O Díalogo entre o historiador e o cineasta

Número especial da Cahiers du Cinéma saúda o ano/século/milênio recém-encerrado(s). A edição chama-se O Século do Cinema, uma expressão consagrada, já que a invenção dos irmãos Lumière, oficialmente datada de 1895, começou a produzir seus efeitos, para valer, na década seguinte. Uma edição bem completa, daquelas para ler da primeira à última página, apesar da recente diluição da Cahiers. A divisão, em seções, é cronológica e temática: 1900 (Primórdios do cinema até a belle époque); 1920 (Mudar o mundo?); 1945 (Primeiras imagens dos campos); 1970 (A sociedade sacode o cinema) e 2000 (Vivamente a desordem). Toda periodização tem seu lado arbitrário e esta não é exceção. Por exemplo, quem diria que a velha Cahiers, tão identificada outrora aos movimentos de liberação dos sixties, não resevaria um capítulo especial para o cinema que se fez naqueles anos? De qualquer forma, não se pode acusá-la de fazer uma divisão óbvia. Ela contempla o obrigatório capítulo sobre as origens, depois reconhece os anos 20 como os mais inquietos no plano estético. Salta para a 2.ª Guerra Mundial e privilegia o horror das imagens dos campos de concentração ("Depois de Auschwitz, a poesia não é mais possível", lembra-se?). Depois vêm os anos 70, que são, na verdade, rescaldo do que se plantou e colheu nos 60. E, finalmente, o fin-de-siècle que, em meio a tantas incertezas, reserva uma em particular quanto ao futuro da arte das imagens em movimento. Para onde irá o cinema com a tecnologia digital e os meios de difusão via Internet? Ninguém sabe exatamente. Esse número especial abre com um fino biscoito, a título de aperitivo. Um texto raro, em forma de carta, escrita pelo historiador François Furet, já falecido, a Jean-Luc Godard, um dos emblemas da revista em qualquer uma de suas fases. O texto nasce de um encontro entre os dois, em 1997, quando Godard resolveu mostrar a Furet sua recém concluída Histoire(s) du Cinéma. Um projeto ambicioso (como todos do diretor, um megalô segundo seus detratores), nada menos que contar a história do século por meio do cinema. O texto seria parte dos preparativos para uma mesa-redonda promovida pela Cahiers. Acontece que Furet morreu de repente. Sobrou o comentário, dirigido a Godard; parcial, que ainda seria revisto e certamente alterado pelo autor. Mesmo assim, quase em estado bruto, é, no mínimo, muito interessante, por seus achados e a fineza de suas observações. Na verdade, trata-se de poderações de um historiador profissional ao "historiador" Jean-Luc Godard. Como esta, exemplar: "Essas imagens são uma crítica, pela montagem, movimentos de aceleração, desaceleração e parada, mas são também uma parte das iluões do século. Que poder! Que força de evocação! Por exemplo, aqueles momentos consagrados às guerras franco-alemãs, à epopéia comunista. São grandes aventuras da vontade, e Godard dá conta delas magnificamente. Mas também me assusta, porque essas aventuras só poderiam chegar ao nada, como de fato chegaram. Crenças na salvação pela história, essas ilusões só poderiam ceder a um desmentido radical da própria história. Mas esse desmentido não aparece nas imagens do cinema, ao contrário. Essas imagens, de fato, parecem fazer perdurar as ilusões da história para além mesmo da sua vida real no século".

Agencia Estado,

13 de janeiro de 2001 | 22h49

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