Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
A atriz Lise Leplat Prudhomme vive uma Jeanne um tanto quanto intemporal no filme ‘Joana D’Arc’, de Bruno Dumont:  Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

‘O Diabo Entre as Pernas’ e ‘Joana D’Arc’ misturam profano e sagrado em obras sublimes

Em exibição na 43.ª Mostra de Cinema, filmes compensam temáticas difíceis e ritmo lento, com uma estética e direção bem apuradas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2019 | 07h00

Outra noite de gala na Mostra. Depois do tapete vermelho para Fernanda Montenegro, no Theatro Municipal, na exibição de A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, a 43.ª edição do evento destaca nesta quinta, 24, no início de sua segunda semana, a participação do israelense Amos Gitai. Após a exibição da versão restaurada de Laços Sagrados – Kadosh, o vencedor do Prêmio Leon Cakoff participará de um debate com o público. Grande Amos. Além de amigo da Mostra, é amigo do palestino Elia Suleiman, que receberá o prêmio Humanidade e terá seu novo longa (O Paraíso Deve Ser Aqui, premiado em Cannes, em maio) exibido na sexta, 25.

A Mostra promove o diálogo. É da sua natureza, está no seu DNA. Com um total de 327 filmes de 65 países, privilegia a produção brasileira, com cerca de 60 títulos. Pode ser arriscado cravar a afirmação que você vai ler agora, mas nesta quinta, talvez, teremos os melhores filmes até agora. Dois entre 327? São filmes em tudo diferentes e que, no entanto, têm muito em comum. O mexicano O Diabo Entre as Pernas, de Arturo Ripstein, em preto e branco, e o francês Joana D’Arc, de Bruno Dumont, em cores. Um casal de velhos no inferno do desamor e as batalhas da “pucelle”, a donzela que foi queimada como herege na fogueira e reabilitada como santa da Igreja Católica. O profano e o sagrado. O casal degrada-se para fazer sua ascese. A donzela, sobre-humana, tem certeza até quando parece duvidar.

Embora sem o respaldo da Academia de Hollywood, Ripstein compete com Carlos Reygadas pelo título de maior cineasta mexicano vivo. Não faz filmes de Oscar, como Alejandro González Iñárritu, Guillermo del Toro e Alfonso Cuarón. Sua pegada é muito mais intensa. Com roteiro da habitual Paz Alícia Garciadiego, sua mulher, o diabo entre as pernas é o sexo que consome um casal de velhos. Ele tem uma amante, agride verbalmente a mulher, que foi, no passado, uma espécie de bela da tarde. Fazia sexo com vários homens, todos os homens. Por prazer, não dinheiro. E agora ela mantém o ardor, o fogo entre as pernas. O casal vive nessa casa como dois estranhos. E tem a doméstica, uma jovem que poderia ser filha deles, e que interfere na relação.

Uma mulher em chamas. A exacerbação do desejo e da violência. Ripstein fez o seu Império dos Sentidos, sem sexo explícito, mas com muito implícito. Fez também, de certa forma, o seu Roma – que a Academia não vai premiar. É muito forte. Demais. Ripstein e o melodrama. Ele subverte cânones do gênero com seu cinema ‘hiper’ (realista ou naturalista?). Em vez do mar bravio no desfecho do Cuarón, a tormenta é interna, dentro da casa. O desejo aplaca-se? Eis a questão.

Joana D’Arc. Bruno Dumont já havia feito, em formato musical, Jeanette, sobre a infância de Joana D’Arc. Jeanette e a vocação que impulsiona a menina de Orleans a repor o delfim no trono da França, disputado pelos ingleses. Dumont mantém a atriz – Lise Leplat Prudhomme –, mas, desta vez, abre mão do musical, exceto por quatro canções que são pontuais dentro do filme. Uma delas é interpretada pelo próprio compositor Christophe, metamorfoseado em grande inquisidor da donzela. A última é cantada por Lise, antes da fogueira – que Dumont filma de longe, na natureza. Se o primeiro filme era Jeanne e as vozes, o segundo é Joana e as batalhas, mas elas não aparecem, somente suas consequências. O máximo que Dumont se permite é filmar do alto, em plongê, uma parada militar. 

Para extrair de Juliette Binoche sua interpretação sublime como Camille Claudel, em 2015, Dumont mostrou-lhe, e discutiu muito com ela, o martírio de Falconetti, no clássico de Carl Theodor Dreyer, de 1928. Conta a lenda que Dreyer enlouqueceu a atriz para que ela desse a dimensão que ele queria à sua Joana D’Arc. Houve muitas Joanas depois – Ingrid Bergman, nos filmes de Victor Fleming e Roberto Rossellini; Jean Seberg, no de Otto Preminger; Milla Jovovich, no de Luc Besson; Sandrine Bonnaire, no díptico de Jacques Rivette. Dumont conclui seu díptico com Lise, uma pré-adolescente.

No filme, os inquisidores a tratam como ‘enfant’, criança. Ela os exaspera com seu discurso. O silêncio de Deus substitui as vozes, mas ela mantém o voto. Libertar a França dos ingleses, dar o trono a quem é de direito. Desafia a Igreja, o rei. Dumont lixa-se para o anacronismo do filme, ou para a acuidade histórica. Sua Jeanne é um tanto intemporal, e ele se interessa pelo o que essa garota que lutou feito homem e atravessou os poderes temporal e religioso pode significar para o público de 2019. Em vez da exacerbação do desejo de Ripstein, a sublimação. Ao fogo do desejo, o da purificação e do conhecimento. Garota em chamas.

Muita gente saiu durante a sessão de Jeanne/Joana D’Arc na terça-feira à noite. Espectadores também abandonaram, à tarde, a sala de exibição do Ripstein. São grandes filmes, mas não são fáceis. Exigem do público para entregar sua particular satisfação estética. Não são exatamente lentos, mas possuem um tempo, o tempo deles. Para quem entra no clima, o resultado é divino.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Construindo pontes com o cinema

O produtor Noberto Pinheiro Jr. fala sobre 'Abe', produção brasileira falada em inglês que esteve no Festival de Zurique, e 'Pacificado', dirigido por um americano no Rio e vencedor da Concha de Ouro em San Sebastián

Mariane Morisawa, especial para O Estado

23 de outubro de 2019 | 17h36

ZURIQUE – O produtor brasileiro Noberto Pinheiro Jr. passou pelo 15º Festival de Zurique como representante de Abe, primeira produção em inglês de Fernando Grostein Andrade, rodada em Nova York. Mas tinha outro motivo para celebrar: acabava de vir do Festival de San Sebastián, em que Pacificado, rodado pelo americano Paxton Winters no Rio, tinha levado a Concha de Ouro. “Foi uma enorme surpresa”, disse Noberto Pinheiro Jr. em entrevista ao Estado, em Zurique. Ambos estão na programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Abe é um projeto antigo e do coração de Fernando Grostein Andrade, filho de mãe judia e pai católico. “Ele se inspirou em sua própria história”, disse Pinheiro Jr., que entrou na produtora Spray durante a pré-produção do longa, que tem coprodução da Gullane.

No filme, rodado em Nova York, o protagonista, interpretado por Noah Schnapp (de Stranger Things), é filho de uma judia e de um palestino muçulmano e tem dificuldades de navegar as diferenças culturais e religiosas que frequentemente provocam brigas entre seus avós. Fã de comida, ele acha que esse é o caminho da conciliação, principalmente depois de descobrir as fusões feitas pelo chef Chico (Seu Jorge).

“A decisão de fazer um filme em inglês é que o nosso conteúdo viajasse mais”, explicou o produtor. “Foi desafiador rodar em Nova York, que conhecíamos de visitar, mas não fazendo cinema”, disse. “Mas aprendemos muito e agora sabemos como é.”

O filme, que passou no Sundance Festival em janeiro, é o primeiro de uma série, ele espera. A Spray tem outros 9 projetos prioritários em inglês. Esse novo caminho também ajuda num momento em que o futuro do audiovisual brasileiro está incerto. “E a gente é muito favorável a co-produzir. Gostamos de colaborações.”

No caso de Pacificado, era quase o oposto: um americano rodando em português, no Rio. Paxton Winters morou anos no Morro dos Prazeres, onde filmou, chegando a abrir uma escola de audiovisual. A produção usou várias pessoas da comunidade na equipe e no elenco. O filme chegou até Noberto Pinheiro Jr. quando os produtores Marcos Tellechea e Paula Linhares o procuraram, com dificuldades de financiar a pós-produção, já na esteira da crise no audiovisual.

“Decidi investir dinheiro próprio, meu e da minha esposa”, disse Pinheiro Jr., explicando que a Spray entrou como produtora associada mais no final do processo, assim como o cineasta Darren Aronofsky. “Investi porque achei que o filme tinha potencial por contar uma história de favela por um ângulo diferente”, disse.

Em Pacificado, Tati (Cássia Nascimento), de 13 anos, tenta se conectar com o pai, Jaca (Bukassa Kabengele), ex-chefe do tráfico na comunidade, que acabou de sair da prisão, bem durante a Olimpíada no Rio e o projeto de “pacificação” das favelas. “O longa passa pelo tráfico, mas essa não é a trama. É um filme de amizade, no fim das contas”, disse Pinheiro Jr. “Eu costumo dizer que a gente vive um apartheid em 2019. E acho importante humanizar a favela, porque tem pessoas ali tentando fazer as coisas direito, só que elas não têm oportunidade”, completou o produtor, enfatizando que tanto ele pessoalmente quanto a Spray querem fazer apenas projetos com relevância e impacto social. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Filme português 'Technoboss' conta com humor a crônica de um idoso apaixonado

Na 43.ª Mostra de Cinema de São Paulo, a obra do diretor português João Nicolau traz no papel principal a estreia do ex-jurista Miguel Lobo Antunes, de 70 anos, no cinema

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2019 | 19h36

Muito de Tecnhoboss — a comédia de tons absurdos do diretor português João Nicolau, com sessões na 43.ª Mostra — é sobre a ausência de comiseração que o filme direciona para seu personagem principal, Luís Rovisco (a estreia de Miguel Lobo Antunes, 70 anos, no cinema). Divorciado e à beira da aposentadoria (ou da reforma, como dizem os portugueses), Rovisco poderia ser um personagem melancólico, mas o roteiro inclui na sua história tantos elementos únicos que o filme se transforma em uma crônica de amor e compaixão.

Com dificuldades para lembrar-se de entregar relatórios da empresa para a qual trabalhou a vida toda (a SegurVale – Sistemas Integrados de Controlo de Circulação), Rovisco dirige (conduz) entre regiões de Portugal, cantando canções do heavy metal à salsa espanhola, ao volante ou não. Um clima de musical se instala, mas o humor natural de Lobo Antunes (jurista e produtor cultural aposentado, aqui em seu primeiro filme) se mistura ao do personagem, nunca retratado como um pobre coitado.

