Topkapi Films
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O delírio etílico em filme de Thomas Vintenberg

Em ‘Another Round’, diretor coloca um professor em um teste de resistência ao álcool; obra é dedicada à filha do cineasta, Ida, que morreu aos 19 anos em acidente de carro; veja trailer original

Rodrigo Fonseca, Especial para O Estado

03 de janeiro de 2021 | 05h07

No quarto dia de filmagem da dramédia Another Round, num set repleto dos amigos com quem vêm trabalhando desde os tempos do Dogma 95 e do cult Festa de Família (1998), o cineasta dinamarquês Thomas Vinterberg recebeu uma ligação de sua ex-mulher, Maria, que lhe tirou o sorriso e o chão sob os pés: a filha deles, Ida, de 19 anos, morrera, vítima de um acidente de trânsito. Imerso em um projeto que define como “um ensaio sobre a perseverança em meio aos excessos”, o realizador, hoje com 51 anos, pensou em parar tudo, imerso no luto e na lembrança de que um dos papéis principais foi escrito para Ida. Seria a estreia dela nas telas, em uma personagem de peso. Parte do longa-metragem teria cenas rodadas na escola dela, com seus amigos como figurantes.

Parceiro do diretor no sucesso A Caça (2012), o ator Mads Mikkelsen esteve ao lado dele todo tempo e foi a primeira pessoa a ouvi-lo dizer: “Não faz sentido a gente não continuar”. Num encontro com o Estadão durante o 68º Festival de San Sebastián, na Espanha, em setembro do ano passado, Vinterberg explicou que Ida amava aquela história, batizada na Dinamarca de Druk, e disse estar orgulhosa do pai por investir numa trama de volta por cima. “Ali eu percebi que precisava fazer esse filme para a minha filha”, disse ele. A decisão foi acertada e reconhecida com respeito e louros: exibida no encerramento da Mostra de São Paulo, mas inédita em circuito nacional, a produção, chancelada com o logo de Cannes, ganhou onze prêmios desde sua estreia mundial, no Festival de Toronto, há quatro meses, e desponta como possível candidata ao Oscar. E ainda se fala em refilmagem dela nos EUA. 

Sua vitrine primeira seria a Croisette, em maio, mas como a pandemia obrigou Cannes a adiar sua competição de longas-metragens, a carreira de Another Round ficou para o segundo semestre, começando pelo Canadá. Saindo de Toronto, onde colheu sua primeira leva de elogios, a saga do professor de História Martin, que se une a uns amigos num experimento regado a álcool como forma de superar sua frustração, foi ovacionada no Festival de San Sebastián. Saiu de lá com um prêmio coletivo para seus atores: Mikkelsen (que vive Martin), Thomas Bo Larsen, Magnus Millang e Lars Ranthe. No dia 12 de dezembro, veio uma quádrupla vitória para o longa no European Film Awards, o Oscar do Velho Mundo, no qual conquistou os troféus de melhor filme, direção roteiro e ator, para Mikkelsen. 

“Martin encarna um certo vazio na condição humana que a arte investiga não com o empenho de preenchimento, mas como um esforço poético de entendimento e de conforto. Thomas e eu já temos uma estrada longa juntos, mas este era um trabalho em que a gente precisava celebrar a resiliência”, disse Mikkelsen ao Estadão em San Sebastián, em entrevista via Zoom. 

Por conta da covid-19, a participação dele e de seu realizador em muitos eventos vem sendo via Zoom. Vinterberg frisava no papo com o festival espanhol o quanto enxergava Ida em cada minuto do filme. “Meu empenho, em nome dela, era levar adiante uma narrativa capaz de celebrar a vida ao falar da responsabilidade que temos sobre os nossos atos, especialmente sobre os nossos transbordamentos”, disse Vinterberg, lembrando que, apesar de toda a bebedeira em cena, o filme manteve sua equipe sóbria, tratando o alcoolismo com seriedade. “Cada um sabe o limite de si. Como havia um ator ligado ao AA no set, nenhuma bebida foi servida em cena. Seguramos a onda, mesmo quando não parece, vide os movimentos tortos de Mads em cena”. 

Pela Europa afora, a crítica internacional vem sendo unânime ao dizer que Mikkelsen tem um desempenho sublime, indo além de seu talento habitual. Muitas resenhas destacam que o roteiro escrito por Vinterberg e Tobias Lindholm é tão possante quanto a atuação do astro da série Hannibal. No enredo, o historiador Martin (Mikkelsen) vive uma fase de dissabor em sua carreira e em seu casamento, sendo esnobado por seus alunos e por sua mulher. Cobrado pela direção por sua falta de estímulo, ele recebe o apoio dos amigos, que o desafiam a se submeter a uma experiência etílica: testar, na prática, a máxima de que o corpo humano tem uma carência essencial de álcool, precisando de uma dose de bebida diária para funcionar bem. Ele aceita e passa a exceder no vinho, na cerveja e nas formas mais diversas de pinga. A cada gole, ele vai se soltando, crescendo, empoderando-se. Chega a dar aula bêbado. Mas há um limite para a bebida na contenção de seus demônios. “Em A Caça, eu convidei Mads para ser um professor de escola também. Eu gosto desse universo não apenas pela questão da disciplina”, disse Vinterbeg. “Ser professor é um desafio, é um ato heroico. Entrar por esse universo da educação é celebrar a dimensão heroica dos educadores”. 

Tema de uma das sequências mais catárticas da carreira de Mikkelsen, a canção What a Life, gravada por Scarlet Pleasure para o filme, vem viralizando na web desde setembro, ampliando a popularidade de Another Round, que tem estreias confirmadas na Alemanha, no Reino Unido, na Holanda e na Austrália daqui até abril. 

 

 

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