Ayrton Vignola/AE
Ayrton Vignola/AE

O crítico Michel Ciment e o amor aos filmes

Lendário crítico elogia o Cinema Novo e abomina 'Tropa de Elite'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 de outubro de 2010 | 16h25

Michel Ciment elogia o formato ‘democrático’ da escolha do melhor filme da Mostra. O anúncio dos filmes que vão concorrer ao troféu Bandeira Paulista será feito amanhã. Como sempre, a Mostra seleciona os dez preferidos do público e os submete à apreciação do júri internacional. Ciment integra o júri com, entre outros, o cineasta Alan Parker. "Mesmo que a seleção do público tenha sido feita com base numa curadoria, o termômetro do público é importante. Ao longo da história do cinema, muitas vezes o público se antecipou aos críticos na escolha de autores importantes. Foi o caso de (Alfred) Hitchcock, por exemplo."

O repórter aproveita a deixa - com mais de 6 milhões de espectadores, Tropa de Elite 2 converteu-se esta semana no filme mais visto desde a Retomada do cinema brasileiro, em meados dos anos 1990. Ciment conhece o filme de José Padilha. "Vi o primeiro; o segundo, ainda não." E...? "Tropa de Elite representa tudo o que abomino no cinema. Não é só a forma criptofascista como aborda as execuções sumárias. Não gosto como temática nem como método de filmagem." O que o leva a outra espécie de reflexão - "Não gostaria de viver num mundo em que os filmes tivessem de ser escolhidos só pelo público. Nem pelos críticos."

Ele esteve no Brasil há mais de 20 anos, participando, como jurado, do Festival do Rio (o antigo). Sua relação com o País é mais antiga (e visceral). Jovem, nos anos 1960, Ciment testemunhou o nascimento do Cinema Novo e acompanhou os grandes nomes do movimento. Ele amou, desde a primeira hora, Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e Os Fuzis, de Ruy Guerra. Escreveu a apresentação quando a revista Avant-Scène du Cinéma publicou o roteiro de Terra em Transe. Ficou amigo de Cacá Diegues.

Sua trajetória de crítico é indissociável da revista Positif, rival de Cahiers du Cinéma. A outra é mais conhecida. "Não tem nada a ver com qualidade", adverte Ciment. Não que Cahiers não seja importante, mas ele anuncia que vai ser, talvez, méchant (mesquinho?). "Eles amam Cahiers, acima de tudo; nós, em Positif, amamos o cinema." Cahiers sempre submeteu a apreciação dos filmes à teoria. Teve a sua fase católica, a maoista, a lacaniana. Positif não conheceu essas oscilações. É libertária desde as origens, quando os surrealistas (Robert Benayoum, entre outros) integravam a redação.

Qual o melhor filme que Ciment viu recentemente: "Poetry, de Lee Chang-dong." O filme está na Mostra. E o russo Minha Felicidade, de Sergei Loznitsa? "A direção é extraordinária, mas o roteiro..." E Ciment faz cara de quem não gostou muito.

Michel Ciment, A Arte de Partilhar Filmes - Faap - Sexta-feira, 29, 19h. Cine Livraria Cultura 1 - Sábado, 17h20, Unibanco Arteplex 3 - Segunda, 18h10, Unibanco Arteplex 4 - Quarta, 19h40

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