Outros elementos dão forma ao filme: Rovisco sofre com a morte de seu gato companheiro, Napoleão, se complica com avanços tecnológicos diversos, lida com uma dor no joelho e com um filho com casamento confuso, mas também encontra afeto com o neto e com o chefe-amigo, o britânico Peter Vale (que nunca aparece na tela, embora esteja em diversas cenas do filme). Mas sua missão é mesmo alcançar Lucinda (Luísa Cruz), recepcionista de um hotel que ele atende com frequência, um amor de anos atrás perdido no tempo e que agora ele fará de tudo para recuperar.

Lobo Antunes (irmão de Antonio, o célebre escritor) também se aposentou recentemente, em 2017, e foi depois de o diretor João Nicolau vê-lo dançar em uma festa que o convite para participar do casting chegou. Em São Paulo para apresentar o filme na Mostra, o ator novato demonstra na vida real a simpatia do personagem, embora seja menos carrancudo. 

“Foi muito difícil, mas esse filme salvou a minha vida”, diz. “Não tinha experiência nenhuma de ator. Mas João é muito amigo de meu filho e eu gosto muito dos filmes dele. Ele é quem arriscava mais, porque se o ator fizesse um mau papel, o filme vinha para debaixo.”

Lobo Antunes conta que sua principal preocupação durante as filmagens era não esquecer suas falas e seguir as orientações do diretor, e que só agora, após as primeiras exibições do filme, é que começa a teorizar sobre os caminhos peculiares do personagem. “Não fazia ideia nenhuma do que aquilo custava, de esforço físico, mas eu gosto de trabalhar”, explica.

“O ator tinha que ter determinados tipos de características, tinha que ter uma figura marcante, preferencialmente saber cantar”, explica o produtor Luís Urbano, também em São Paulo para a Mostra. “A ideia era contratar um ator profissional, mas João decidiu abrir o casting, e quando eles se encontraram nessa festa, pensou que poderia ser este o caminho.” 

Technoboss estreou no Festival de Locarno, na Suíça, e as primeiras resenhas comentaram semelhanças no humor do personagem com as atuações de Jacques Tati (1907-1982), mímico e ator francês, mas o produtor arrisca que o personagem (e o tom do filme como um todo) é mais inspirado pelo cineasta finlandês Aki Kaurismäki e pelo ator e comediante americano Larry David.

Além das músicas, que permeiam o filme e emprestam-lhe frescor e bom humor, outro aspecto salta aos olhos: em algumas cenas, um cenário é montado com banners e tecidos, dentro de estúdio, acrescentando ali outra camada do humor surreal. Uma solução criativa para um problema logístico e financeiro, segundo o produtor: filmar as viagens em uma estrada real seria um impedimento definitivo.

Se Tecnhoboss não se alinha diretamente à linha do humor português que na Mostra de 2018, por exemplo, exibiu o amalucado Diamantino, o filme faz escolhas ousadas o suficiente para divertir e emocionar cinéfilos de cá e de lá do Atlântico.

Exibições de Tecnhoboss na 43.ª Mostra de São Paulo

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1 | 24/10/19 - 17:20 - Sessão: 601 (Quinta)

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 |30/10/19 - 15:00 - Sessão: 1078 (Quarta)

Veja o trailer de Tecnhoboss

TECHNOBOSS TLR PT from O SOM E A FÚRIA on Vimeo.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Filme 'O Homem Cordial' expõe o Brasil na época dos linchamentos virtuais

Com atuação potente do ex-Titãs Paulo Miklos, ficção refuta a existência de uma possível cordialidade brasileira, no tempo da internet

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2019 | 06h00

O Homem Cordial toma o capítulo clássico de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, mas apenas para efeito de ironia. A ideia é mostrar como a “cordialidade”, no sentido mais popular, anda longe do ethos brasileiro contemporâneo. Sérgio Buarque usava o termo para explicar porque somos movidos mais pelas paixões que pelas relações formais. Parecia que estava dizendo que o brasileiro era bonzinho. Ele mesmo falava em “lhaneza do trato”, uma bonita expressão. Mas o diretor Iberê Carvalho, toma a ideia ao pé da letra para aplicá-la a uma história que tem como protagonista o ex-Titãs Paulo Miklos, no filme exibido durante a 43.ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Miklos é Aurélio Sá, roqueiro dos anos 1980 que caiu no esquecimento. Seu empresário tenta uma volta aos palcos de shows. Mas os planos desandam quando Aurélio interfere na tentativa de linchamento de um menor suspeito de haver furtado um celular. Ele toma a defesa do menino, que consegue fugir. Aurélio é filmado por um desses grupos protofascistas que hoje proliferam no Brasil e as imagens viralizam na rede. O vídeo é turbinado pelo fato de um policial ter sido morto ao tentar perseguir o suposto ladrão. Aurélio ganha fama de “protetor de bandidos” e vê sua vida transformada em inferno, como se fosse cúmplice do assassino do policial. No nada cordial e muito menos inteligente Brasil de hoje basta você defender os direitos humanos para ganhar o rótulo de protetor de bandidos. 

Miklos é um ator potente, como sabe todo aquele que o segue desde sua estreia em O Invasor, de Beto Brant. A odisseia do seu personagem pela periferia paulistana parece às vezes o clássico Depois de Horas, de Martin Scorsese. O Homem Cordial tem essa referência. Mas a pegada do filme é mais humanista. Leva à história a denúncia da utilização das redes para demonizar opositores e também a violência policial, cujo alvo preferencial, como sabem todos, são indivíduos pobres e pretos.

A longa noite de loucuras de Aurélio abre outra vertente para este filme de muitas camadas. Ao procurar pelo menino desaparecido, ele retoma o contato com um antigo parceiro de grupo, o rapper Thaíde. Este abriu um bar na periferia, que acolhe jovens talentos negros, inclusive uma praticante de Slam. Ela convida Aurélio para um desafio e este fica calado diante dos versos eloquentes da moça, que falam da discriminação racial. É como uma revelação, à qual ele não pode e não deve responder – o momento é de calar e ouvir o que o outro tem a dizer. É o que mais nos falta no momento presente de polarização, em que cada um fala consigo mesmo ou com o grupo que pensa igual. 

 

Beco

No debate sobre seu filme, Camilo Cavalcante, disse que prefere retratar as pessoas marginais do que as bem-sucedidas. Desse trabalho com as bordas da sociedade nasce o surpreendente Beco, filmado no bairro de Afogados, em Recife. O nome do bairro já é significativo. Lembra dos escravos que tentavam atravessar o rio para fugir a nado e morriam. Esse filme fala dos afogados da sociedade contemporânea. 

Trata-se de um trabalho observacional, feito ao longo de dois anos nessa viela com bares populares, nos quais se mistura todo o tipo de gente. A câmera busca os ferrados pela vida. Como aquele que chora ao vestir a camisa do Sport Clube do Recife, seu time de coração. Ou o cego que conta suas desditas, fazendo piada com a própria desgraça. Ou, ainda, o personagem chamado Cícero, que conta uma história mais triste do que a outra e, no fim, proclama que tudo aquilo é mentira. 

De longe, é o personagem mais marcante, em meio a um conjunto de pessoas muito interessantes. Isso porque questiona as próprias fronteiras entre realidade e ficção, entre verdade e mentira. É muito possível que, fabulando, Cícero fale mais sobre si do que se dissesse uma verdade velada pelo pudor ou pela discrição. Dando a palavra a esses narradores populares, Beco fala, por sua boca, da profunda injustiça social e do modo brasileiro de enfrentá-la. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

‘Até Logo, Meu Filho’ narra morte de um menino e os esforços dos pais para entender

Exibido na 43.ª Mostra de Cinema de São Paulo, filme do diretor chinês Wang Xiaoshuai constrói uma crônica familiar

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

22 de outubro de 2019 | 06h00

Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim, em fevereiro, Até Logo, Meu Filho é uma das atrações desta terça, 22, na 43.ª Mostra. Será um dia pródigo em filmes “internacionais”, como se chamam agora os candidatos estrangeiros no Oscar. Justamente o prêmio da Academia – você pode ver Papicha, que fez sensação em Cannes, em maio. O filme deve estrear na sequência da Mostra, que termina dia 30, embora role por mais uma semana com a repescagem. Papicha concorre – com A Vida Invisível, de Karim Aïnouz – a uma indicação pela Argélia. Conta a história de garota que desafia o conservadorismo social, no país dividido pela guerra civil, ao planejar desfile de modas.

Ainda da seleção de Cannes, a Mostra exibe na terça o novo filme dos irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne, O Jovem Ahmed. Duas vezes vencedores da Palma de Ouro, os irmãos belgas somaram mais um prêmio – o de direção – à sua galeria por essa história sobre garoto islâmico de 13 anos que se convence de que sua professora é pecadora e resolve matá-la. Em matéria de tema polêmico – explosivo? –, compete com Adam, de Rhys Ernst, dos EUA, sobre garoto hétero que se faz passar por transgênero para namorar menina lésbica, por quem está apaixonado. A questão de gênero virou um tema contemporâneo tão transcendente quanto o meio ambiente, para citar um exemplo. A Mostra está atenta.

De volta a Até Logo, Meu Filho/So Long, My Son, o chinês Wang Xiaoshuai, cineasta da chamada sexta geração, é um habitué da Berlinale, onde já foi premiado anteriormente, em 2001 e 2008. Afeito ao circuito dos festivais, fez bela figura também em Cannes, onde Shanghai Dreams venceu o prêmio do júri em 2005. Ele segue a trilha de Jia Zhang-ke retrata as transformações ocorridas na China, nas últimas décadas. Num período curto, em termos de grande História, o país foi arremessado do comunismo à linha de ponta do capitalismo, competindo por mercados com a América. 

Xiaoshuai constrói uma crônica familiar. Começa com dois garotos que se banham numa represa, um se afoga, a família corre para o hospital e o que se segue é um relato complexo que se constrói no tempo, seguindo gerações e sua adaptação, ou não, ao mundo que muda radicalmente.

Os pais do garoto afogado separam-se, são levados pelo turbilhão da história, mas nunca deixam de tentar entender a tragédia que os atingiu. Em busca da verdade sobre o caso, procuram também uma espécie de reconciliação – senão como casal, a reconciliação íntima, cada um consigo mesmo. E não é só o casal. É também a dor do garoto que sobreviveu e segue uma vida errática – sua culpa e a de seus pais.

Em Berlim, o diretor explicou seu título: “Às vezes pode demorar muito tempo para se dizer adeus”. Jia Zhang-ke tem seguido esse caminho, mostrando como relações interpessoais e a tumultuada evolução da China produzem conflitos difíceis, senão impossíveis de conciliar. Mas, enquanto Jia tem adotado a fórmula do cinema de gênero, com certo apelo ao espetacular – gângsteres, trilha internacional –, Xiaoshuai internaliza mais sua narrativa.

