari Aster psicologiza, mais do que aterroriza. Nisso aproxima-se de Andy Muschietti, cujo It - A Coisa 2 já ultrapassou 2,2 milhões de espectadores no Brasil. (Neste fim de semana pode ter chegado aos 2,5 milhões.) No It 2, o desenho dos personagens é mais denso, mas o terror do 1 era mais funcional. Como filme, dá de dez em Midsommar. Aqui, não existe nenhum palhaço assassino. O mal está dentro das pessoas. É inerente à condição humana, e naquela comunidade é perfeitamente ‘naturalizado’. Pode-se ver no filme - nessa onda toda - um alerta sobre o estado do mundo. Mais que o terror à luz do dia, o terror de segundo grau. Dá saudade do tempo em que o terror era só para meter medo.

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