É um filme um tanto longo, com mais de três horas, mas com tantos momentos fortes que o espectador não consegue desgrudar o olho da tela. Isso se deve também ao carisma do elenco principal. Wang Jingchun e Yong Mei são excepcionais, e ele, com as têmporas grisalhas, uma inefável expressão de tristeza no rosto, pergunta-se sobre a morte e seu significado – sobre a perda. Num avião que sofre turbulência, dão-se as mãos. “Não é incrível que ainda tenhamos medo de morrer?” Por mais serenos que esses personagens pareçam, após tanto tormento, o tema do filme é a (in)conformidade perante o inevitável, o destino. Conformar-se nunca é o melhor remédio.

Exibições de 'Até Logo, Meu Filho' na Mostra de São Paulo

Sábado, 19/10

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2

16:00

Domingo, 20/10

CINESESC

14:00

Terça-feira, 22/10

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3

18:20

Quinta-feira, 24/10

RESERVA CULTURAL - SALA 1

18:20

Domingo, 27/10

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1

18:00

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'O Pássaro Pintado' faz um retrato cruel da Segunda Guerra

Polêmico, o filme tem cenas fortes de tortura e estupro; no Festival de Veneza, muita gente não conseguiu ver até o fim

Mariane Morisawa   ESPECIAL PARA O ESTADO / VENEZA, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2019 | 07h03

O público que frequenta festivais de cinemas está acostumado a ver filmes de temáticas e formatos difíceis, em preto e branco e com quase três horas de duração. Mesmo assim, O Pássaro Pintado, que passou na competição do último Festival de Veneza, foi demais para certos espectadores, que não conseguiram ficar até o final. A audiência da Mostra vai ter a chance de testar seus limites a partir deste domingo, 20, quando o longa dirigido pelo checo Václav Marhoul tem sua primeira exibição.

O Pássaro Pintado é inspirado no controverso livro de 1965 do polonês Jerzy Kosinski, que vendeu a história como sendo uma autobiografia, mas depois foi desmascarado. “Me perguntam muito se eu sabia sobre Kosinski, e eu respondo: E daí?”, disse o diretor em entrevista ao Estado, em Veneza. “Não me interessa. Kosinski é Kosinski, e o livro é o livro. É ficção.” 

Na história, um menino de pele morena é chamado por vezes de “cigano”, por vezes de “judeu”, e tenta sobreviver em meio ao caos da Segunda Guerra num país não especificado na Europa Central. Ele foi deixado pelos pais com uma tia, que morre. A partir daí, vai de casa em casa, sofrendo e sendo testemunha de diferentes tipos de maus-tratos, de espancamentos a estupros, passando por deportação de judeus para campos de concentração. 

Marhoul leu o livro aos 44 anos de idade e ficou impactado. “Entendo quem não consegue chegar ao fim, mas, para mim, é uma tocante história de um menininho que simboliza toda a humanidade e que propõe questões importantes, mas dolorosas”, disse. “Por exemplo: Por que as pessoas fazem essas coisas? Por que Deus criou a humanidade? Por que alguém que vai à Igreja todo domingo comete atos horríveis? Por que as pessoas têm tanto medo de quem é diferente? Eu fiz o filme para procurar respostas, porque vou ser sincero: faço filmes para mim mesmo.”

O cineasta admitiu que pensou muito no que seus antepassados enfrentaram durante aquele período. “Sou um checo típico, o que significa que sou parcialmente eslavo, parcialmente alemão e parcialmente judeu”, disse. “Parte da minha família era judia. Digo era porque 18 deles foram mortos em poucas horas no campo de extermínio de Treblinka”, contou, sem esconder as lágrimas. Várias das cenas foram difíceis de filmar. A mais terrível foi quando ele colocou 120 figurantes num vagão de trem. “Como gado. Comecei a chorar e não consegui filmar por uma hora e meia. Eu vi a minha família ali.”

Para ele, o trauma ficou entranhado no tecido social da região. “Li muito antes de fazer este filme, principalmente os livros do historiador Timothy Snyder. E percebi que O Pássaro Pintado é um passeio no parque em comparação com a realidade. Porque tivemos os nazistas, mas tivemos Stalin também. O regime comunista foi puro mal.” Ele também citou o controverso Experimento de Aprisionamento de Stanford, em que o professor Philip Zimbardo pediu para alunos imaginarem estar numa prisão e os dividiu entre detentos e carcereiros. Segundo a pesquisa, os “carcereiros” logo assumiram o papel de abusadores. Hoje há sérias dúvidas sobre a validade da pesquisa. 

Marhoul negou categoricamente que seu filme seja violento. “Rodei com muita decência. Não sou Quentin Tarantino, não mostrei os detalhes”, disse. “Você vê o estupro de uma personagem com a câmera nas costas dela. As pessoas estão saindo do cinema não porque eu tenha mostrado violência explícita, mas porque elas têm a violência em seus cérebros.” 

Para ele, quase nenhum personagem de O Pássaro Pintado é violento ou maltrata o menino, a não ser um. Mas o filme, muitas vezes, parece um Amazing Race de tortura. Como isso afeta ou não o espectador vai da sensibilidade de cada um, lógico. Václav Marhoul, que disse ter visitado países como Ruanda, Síria e Afeganistão e visto de perto o sofrimento de crianças, volta à realidade para defender seu ponto de vista cinematográfico. “Num dos livros de Timothy Snyder, quando ele fala da fome imposta aos ucranianos por Stalin, descreve feiras em que as pessoas vendiam pedaços de crianças. Isso é fato. É a verdade. E aconteceu.” 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Sem arte, um país não tem caráter', diz Fernanda Montenegro

Em sessão de gala da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, nesta sexta-feira, 18, no Teatro Municipal, a atriz Fernanda Montenegro discursou e ouviu um 'parabéns para você' de plateia lotada

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2019 | 22h51

SÃO PAULO - Durante a sessão de gala da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na noite desta sexta-feira, 18, no Teatro Municipal, a atriz Fernanda Montenegro discursou e ouviu um "Parabéns para você" de uma plateia lotada. Ela também comentou sobre a situação da cultura no País, tema recorrente dos discursos da noite

“É estranho o que está acontecendo”, disse Fernanda, 90 anos recém-completos. “Mas os filmes estão aparecendo, as peças também. Estamos absolutamente vivos.”

“Sem arte, um país não tem caráter”, prosseguiu a atriz. “Parece que a arte é abstrata, que não passa pelo ‘pão nosso de cada dia’. O que não é verdade, o campo da arte é grande fornecedor de mão de obra. Nada é mais importante do ponto de vista social do que a arte, além da criatividade, do imaginário. Não sei por que nos destacam da solidez do lugar que se pode ganhar a vida.”

O secretário municipal de Cultura, Ale Youssef, anunciou a criação de um novo festival de teatro na cidade, a ser realizado em janeiro de 2020. O Festival Verão Sem Censura vai, segundo o secretário, acolher “todas as peças censuradas pelo governo federal”.

O diretor do filme que seria exibido (A Vida Invisível), Karim Aïnouz, também estava presente. O filme foi vencedor da mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes, e é o selecionado do Brasil para representar o País entre as indicações ao Oscar.

O produtor Rodrigo Teixeira compartilhou que uma exibição para membros da Academia, também nesta sexta, foi “ótima”. “Se esse Oscar vier, vai ser um tapa na cara de um governo que não acredita na cultura”, disse o produtor.

Aïnouz também criticou o governo federal, que chamou de “covarde”, e lembrou de artistas que lutaram contra a ditadura militar no Teatro Municipal, como Walmor Chagas e Cacilda Becker, além de ter mencionado os nomes de Mario de Andrade, Conceição Evaristo, Carolina de Jesus e Preta Ferreira.

O prefeito Bruno Covas disse ainda que os recursos de incentivos municipais à cultura serão dobrados na próxima lei orçamentária. Covas disse que ele e a secretaria também estão trabalhando na elaboração de uma política de incentivo à produção audiovisual na cidade. “É uma vocação da cidade”, disse Covas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Mostra de Cinema de São Paulo exibe 'Chorão: Marginal Alado', que estreia em 2020

Documentário conta história e carreira do vocalista da banda Charlie Brown Jr.

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2019 | 10h30

Com estreia em 2020, o documentário Chorão: Marginal Alado, que conta a trajetória do vocalista do Charlie Brown Jr., será exibido pela Mostra de Cinema de São Paulo. As sessões acontecem na próxima semana, nos dias 22, 23 e 27 de outubro.Assinado pelo diretor Felipe Novaes, Chorão: Marginal Alado reúne depoimentos de nomes como João Gordo, Serginho Groisman e Zeca Baleiro, além de imagens de acervo pessoal e registros oficiais, para retomar a vida particular e a carreira do cantor, morto por overdose de cocaína em 2013. 

Os ingresos podem ser comprados na Central da Mostra, nos pontos de exibição e online, e no site veloxtickets.com. As sessões de Chorão: Marginal Alado acontecem em três datas:

  • Terça-feira, 22/10: Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2, às 22:10;
  • Quarta-feira, 23/10: Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 4, às 14:00;
  • Domingo, 27/10: Espaço Itaú de Cinema - Augusta - Sala 1, às 17:40.

Iniciada na última quarta-feira, 16, a Mostra Internacional de Cinema exibe 300 filmes inéditos. Entre os dias 17 e 30 de outubro, 34 salas de 28 locais de exibição, entre cinemas, espaços culturais, CEUS e museus recebem a programação do evento

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Dente de Leite' fala de jovem com câncer que se apaixona pela primeira vez

Longa exibido hoje, na 43.ª Mostra de Cinema, é o primeiro trabalho de Shannon Murphy, que estreou em Veneza já concorrendo ao Leão de Ouro

Mariane Morisawa  , Especial para O Estado

18 de outubro de 2019 | 08h00

VENEZA - A australiana Shannon Murphy preferiria que o foco nos textos sobre Dente de Leite fosse o fato de ser o filme de uma diretora estreante, escrito por uma roteirista (Rita Kaljenais) debutante no cinema também, em vez de ter sido apenas um dos dois concorrentes ao Leão de Ouro no Festival de Veneza dirigidos por uma mulher. “Porque essa seria a manchete se eu fosse um homem”, disse, em entrevista ao Estado na cidade italiana. O drama sobre uma adolescente que sofre de câncer e tenta sair da bolha imposta pelos pais ao se apaixonar tem sua primeira exibição hoje, 18, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. 

“Não me interessa que sou uma das duas mulheres numa competição”, disse. “Quero discutir coisas específicas, o que está errado nesta indústria e nas artes em geral, e o que devemos fazer para mudar.” Em sua carreira, sempre encontrou dificuldades de entender o que esperavam, mesmo no teatro. “Muitas vezes, sugeriam que jovens diretoras como eu tinham de ficar com as peças mais alternativas, que não podiam fazer os grandes clássicos. E não porque os grandes clássicos são para os homens, mas, sim, porque têm um orçamento maior. Então, a conversa toda sobre homens e mulheres é muito mais sutil do que parece, e é isso que com o tempo acaba impedindo as mulheres de alcançar seu pleno potencial.” 

Ela cita o exemplo de ser indicada para um prêmio de melhor direção. E, no ano seguinte, todos os seus contemporâneos, todos homens trabalhando no mesmo teatro, tinham conseguido um projeto maior. “E eu fiquei com o mesmo projeto, apesar de ter sido eu a concorrer ao prêmio”, disse. “Esse foi o primeiro sinal de que havia algo errado. Mas me enlouqueceu. Eu culpei minha personalidade. Foi muito perturbador.”

No filme, Milla (Eliza Scanlen, da série Sharp Objects) é uma adolescente superprotegida e até sufocada pelos pais, Henry (Ben Mendelsohn) e Anna (Essie Davis), por causa de sua doença. Mas tudo muda quando ela conhece o rebelde Moses (Toby Wallace, que ganhou o prêmio Marcello Mastroianni de melhor ator jovem em Veneza). O tema do filme não é exatamente novo, mas é tratado com delicadeza e diálogos bem escritos, além de contar com boas atuações do elenco principal e personagens sólidos. 

“Fico feliz de interpretar uma garota que mostra o que é ser mulher e o que é feminino de maneira diferente”, disse Eliza Scanlen. “Ela é cheia de facetas, e aqui exibimos suas estranhezas.” A atriz quer trabalhar com diretores de ambos os sexos, mas destaca que as mulheres têm uma sensibilidade particular, especialmente no que toca a personagens femininas – Eliza acaba de rodar Adoráveis Mulheres com a cineasta Greta Gerwig. “Elas veem as questões femininas por uma lente feminina, o que é importante. E eu me sinto mais confortável em me abrir com elas, especialmente ao falar de assuntos pessoais, como a primeira vez que me apaixonei.”

Uma das coisas que Shannon Murphy descobriu em sua estreia como diretora de longas – seu currículo é formado majoritariamente por produções teatrais – foi o “olhar feminino”, em contraposição ao “olhar masculino” tão discutido hoje em dia por sexualizar o corpo feminino e tratar as mulheres como objetos. “Eu acho a discussão sobre o olhar feminino e o olhar masculino muito interessante”, disse Murphy. “Apaixonar-se pela primeira vez para uma mulher é um sentimento muito elétrico e obsessivo. Queria explorar o corpo de Moses sob o ponto de vista de Milla. Nós adicionamos elementos como seu cabelo, suas tatuagens, para que Moses parecesse quase de outro mundo para Milla, para que estivéssemos com ela em suas descobertas.” 

O filme também é cheio de cores, que representam a saída de Milla da concha em que seus pais a mantém – na maior parte do tempo, a adolescente é a pessoa mais consciente e calma diante da gravidade de sua doença. Seus pais abusam de drogas legais, por exemplo, e entram em discussões por nada. Milla só quer aproveitar o que podem ser os últimos momentos de sua vida, inclusive namorando o “bad boy”. 

A primeira experiência num longa-metragem deixou um gosto de “quero mais” em Shannon Murphy. Mas, por enquanto, ainda não tem nenhum projeto no cinema. Ela saiu de Veneza quase diretamente para o set da terceira temporada da série Killing Eve, ganhadora do Emmy de melhor atriz para Jodie Comer, que é escrito pela estrela do momento, Phoebe Waller-Bridge, e protagonizado por duas mulheres complexas, numa relação muito complicada. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Olivier Assayas é homenageado durante abertura da 43.ª Mostra de Cinema

O diretor francês, que veio ao país para divulgar 'Wasp Network', acompanhou junto com presentes uma retrospectiva com os 16 filmes que marcaram sua carreira

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2019 | 08h00

Olivier Assayas guarda belas lembranças da época em que fez Irma Vep, em 1996. Estava se firmando como diretor, apaixonado por sua estrela, Maggie Cheung. Seis anos mais tarde, quando fizeram Demonlover, estavam terminando. Em 2004, quando ela recebeu o prêmio de melhor atriz em Cannes, havia somente a admiração e o respeito artísticos. “Foi um presente de despedida”, ele brinca. Assayas está em São Paulo, na Mostra. O parisiense de 64 anos veio para a abertura do evento, na quarta-feira à noite, com o thriller Wasp Network, que tem DNA brasileiro – a produção é de Rodrigo Teixeira.

Além de proporcionar a obra de abertura, Assayas, que trouxe parte de seu elenco – Edgar Ramírez, Leonardo Sbaraglia, Wagner Moura, etc. –, também está sendo homenageado com uma retrospectiva. São 16 filmes, incluindo os quatro citados. Nesta sexta, 18, ele ministra uma masterclass. O que vai dizer, professor? Ele acha graça. “Não faço a menor ideia, e por sinal não gosto dessa expressão: masterclass. Gosto do diálogo, da troca. Improviso em função do que as pessoas me propõem.” No set de filmagem, também é assim. “Quando escrevo o roteiro, nunca me preocupo sobre como vou filmar a cena. E, quando iniciou a filmagem, é sempre a mesma coisa. O filme vai tomando forma no set, com os ambientes, as paisagens, o elenco.”

Wasp Network? “Queria muito voltar ao universo de Carlos (seu thriller sobre o notório terrorista chamado de Chacal). Rodrigo (Teixeira) enviou o projeto ao meu produtor. Não conhecia o livro de Fernando Morais (Os Últimos Soldados da Guerra Fria). Li na edição inglesa, e achei que era o que estava querendo.” E o que era isso? “Você sabe. Histórias de pessoas confrontadas com a História, com as transformações do mundo. Gosto do cinema que tem compromisso com a realidade.” 

Três quartos de Wasp Network são ótimos – toda a parte inicial e o funcionamento da rede de espionagem montada por cubanos que fingiram desertar para os EUA. Parecem traidores, mas são heróis da revolução castristas. Quando a mulher de Ramírez, Penélope Cruz, junta-se ao marido em Miami, o filme vira novelão. “Entendo o que você diz, mas estou seguindo a história real. Não inventei nada.” 

Assayas ama filmar mulheres. O que nos leva de volta a Maggie Cheung. “Ela já era uma grande estrela na Ásia quando aceitou fazer o filme. É sobre uma atriz que refaz o seriado clássico do cinema mudo, Les Vampires, de Louis Feuillade, e a perturbação que causa no diretor”, diz. Demonlover/Espionagem na Rede, com Connie Nielsen, é sobre o universo dos sites pornográficos. Clean é sobre uma ex-drogada que, limpa, e depois de passar um período na cadeia, tenta recomeçar com o filho. Assayas filmou o pós-Maio de 68, as transformações no mundo editorial, em tempos de internet em Vidas Duplas. “Sim, sempre as mudanças, sempre os destinos sentimentais”, avalia.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Parasita' de Bong Joon-Ho, narra luta de classes sem recorrer a velhos clichês

Filme do diretor coreano conquistou a Palma de Ouro do Festival de Cannes ao retratar a disparidade social existente na Coreia do Sul

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2019 | 08h00

Palma de Ouro em Cannes, Parasita, do coreano Bong Joon-Ho, inquieta já pelo título. O que é um parasita senão um ser vivo que se alimenta de outro, sugando-lhe a seiva vital? Em torno dessa metáfora biológica, transposta para uma vertente social, o cineasta observa, com sutileza e olhos de lince, a realidade a sua volta. 

Não se trata de um país problemático e de estilo montanha-russa, como o Brasil. Mas, mesmo na afluente Coreia do Sul, modelo de desenvolvimento em escala mundial, existem as disparidades sociais. Ao passar de certo nível, elas provocam não apenas a inveja e o ressentimento (como gostam de simplificar os liberais), mas se transformam em verdadeiros venenos da convivência. É o caso da família Ki-taek, composta de desempregados crônicos, que olha com cobiça para a riquíssima família Park

Durante algum tempo, Joon-Ho nos ocupa com a descrição do cotidiano da família pobre. Literalmente, eles moram abaixo do solo, numa habitação precária, cuja janela fica em nível inferior ao da rua. Olham a vida que passa inclinando o pescoço para trás. Em entrevistas, o diretor diz que esse tipo de moradia existe mesmo em Seul. Ok, mas não deixa de ser uma metáfora poderosa. O desempregado olha o mundo pela perspectiva do fundo do poço. 

Todo o contrário é a mansão dos Park, a família feliz, sorridente, que habita acima do nível do solo em uma ampla casa servida pela tecnologia mais avançada. Tudo lá é automatizado, lembrando às vezes a casa bolada por Jacques Tati em Mon Oncle. A família é feliz, rica, mas insegura. Como tem a sensação de precariedade do seu status, torna-se vulnerável à palavra de qualquer vigarista. Essa fragilidade, o ponto falho dos ricos escondido em sua insegurança e vaidade, não deixa de ser notada por quem olha o mundo de baixo. 

De modo que, sem qualquer resquício de mecanicismo, Joon-Ho passa a observar o relacionamento entre essas duas famílias, antípodas da pirâmide social. A família Ki-taek precisa tirar o pé da lama, e só pensa nisso. A família Park necessita de vários empregados – um motorista, uma faxineira, um professor de inglês, etc. Há esse encontro entre oferta e necessidade, que não deixa de funcionar como o perfeito mecanismo de um relógio. Tudo se encaixa, pelo menos de início. 

Esse “encaixe” é prova de domínio da linguagem cinematográfica. A farsa, ora divertida, ora trágica, sobre a violência das relações sociais assimétricas, passa por seus vários registros de maneira suave, azeitada. Parece de início divertida. Em seguida mostra suas arestas, na chave do humor negro. Adquire complexidade, até explodir numa relação chegada ao fantástico, na medida em que os subterrâneos da casa rica vão sendo explorados. Eis aí a metáfora dentro da metáfora, como a dizer que no subsolo de toda fortuna se encontram esqueletos escondidos no armário.

Bong Joon-Hoo não hesita em visitar modalidades de gênero e influências para construir seu cinema. Cultua tanto o fantástico (como em seu O Hospedeiro) quanto a estranheza das relações humanas inspirada em Hitchcock e Chabrol. O resultado do coquetel é fabuloso e perfeitamente original. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Dificuldades não impedem 43.ª Mostra de Cinema de apresentar 60 filmes nacionais ao público

Programação começa hoje com ‘Macabro’, de Marcos Prado, e vai até a quarta-feira, do dia 30. Ao todo, serão exibidas 300 produções exclusivas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2019 | 06h00

Setembro passou e não houve Festival de Brasília. O Festival do Rio, sem recursos, teve de transferir sua data para dezembro e a Première Brasil, grande vitrine do cinema brasileiro, corre o risco de sair bem menor que de costume. Por tudo, a 43.ª Mostra, que começa hoje, 17, para o público – e segue até 30 –, assume uma importância maior que nunca para a produção nacional. Dos 300 filmes anunciados, 60, ou 1/5, são brasileiros, a maioria em estreia nacional. Um e outro já passou no Cine Ceará, em Gramado, mas a Mostra acolhe mesmo esses títulos – a preferência é sempre para inéditos –, porque, afinal, concorrem a um prêmio em dinheiro. Sim, nesse quadro de torneiras fechadas do Governo Federal, a Mostra está conseguindo manter não só o calendário, mas a extensão e até valores agregados aos prêmios para a produção nacional.

São 60 filmes, vale repetir: 60! A programação inicia-se nesta quinta com Macabro, de Marcos Prado, fotógrafo premiado, diretor e produtor cujo nome esteve associado ao de José Padilha nos dois Tropa de Elite. O próprio Prado realizou Estamira e Paraísos Artificiais

Estreia na Mostra Macabro, cuja trama se passa na década de 1990, contando a história de dois irmãos que foram acusados pelo assassinato de oito mulheres, um homem e uma criança na região da Serra dos Órgãos. Mais que uma contribuição do diretor ao cinema de gênero que cresce no País, Macabro centra-se na crise de consciência do sargento militar que investiga o caso. Na cola dos supostos criminosos, Renato Góes percebe que o julgamento da imprensa e o racismo da sociedade condenaram os irmãos, mesmo que ele tenha sérias dúvidas sobre o envolvimento de um deles.

Mais escancaradamente de gênero, Juízo, de Andrucha Waddington, terá sua estreia na Mostra no fim de semana – no sábado, 19. Andrucha dirige um roteiro da mulher, Fernanda Torres. Terror familiar? Felipe Camargo está em crise no casamento com Carol Castro e a vida aviltada pela bebida. Em busca de reerguimento, muda-se com a mulher e o filho – Joaquim Torres Waddington, filho do diretor e da roteirista, estreando no cinema – para uma fazenda que herdou, e aí, sim, as coisas que já não andam boas complicam-se ainda mais. O lugar carrega um histórico de violência, com registros de traições e mortes por vingança. Entram em cena Lima Duarte e a sogra do diretor, Fernanda Montenegro, que ele já dirigiu anteriormente em Gêmeas e Casa de Areia.

Fernanda, que festejou 90 anos nesta quarta, 16, terá na sexta, 18, seu grande dia na Mostra. Em parceria com o Theatro Municipal, que fornece seu palco, haverá uma sessão – de gala, por menos que a diretora e curadora artística Renata de Almeida não goste da palavra – de A Vida Invisível, agora definitivamente sem o acréscimo de Eurídice Gusmão no título. 

Eurídice é a protagonista do longa de Karim Aïnouz produzido por Rodrigo Teixeira e que foi escolhido como representante do Brasil na disputa a uma vaga no Oscar de melhor longa Internacional – nova denominação para Estrangeiro. Em maio, A Vida Invisível venceu o prêmio da mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes. Conta a história de duas irmãs separadas pela brutalidade de um pai e um marido.

Karim, grande diretor – de Madame Satã, O Céu de Suely e Praia do Futuro -, sempre quis fazer um filme sobre a geração de mulheres como sua mãe, que o criou sozinha, em Fortaleza, numa época em que o casamento, e o marido, definiam a posição social da mulher. O filme é bom, sem sombra de dúvida, mas dispara, elevando-se, no impressionante último ato, quando Fernanda entra em cena. Vale lembrar a Dora, de Central do Brasil, de Walter Salles, pelo qual Fernanda foi melhor atriz em Berlim e indicada para o Oscar. 

Dora escrevia aquelas cartas. Agora, outras cartas ajudam a destrinchar a história que Karim adaptou do livro de Martha Batalha. A expectativa é de que a discussão sobre a condição das mulheres, em tempos de empoderamento e #MeToo, fortaleça a candidatura do filme e o Brasil, e Fernanda – como coadjuvante –, voltem ao Oscar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Vincent Lindon brilha no papel do grande sedutor em ‘O Último Amor de Casanova’

Longa de Benoît Jacquot apresenta ao público Giacomo Casanova, maior conquistador dos últimos tempos, durante rara situação amorosa que fugiu do seu controle

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2019 | 06h00

Giacomo Casanova (1725-1798) tornou-se um mito Ocidental. Ícone da conquista amorosa, da potência masculina, da elegância do amor libertino, passou a ser desmistificado assim que esses valores, outrora indiscutíveis, passaram a ser questionados. Depois de Federico Fellini e Ettore Scola, entre outros, é a vez de Benoît Jacquot flagrar Giácomo em seus anos maduros e – pior – diante de uma situação amorosa fora de controle do velho sedutor. 

Cineasta experiente, Jacquot constrói seu Casanova como um trabalho de memória. Ele está já em seu paradeiro final, na grosseira corte da Saxônia, onde foi buscar pão e repouso. Seu tempo passou. Chegou a hora da memória e da reflexão. Como a narrativa é um conforto da velhice, ele conta seus casos a uma jovem da corte. 

Em O Último Amor de Casanova, um dos destaques da Mostra, Giacomo (Vincent Lindon) evoca uma passagem de sua existência, quando refugiou-se na Inglaterra. Sem conhecer nada do país, e nem mesmo o idioma, não tinha a mesma desenvoltura de outros tempos e passou a relacionar-se de maneira exclusiva com uma jovem cortesã, Marianne de Charpillon (Stacy Martin). Com a Charpillon, Casanova comete o pecado capital de qualquer conquistador profissional – apaixonar-se. E sem ser correspondido.

Quanto maior o assédio, mais Marianne se distancia, até lhe dizer que ele só a teria no momento em que deixasse de desejá-la. Um lindo (e terrível) paradoxo: só me terá quando isso não tiver mais a menor importância. 

Lindon compõe seu personagem com toda a dignidade e elegância. É um ator soberbo, capaz de passar uma gama de significados com o gestual refinado e expressões faciais controladas. Tal desempenho é próprio do ator, mas também faz parte de uma filosofia de direção que prima pela discrição e, também, por uma talvez voluntária ausência de inventividade. 

Um tanto acadêmico, O Último Amor de Casanova é respeitoso com o personagem. Mesmo em sua decadência, o sedutor veneziano é retratado com elegância. Não mostra o tom patético do Casanova de Scola (Marcello Mastroianni) às voltas com a Revolução Francesa. Muito menos é retratado como boneco patético, como fez Fellini com seu Giácomo interpretado por Donald Sutherland

O Casanova de Lindon é um cavalheiro que sucumbe em sua última cartada, falha na arte em que era virtuoso e entrega os pontos ao tempo, esse adversário implacável e paciente. Com a dignidade dos vencidos, que podem estampar como consolo seu passado de glória. 

Tudo o que sabemos sobre:
Vincent LindonBenoît Jacquotcinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

‘Mr. Jones’ narra a história de jornalista que denunciou as mazelas políticas do stalinismo

Longa apresenta ao público Gareth Jones e sua visão das estratégias da 'grande fome', cujo intuito era dizimar os inimigos de Josef Stalin

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2019 | 06h00

Na agenda tradicionalmente política do Festival de Berlim, a polonesa Agnieszka Holland usou o palco da Berlinale para repetidas manifestações contra o stalinismo. Ela participou da seleção – em fevereiro – com seu novo longa, Mr. Jones, que chega à Mostra nesta quinta, 17. O tema está relacionado à imprensa, e Agnieszka também fez repetidos ataques às fake news, nesses tempos em que as redes sociais começam a substituir a imprensa acolhendo todo tipo de informação. Agnieszka bateu pesado em Donald Trump e seus seguidores em todo o mundo. Declarou-se decepcionada. O mundo, tal como está hoje, não foi aquele pelo qual lutou, enfrentando a censura e a linha dura do comunismo em seu país de origem.

O curioso é que houve outro Mr. Jones, um filme de Mike Figgis, de 1993, sobre o colonialismo inglês na África. O ‘mister’ de Agnieszka é o jornalista galês Gareth Jones, que denunciou as implicações políticas da grande fome provocada por Josef Stalin na União Soviética, no começo dos anos 1930. Ao mesmo tempo em que cortava suprimentos e dizimava inimigos, o stalinismo exercia rigoroso controle da imprensa e do cinema como meios de difusão. O escritor George Orwell admitiu que se inspirou na figura e nas denúncias de Jones para escrever sua obra seminal, A Revolução dos Bichos.

Agnieszka Holland foi assistente de Andrzej Wajda, mestre polonês reconhecido pela estética fortemente política que está na base do seu cinema – recompensado por um Oscar especial entregue por Jane Fonda, rememorando seus tempos de militância, como ‘Hanói Jane’. Agnieszka destacou-se com filmes comprometidos com a realidade polonesa de Lech Walesa e seu sindicato Solidariedade. Colocou o dedo na ferida do antissemitismo no país católico. Europa, Europa/Filhos da Guerra fez sensação em 1990, com sua história de judeu que tenta esconder sua condição judaica e o fato de ser circuncidado – ao virar paradigma do super-homem nazista. Em Hollywood, fez O Jardim Secreto.

Essa mistura de realidade extrema e um toque de fantasia está presente na estrutura de Mr. Jones. O filme, ao mesmo tempo que segue a história de resistência do jornalista, interpretado por James Norton, agrega imagens de George Orwell em seu processo criativo – e até dos animais que ele imagina em sua fazenda. Mais até do que sobre Gareth Davis, vira um filme sobre um escritor – George Orwell – que encontra um jornalista, que lhe faz uma denúncia, que inspira um livro. Tudo isso parece intrigante e permite uma mistura até mesmo desconcertante de formas narrativas. No final da sessão oficial, na Berlinale, o público, perplexo, demorou um pouco para reagir. Agnieszka, que nunca foi muito sutil, disse que contava com isso. O importante é provocar reação no público, sacudi-lo de seu torpor e levá-lo a pensar um pouco no estado (crítico) do mundo.

Tudo o que sabemos sobre:
Agnieszka Hollandcinema

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

‘Estado’ indica lista de filmes imperdíveis da 43.ª Mostra de Cinema

Hostilizado pelo governo federal e cheio de dúvidas quanto ao seu futuro, o cinema nacional ainda mostra força e oferece nada menos que 60 títulos ao público da Mostra

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

16 de outubro de 2019 | 17h29

Quebrou a cara quem achou que, em virtude da crise, a 43ª Mostra de Cinema faria uma edição mais fraca este ano. A tradicional festa paulistana do cinema já anunciou seu portfólio para 2019 e este contém nada menos que 327 títulos, que se espalharão por dezenas de cinemas da cidade. Várias salas estão no eixo da Avenida Paulista e a elas se soma o circuito SPcine, em várias localidades da capital. A mostra começa hoje, no Espaço Ibirapuera Oscar Niemeyer, com a exibição, para convidados, de um longa muito aguardado, Wasp Network, de Olivier Assayas, que competiu no Festival de Veneza deste ano. 

Assayas vem ao Brasil e, junto com ele, parte do elenco - o brasileiro Wagner Moura, o venezuelano Édgar Ramírez e o argentino Leonardo Sbaraglia. Eles contam uma história incrível - e real - baseada no livro de Fernando Morais, Os Últimos Soldados da Guerra Fria, sobre agentes cubanos infiltrados em grupos terroristas anticastristas de Miami. Vale esperar muito deste filme, pois Assayas já se revelou craque em unir ação, alta temperatura política e contexto histórico em Carlos, sobre Carlos, o Chacal, aliás interpretado pelo mesmo Édgar Ramírez de Wasp Network. 

No dia seguinte, 17, a Mostra abre para valer e começa a rolar para o público cinéfilo. Há que fazer um planejamento, pois nem o mais intrépido maratonista dispõem de fôlego para ver tudo, e nem mesmo parte considerável do que é oferecido nas diversas seções do evento: apresentações especiais, homenagens, restaurações, novos diretores, mostra Brasil e perspectiva internacional. Um paradoxo desses grandes eventos é que o cinéfilo, embora saia exausto e satisfeito, sempre fica com a sensação de ter perdido alguma coisa irrecuperável. E o pior é que essa impressão é, em geral, verdadeira. Sempre escapa alguma obra fundamental. 

De qualquer forma, há diferenças de planejamento para explorar o oceano da Mostra. Quem prefere valores sólidos pode se concentrar em títulos oriundos dos grandes festivais do mundo. Alguns exemplos: Parasita, de Bong Joon-Ho, Palma de Ouro em Cannes e Sinônimos, de Nadav Lapid, Urso de Ouro em Berlim. Dois campeões. Mas também deve ter em mira Family Romance LTDA, de Werner Herzog (Cannes), Cicatrizes, de Miroslav Terzic (Cannes), Joana D’Arc, de Bruno Dumont (Cannes), além do próprio Wasp Network (Veneza). 

Outro campo exploratório interessante é o do cinema brasileiro. Hostilizado pelo governo federal e cheio de dúvidas quanto ao seu futuro, o cinema nacional ainda mostra força e oferece nada menos que 60 títulos ao público da Mostra.

Haveria muito que destacar entre eles, a começar por Uma Vida Invisível, de Karim Aïnouz, escolhido para representar o Brasil no próximo Oscar. Pacarrete, de Allan Deberton, tem arrebatado corações e mentes por onde passa - só no Festival de Gramado levou oito troféus. Babenco - Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, de Bárbara Paz, levou o prêmio de documentário em Veneza. Há outros títulos a serem explorados, como Amazônia Sociedade Anônima, de Estevão Ciavatta, sobre um tema premente nesta época de luta inglória pela preservação da floresta. Também convém conferir filmes como Sete Anos em Maio, de Affonso Uchoa, representante da criativa escola mineira, e Três Verões, novo trabalho de Sandra Kogut. Isso para ficar em alguns exemplos. Na verdade, o cardápio nacional parece muito saboroso e cheio de promessas. 

Há também as apostas de risco - e frequentadores mais antigos da Mostra sabem que é entre elas que se descobrem as pepitas. De olho nas preciosidades, é preciso ficar atento à competição de novos diretores, da qual só participam os que têm até dois longas no currículo. Há nessa sessão um mar de filmes de países como Espanha, Portugal, Estados Unidos, Itália, Rússia, Sérvia, Eslovênia, Irã, México, Israel e um longo etcétera. Inclusive com diretores do Brasil, entre os quais destaco o pernambucano Camilo Cavalcante com seu segundo longa, Beco. Há estreias curiosas, como a do filósofo Francisco Bosco (em parceria com Raul Mourão) com O Mês que não Terminou. E a da estudiosa de cinema Lúcia Nagib, hoje radicada na Inglaterra, que faz seu début com Passagens, co-dirigido por Samuel Paiva. Um lembrete: é desse universo dos novos diretores que, escolhidos pelo voto do público, saem os finalistas ao Troféu Bandeira Paulista. Os classificados pelo voto popular serão submetidos ao júri oficial, composto este ano pela atriz portuguesa Maria de Medeiros, a produtora francesa Xénia Maingot e o cineasta argentino Lisandro Alonso

Preste atenção também aos homenageados. Olivier Assayas, além de abrir a mostra, recebe o Prêmio Leon Cakoff e ganha uma retrospectiva de sua obra com 14 títulos, entre eles Clean, Depois de Maio, Horas de Verão e Vidas Duplas

Já o cineasta palestino Elia Suleiman recebe o Prêmio Humanidade e mostra seu novo filme, O Paraíso Deve ser Aqui, premiado em Cannes. 

Além de Assayas, quem recebe o Prêmio Leon Cakoff é o israelense Amos Gitai, habitué e amigo da Mostra. Gitai verá a projeção de dois dos seus longas mais conhecidos, Berlim-Jerusalém e Kadosh, além de presenciar o lançamento de um livro muito especial. Em Tempos como Estes, correspondência da mãe de Gitai entre 1929 e 1994, será lançado pela Mostra e trechos das cartas serão lidas por Camila Márdila, Bárbara Paz, Regina Braga e Gabriel Braga Nunes

Há outra novidade este ano, as sessões no Theatro Municipal nas quais se exibirão títulos brasileiros que tiveram sucesso no exterior como Babenco - Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou (Veneza) e A Vida Invisível (Cannes). 

Por outro lado, mantém-se a tradicional sessão na parte externa do Auditório Ibirapuera com acompanhamento da Orquestra Jazz Sinfônica. Este ano, o título escolhido é um clássico do expressionismo alemão, de Robert Wiene. O motivo da homenagem é o centenário da obra, mas seria difícil escolher filme mais adequado ao panorama político atual que o sombrio Gabinete do Doutor Caligari, obra que prenunciava a ascensão do nazismo na Alemanha, segundo especialistas. 

A mostra termina dia 30, com a distribuição de prêmios e a exibição de Dois Papas, novo longa-metragem de Fernando Meirelles, de Cidade de Deus. Anthony Hopkins e Jonathan Pryce interpretam os papas do título na passagem de bastão de Bento 16 para Francisco

Com o encerramento, a roda não para e dá início à repescagem, última chance dos cinéfilos de recuperar algum título perdido ao longo da maratona. 

 

Apostas

Wasp Network, de Olivier Assayas. Inspirado no livro de Fernando Morais, Os Últimos Soldados da Guerra Fria, o longa mostra a ação de agentes cubanos infiltrados em grupos anticastristas em Miami. 

 

 

A Vida Invisível, de Karim Aïnouz. Por caminhos diferentes, duas irmãs tentam enfrentar a sociedade machista brasileira no Rio de Janeiro dos anos 1940 e 1950. Adaptação livre do romance de Martha Batalha

 

 

Parasita, de Bong Joon-Ho. Curiosa maneira de observar a disparidade gritante entre classes sociais, através de uma família de subempregados que consegue se infiltrar aos poucos na mansão de uma família rica. Palma de Ouro em Cannes.

 

 

Papicha, de Mounia Meddour. O longa ambienta-se na Argélia dos anos 1990, onde um grupo de jovens mulheres, estudantes de moda, precisa enfrentar a intolerância e violência de milícias de fundamentalistas religiosos. 

 

 

Joana D’Arc, de Bruno Dumont. Revisita uma personagem emblemática da história francesa, Joana D’Arc, presa e levada à fogueira durante a Guerra dos Cem Anos, entre Inglaterra e França. O diretor Bruno Dumont (de A Humanidade) inspira-se em uma peça de Péguy na qual Joana é uma antibelicista que dizia querer “matar a guerra”. 

 

 

Chão, de Camila Freitas. Não se trata de mais um filme sobre o MST, mas de um estudo observacional cuidadoso do movimento, do modo de vida nos acampamentos, dos temores e esperanças dos seus componentes. Movimentos são feitos de homens e mulheres de carne e osso e muitas vezes os filmes políticos se esquecem disso. Em Chão, essa dimensão é realçada. 

 

 

Pacarrete, de Allan Deberton. Inspirando-se numa personagem real de sua cidade, Russas, no interior do Ceará, Deberton vem ganhando prêmios em cima de prêmios por onde passa. A personagem-título, uma bailarina envelhecida que deseja oferecer sua arte à cidade onde vive, tem em Marcélia Cartaxo sua intérprete ideal. Faz rir e faz chorar. Às vezes ao mesmo tempo. 

 

 

O Jovem Ahmed, dos irmãos Dardenne. Os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne são conhecidos (e premiados) por seu cinema despojado e de alta voltagem social, como Rosetta e A Criança. Nesta história, Ahmed é um garoto de 13 anos, convencido por seu imã de que a professora que o educa não passa de uma pecadora e deve ser punida. 

 

 

La Llorona, de Jayro Bustamante. O diretor é um talento guatemalteco. Nesta história, ele atualiza, em termos políticos, a lenda da “chorona”. Um general, acusado de genocídio, é absolvido pelo júri, mas a alma de uma mulher assassinada passa a atormentá-lo. Ganhou o prêmio de direção na seção Jornada dos Autores, do Festival de Veneza. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Filme 'Wasp Network’ vai abrir a 43.ª Mostra de Cinema de São Paulo

Longa do diretor francês Olivier Assayas tem Édgar Ramírez, Wagner Moura e Gael García Bernal no elenco

Mariane Morisawa, Especial para O Estado

13 de outubro de 2019 | 07h00

VENEZA - Foi o produtor brasileiro Rodrigo Teixeira quem fez chegar às mãos do diretor francês Olivier Assayas, por meio de seu produtor francês, Charles Gillibert, o livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais, sobre um grupo de cubanos infiltrados nos movimentos anticastristas em Miami. “Eu acho que ele me procurou por causa de Carlos, o Chacal”, disse Assayas ao Estado durante o Festival de Veneza, onde o filme Wasp Network fez sua estreia mundial, em competição – o longa abre a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, para convidados, no dia 16, com presença do cineasta e dos atores Édgar Ramirez e Leonardo Sbaraglia, além de Wagner Moura. “Eu achei o material extraordinário, mas muito difícil de adaptar.” 

O livro conta a história completa dos chamados Cinco de Cuba, que, depois de presos pelas autoridades americanas, recusaram acordos e cumpriram longas penas por suas atividades. Assayas achou melhor focar em alguns dos personagens, especificamente em René González (o venezuelano Édgar Ramírez), que parte para os Estados Unidos sem deixar nem bilhete para sua mulher Olga (a espanhola Penélope Cruz) e os filhos. Em tese, foi tentar uma vida melhor – mas, na verdade, se infiltra em organizações que tentam derrubar o governo de Fidel e depois o do seu irmão Raul Castro, inclusive explodindo hotéis em Havana. Vive como um imigrante comum, com dificuldade financeiras. “Eles eram espiões proletários”, contou Assayas. “É difícil entender o que faz uma pessoa aceitar abandonar a família, mas, no fim, eles eram soldados. Acho que eles foram os últimos de uma geração que estava disposta a morrer por seus ideais.”

Outro personagem importante é Juan Pablo Roque (Wagner Moura), tenente-coronel das Forças Aéreas Cubanas, que nada sete horas até a base de Guantánamo para pedir asilo ao governo americano. Ele também se infiltra na Wasp Network (“rede de vespas”, na tradução), mas vira agente duplo para o FBI. Torna-se celebridade local ao fazer uma cerimônia de casamento espetacular com Ana Margarita Fernandez (a cubana Ana de Armas, de Blade Runner 2049), que depois abandona ao retornar a Cuba

O elenco ainda conta com o mexicano Gael García Bernal, como o chefe da rede, e o argentino Leonardo Sbaraglia (de Dor e Glória, o último filme de Pedro Almodóvar), como o líder de um dos grupos anticastristas. É quase um dream team da América Latina. “Minha intenção era ser autêntico e usar apenas atores cubanos”, disse Assayas. “Mas eu vi que não dá para escrever um roteiro que custa mais do que seus filmes independentes e usar só atores desconhecidos. Então pensei: Por que não ir atrás dos melhores?” O cineasta já tinha trabalhado com Édgar Ramírez, que fez o personagem-título da minissérie Carlos, o Chacal, mas não conhecia Wagner Moura. “Eu o adorei assim que conheci. É uma das coisas que o cinema proporciona: não apenas ele era o homem certo para o papel, mas também para ser meu amigo”, disse Assayas. Para o diretor, trabalhar fora da França é uma oportunidade “de conhecer atores de outras culturas, que falam outra língua, o que abre meu mundo e também renova meu prazer em fazer filmes”.

Rodar em Cuba foi uma caixinha de surpresas. “Não tivemos tantas restrições quanto eu pensava. Eles nos deixaram filmar coisas que não imaginei que iam permitir”, disse o diretor. Por exemplo, o lobby de um dos hotéis que sofreu atentado de um grupo anticastrista, mas também uma base aérea, com três caças MiG no ar. “As coisas mudaram no meio do caminho, porque as tensões políticas com os Estados Unidos acabaram afetando.” Édgar Ramírez contou que as regras eram alteradas o tempo todo. “Algumas permissões eram retiradas. Era toda uma burocracia, o que não é surpreendente nem estranho para mim, que venho da Venezuela. É um lugar complicado. Sou jornalista e faço muitas perguntas. Algumas pessoas estavam dispostas a responder, e outras, não, o que diz muito sobre o estado de coisas.”

Assayas disse que tinha uma visão errônea sobre a ilha, uma coisa mais turística, com os carros antigos e as casas coloridas. “Mas os cubanos levam uma vida muito difícil. É deprimente ver tanta pobreza no centro de Havana”, disse. “Para nós, era estranho porque ficávamos numa Cuba que tem seu próprio dinheiro, em que há restaurantes caros. Claro que vemos esse contraste em outros países, mas ali a população não tem acesso à internet, é um país sem democracia. A sensação é a de que não vai durar muito. Mudanças vão acontecer.” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Em tempos difíceis, 43.ª Mostra de Cinema de São Paulo vem forte e com seleção extensa

São 300 filmes, incluindo 60 brasileiros; obras premiadas nos maiores festivais e autores de importância reconhecida

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

13 de outubro de 2019 | 07h00

Importantes festivais de cinemas do País tiveram de adiar suas datas e até abrir crowdfunding para se viabilizar neste ano. Os cortes de patrocínios à cultura têm sido drásticos. Nesse cenário que se torna crítico, a Mostra de Cinema de São Paulo inicia firme e forte na quarta-feira, 16, sua 43.ª edição. Ministério da Cidadania, governo do Estado, Prefeitura, Itaú e Sabesp garantem a realização do evento de cinema mais importante da cidade.

Será uma mostra surpreendente, potente, anuncia a própria diretora do evento, Renata de Almeida. Até dia 30 serão exibidos cerca de 300 filmes. Em torno de 60, um quinto, brasileiros. Renata destaca o DNA brasileiro, presente desde o cartaz de Nina Pandolfo, do qual foi retirada uma vinheta de grande sensibilidade – “Um oásis nestes tempos de tanta brutalidade e grosseria”, segundo Renata –, mas também nos filmes de abertura e encerramento. 

A mostra abre-se com Wasp Network, de Olivier Assayas, produção de Rodrigo Teixeira a partir do best-seller de Fernando Morais, Os Últimos Soldados da Guerra Fria, em presença do diretor e dos atores Édgar Ramírez e Wagner Moura. Encerra-se com Os Dois Papas, produção internacional dirigida por Fernando Meirelles, com Jonathan Pryce e Anthony Hopkins como os papas Francisco e Bento XV que discutem os rumos da Igreja (e do mundo).

Assayas receberá o Prêmio Leon Cakoff e a Mostra anuncia uma retrospectiva com 14 títulos, desde mais antigos como Irma Vep até Clean, da fase em que foi casado com Maggie Cheung, até obras como Depois de Maio, sobre o célebre Maio de 68, Horas de Verão, Vidas Duplas e a série completa dedicada a Carlos, com Édgar Ramírez como o terrorista que se tornou conhecido como Chacal. Meirelles também produz outra pérola da programação, o documentário The Great Green Wall, dirigido por Jared P. Scott, que representa sua vertente ecológica.

Já que foi citado o Prêmio Leon Cakoff para Assayas, outro importante autor – além de amigo do evento –, o israelense Amos Gitai, também receberá o mesmo prêmio. Amos comemora na Mostra datas redondas de seus grandes filmes – os 30 anos de Berlim-Jerusalém e os 40 de Laços Sagrados – Kadosh. Lança o livro Em Tempos Como Estes, uma compilação da correspondência de sua mãe, Efratia Gitai, entre 1929 e 1994, numa parceria da Mostra com a editora Ubu e o Ventre Studio, que promoverá uma leitura das cartas (por Bárbara Paz).

Outro amigo, o palestino Elia Suleiman, apresenta seu novo longa, premiado em Cannes, em maio – O Paraíso Deve Ser Aqui –, e recebe o Prêmio Humanidade. Renata lembra que Amos e Suleiman são amigos e a prova viva de que o diálogo é possível no Oriente Médio

 

DESTAQUES:

Pacificado

O longa que o norte-americano Paxton Winters realizou numa favela do Rio venceu a Concha de Ouro no Festival de San Sebastián

 

Sinônimos

Urso de Ouro no Festival de Berlim, o longa do israelense Navad Lapid narra uma bela história de pertencimento. Jovem judeu que deixou Israel tenta se adaptar à França. Como companheiro, tem um dicionário

 

A Vida Invisível

O longa de Karim Aïnouz que venceu a mostra Un Certain Regard em Cannes é uma das atrações da programação especial que terá o Municipal como palco

 

Parasita  

O sul-coreano Bong Joon-ho venceu em 2019 a Palma de Ouro, em Cannes, por esse ‘assunto de família’, na verdade duas famílias que interagem. É a primeira vez que a Coreia do Sul leva o principal prêmio do festival

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Saiba tudo sobre a 43.ª edição da Mostra Internacional de Cinema

Valores dos ingressos, data de abertura das vendas e filmes exibidos

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2019 | 07h00

A Mostra Internacional de Cinema de 2019 irá exibir cerca de 300 filmes inéditos. Entre os dias 17 e 30 de outubro, 34 salas de 28 locais de exibição, entre salas de cinema, espaços culturais, CEUS e museus recebem a programação do evento. O Caderno 2 preparou um guia com todas as informações da 43.ª edição da Mostra. Confira:

Quando acontece?

A Mostra começa em 17 de outubro e segue até o dia 30. Mas, como nas outras edições, há uma semana extra de programação, conhecida como repescagem, que traz novas sessões. Em 2019, essa semana acontece entre os dias 31 de outubro e 7 de novembro.

Como comprar ingressos para a Mostra Internacional de Cinema?

Os pacotes de ingressos e as entradas permanentes para o evento começarão a ser vendidos neste sábado, dia 12, a partir das 11h. Os pacotes de ingressos podem ser comprados na Central da Mostra, nos pontos de exibição e online, no site veloxtickets.com. Confira os endereços:

Central da Mostra

  • Endereço: Av. Paulista, 2073 (Conjunto Nacional)
  • Informações: A partir do dia 07/10, das 12h às 18h
  • Vendas de pacotes: De 12 a 30/10, das 11h às 21h

Estande da Mostra para troca de ingressos

  • Endereço: Shopping Frei Caneca, rua Frei Caneca, 569 (3º andar).
  • Trocas: De 17 a 30/10, das 12h às 21h

Quanto custam os ingressos?

O valor varia de acordo com o pacote. São cinco opções:

  • Ingressos avulsos: R$ 20 (de segunda a quinta) e R$ 24 (de sexta a domingo)
  • Pacote com 20 ingressos: R$ 220
  • Pacote com 40 ingressos: R$ 374
  • Permanente especial (de segunda a sexta, até 17h55): R$ 117
  • Permanente integral (acesso total, em todos os dias e horários): R$ 500

Obs.: Os ingressos avulsos estarão disponíveis no dia de cada sessão, somente nas salas de exibição.

Quem são os homenageados? 

O diretor palestino Elia Suleiman recebe o Prêmio Humanidade; seu trabalho mais recente, O Paraíso Deve Ser Aqui, foi premiado no Festival de Cannes e compõe a programação da Mostra. 

O diretor israelense Amos Gitai recebe o prêmio Leon Cakoff. Dois de seus longas, Berlim-Jerusalém (1989) e Kadosh – Laços Sagrados (1999) terão sessões especiais em homenagem aos seus aniversários de lançamento. 

Quais filmes são os destaques desta edição?

Os filmes brasileiros representam 20% da programação. Entre eles, está A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, premiado em Cannes e indicado pela Academia Brasileira de Cinema para concorrer a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro. Como o longa de Aïnouz, outros 11 filmes indicados por seus países para tentar concorrer ao Oscar integram a programação. Entre eles, Parasita, do sul-coreano Bong Joon-ho, que venceu a Palma de Ouro em Cannes, e mais títulos que fizeram sensação na Croisette. O Paraíso Deve Ser Aqui, do palestino Elia Suleiman, e Papicha, de Mounia Meddour, da Argélia.

Confira a lista de destaques:

  • Parasita, de Bong Joon-ho
  • Wasp Network, de Olivier Assayas
  • Dois Papas, de Fernando Meirelles
  •  A Vida Invisível, de Karim Aïnouz
  •  The Great Green Wall, com produção de Fernando Meirelles
  • A Linha, de Ricardo Laganaro (filme em realidade virtual premiado no Festival de Veneza)
  • O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene, com acompanhamento da Orquestra Jazz Sinfônica, em homenagem ao centenário do filme, na semana da repescagem. 

Onde acontece a Mostra Internacional de Cinema?

A programação da 43ª Mostra Internacional de Cinema ocorrerá em 34 salas de 28 locais de exibição:

Circuito pago:

  • Auditório Ibirapuera – Oscar Niemeyer
  • Cinearte (Salas 1 e 2)
  • Cinemateca Brasileira
  • Sala BNDES
  • Cinesala
  • CineSesc
  • Espaço Itaú de Cinema – Augusta (Salas 1 e 4)
  • Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca (Salas 1, 2, 3, 4, 5)
  • Instituto Moreira Salles (IMS Paulista)
  • Itaú Cultural
  • MIS
  • Petra Belas Artes (Sala Villa-Lobos)
  • Reserva Cultural (sala 1)
  • Spcine Olido
  • Spcine Paulo Emilio – CCSP
  • Spcine Lima Barreto – CCSP

Circuito gratuito: 

  • Instituto CPFL (sala Umuarama)
  • SESC Belenzinho
  • SESC Campo Limpo
  • SESC Osasco – Tenda
  • Theatro Municipal de São Paulo
  • MASP (Vão Livre)
  • CEU Aricanduva
  • CEU Caminho do Mar
  • CEU Meninos
  • CEU Vila Atlântica
  • CEU Jaçanã
  • Centro de Formação Cultural da Cidade Tiradentes

É possível assistir aos filmes depois da Mostra?

Para quem não é de São Paulo, é possível conferir alguns dos filmes na itinerância que o Sesc promoverá pelo interior. Entre os dias 9 de novembro e 8 de dezembro, 12 cidades receberão a programação, que conta com 10 filmes: Araraquara, Bauru, Campinas, Jundiaí, Piracicaba, Ribeirão Preto, Rio Preto, Santos, São Carlos, São José dos Campos, Sorocaba e Presidente Prudente.

O Instituto CPFL de Campinas terá sessões simultâneas à programação do evento entre os dias 21 e 30/10, com exceção do dia 25/10. A entrada é franca. 

Além disso, dez filmes que compõem a Mostra também estarão disponíveis na plataforma de streaming Spcine Play. Os títulos escolhidos são Viúva do Silêncio, de Praveen Morchhale, Você Tem a Noite, de Ivan Salatic, Rua do Deserto, 143, de Hassen Ferhani, Hálito Azul e Surdina, ambos de Rodrigo Areias, Oleg, de Juris Kursietis, Uma Colônia, de Geneviève Dulude-de Celles, Apenas 6.5, de Saeed Roustayi, O Carcereiro, de Nima Javidi, e Cartas para Paul Morrissey, de Armand Rovira.

Quem vem para a Mostra?

Dezenas de diretores, atores e produtores, brasileiros e estrangeiros, confirmaram presença no evento. Entre eles, estão Leonardo Sbaraglia e Olivier Assayas (respectivamente ator e diretor de Wasp Network), Willem Dafoe, ator de O Farol, Fernanda Montenegro, Sebastián Borensztein, diretor de A Odisseia dos Tolos, e Juan Minujín, ator de Dois Papas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Na 43.ª edição, Mostra de Cinema São Paulo se mantém na defesa da diversidade

O evento que começa dia 17 apresenta cerca de 300 filmes, entre eles está 'A Vida Invisível', de Karim Aïnouz, indicado para concorrer a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

05 de outubro de 2019 | 18h07

Desde a 35.ª Mostra – há oito anos – nenhum artista brasileiro assinava o cartaz do evento. A escolha de Nina para criar o pôster da 43.ª Mostra não é nem um pouco acidental. Nesses tempos sombrios, em que a grosseria virou norma, a delicadeza da artista parece coisa de outro mundo – de outra era, com certeza. A Mostra realizou no sábado, 5, a coletiva de lançamento da sua edição 2019.

O Espaço da Augusta abrigou a solenidade. Presentes na mesa, autoridades, patrocinadores. Renata de Almeida começou citando os tempos difíceis que o Brasil atravessa. Lá estavam a presidente da Spcine, Laís Bodanzky, o secretário Municipal de Cultura, Alê Youssef, o diretor do Sesc, Danilo Santos de Miranda, etc. Falaram muito em ‘filtros’, ‘resistência’. A Mostra, desde suas origens, durante a ditadura, foi sempre sinônimo de resistência.

O pôster virou uma linda vinheta. “A Mostra é brasileira no DNA”, destacou Renata, citando, além do pôster, o filme de abertura, Wasp Network, de Olivier Assayas, produzido por Rodrigo Teixeira e adaptado do best-seller de Fernando Morais, Os Últimos Soldados da Guerra Fria e o de encerramento, Os Dois Papas, produção internacional dirigida por um brasileiro, Fernando Meirelles. Nunca houve tantos filmes brasileiros na seleção – cerca de 60. “E é uma seleção surpreendentemente forte”, diz Renata, agora é a curadora falando. A Mostra deste ano terá uma parte de sua programação no Teatro Municipal. Laís e Alê destacaram que, em momento algum, a Spcine e a Prefeitura, por meio de sua secretaria da Cultura, tentaram exercer filtros. Toda liberdade à curadoria – a Renata e sua equipe.

A Mostra começa em 17 de outubro e segue até 30. Como ocorre sempre, terá mais uma semana de repescagem. Ao longo de duas semanas, deve apresentar cerca de 300 filmes de 45 países. Serão exibidos em 27 locais, entre salas de cinema, espaços culturais, CEUs e museus espalhados pela cidade de São Paulo, incluindo apresentações gratuitas e ao ar livre. 

O Brasil contempla a maior seleção – 1/5 dos filmes, entre eles A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Karim Aïnouz, premiado em Cannes e indicado pela Academia Brasileira de Cinema para concorrer a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro. Como o longa de Aïnouz, outros 11 filmes indicados por seus países para tentar concorrer ao Oscar integram a programação.

Entre eles – Parasita, do sul-coreano Bong Joon-ho, que venceu a Palma de Ouro em Cannes, e mais títulos que fizeram sensação na Croisette. O Paraíso Deve Ser Aqui, do palestino Elia Suleiman, e Papicha, de Mounia Meddour, da Argélia. Suleiman receberá o Prêmio Humanidades, com que a Mostra honra autores por sua contribuição estética e humanística. Seu amigo, o israelense Amos Gitai – ambos são a prova de que o diálogo é possível no Oriente Médio – receberá o Prêmio Leon Cakoff.

Justamente Gitai e Olivier Assayas serão contemplados com retrospectivas. O israelense lança em São Paulo o livro Em Tempos Como Estes... Correspondências, que reúne cartas escritas por e para sua mãe, Efratia Gitai. E, a par da homenagem à sua mãe, homenageia também o pai, Munio Weinraub, forçado pelos nazistas a abandonar a Alemanha (e a Bauhaus). Gitai fez para ele o filme Lullaby To My Father. Amigo da Mostra, o crítico Rubens Ewald Filho, que morreu em 19 de junho, também será lembrado, e homenageado.

Há de ser uma bela sessão, a de O Mágico de Oz, no Vão Livre do Masp. A jovem Judy Garland vai cantar Over the Rainbow e o público, mais uma vez, será convidado a seguir com ela por aquela estrada de tijolos até o mundo da fantasia. Já na repescagem, em 2 de novembro, os 100 anos do clássico O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Wiene, será lembrado com a projeção do filme com música ao vivo no Ibirapuera.

A Mostra resgata o passado olhando para o futuro. Haverá, no CineSesc, uma programação especial dedicada à VR, realidade virtual. E o 3.º Fórum Mostra promoverá debates e encontros com o objetivo de contribuir para a reflexão sobre o fazer cinematográfico.

 

DESTAQUES DA MOSTRA

Parasita

De Bong Joon-ho. O longa vencedor da Palma de Ouro. Família disfuncional invade a casa de ricaços. O horror, o horror

 

Wasp Network

O filme de abertura. Rodrigo Teixeira produz e Olivier Assayas dirige a adaptação do livro de Fernando Morais sobre os últimos soldados da Guerra Fria

 

Dois Papas

O encerramento. Fernando Meirelles dirige o diálogo ficcional entre os papas Francisco e Bento XV

 

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão

O longa de Karim Aïnouz premiado em Cannes ganha sessão de gala no Teatro Municipal. Fernanda Montenegro merece

 

The Great Green Wall

O manifesto ecológico do produtor Fernando Meirelles

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Artista brasileira Nina Pandolfo assina poster da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Cartaz traz a tradicional menina de olhos grandes, marca dos grafites da artista

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2019 | 11h37

A 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo divulgou, na quinta-feira, 26, o cartaz oficial desta edição, que começa no dia 17 de outubro. Trata-se de uma arte assinada pela artista brasileira Nina Pandolfo, conhecida por pintar universos lúdicos compostos de meninas de olhos grandes e expressivos em grafites nas ruas da cidade e em telas expostas em galerias paulistas e estrangeiras.

Nina optou por destacar a arte do cinema. “Tudo começa na cabeça: as ideias, a parte da cenografia, o ator, quando lê o roteiro, pensa o personagem na cabeça dele. Por isso a cabeça é o centro”, afirma ela, que destaca a diferença nas cores dos olhos (um é azul e outro, vermelho), que simboliza um antigo par de óculos para filmes em 3D. E os balões que saem deles, além de uma casa, remontam a contos e fadas.

“Quando você entra no universo do cinema, é uma viagem, que conduz tanto os criadores quanto quem está assistindo. É a união de várias pessoas, de várias ideias que constroem o universo principal – o filme. Por isso tem essa miscelânea de inspirações”, explica Nina.

A 43ª Mostra acontece em São Paulo entre os dias 17 e 30 de outubro. Nesse ano, além da exibição de filmes em salas tradicionais, acontecerá também no Teatro Municipal, que vai receber três longas brasileiros.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Mostra de Cinema comemoraria 20 anos de parceria com Petrobrás

A responsável pelo evento, Renata Almeida, diz que já sabia do corte de patrocínio anunciado havia 15 dias

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2019 | 03h00

Muito antes que a Petrobrás anunciasse o corte do patrocínio à Mostra de Cinema, a responsável pelo projeto, Renata Almeida, já recebera, há 15 dias, um telefonema sigiloso do novo superintendente da área, anunciando o que iria ocorrer. Ele creditou o fato a "uma mudança de direcionamento da empresa". Renata lamenta porque o vínculo da Mostra com a Petrobrás começou na 23ª edição do evento criado por Leon Cakoff

“Este ano completaríamos 20 anos de parceria. Era bom para a Mostra, mas também era para a Petrobrás. Passei o dia atendendo telefonemas de pessoas que queriam saber se era verdade e diziam que era absurdo, porque o retorno institucional para a empresa era enorme. A Petrobrás nem gastava tanto assim e a Mostra lhe garantia extraordinária exposição de sua marca para um público de cinéfilos que fazia a diferença.”

No ano passado, o aporte financeiro veio da Lei Rouanet. Em outros anos, mas nem sempre, como verba de marketing.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.