O Cristo de Scorsese em DVD, agora sem polêmica

Garantido pela Constituição Federal o filme A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese, chegou ao Brasil, em 1988, ainda sob o impacto da reação que provocava em todo o mundo. Nos EUA, a igreja protestante chegou a propor à empresa produtora Universal que lhe vendesse o filme. Ofereceu uma fortuna - para destruir o negativo e as cópias. A Universal recusou e A Última Tentação uniu os fundamentalistas de diversas religiões e seitas, todos aliados contra o enfoque que Scorsese dava ao personagem de Jesus Cristo. A estréia em São Paulo provocou a reação irada do então prefeito Jânio Quadros, que recorreu a um estratagema para substituir a nefanda censura que acabara com o regime militar. Para impedir a exibição do filme, ele simplesmente mandou fechar as salas em que a produção deveria estrear. Como fazê-lo? Por meio de uma vistoria radical, invocando falta de condições técnicas e quetais. Jânio teve de voltar atrás, mas criou um circo e transformou a estréia de A Última Tentação num escândalo.Quando o filme foi lançado em vídeo no ano seguinte, ninguém mais se lembrava do escândalo. Não houve piquetes na frente das locadoras, como havia nos cinemas, não houve tentativas de depredação. Nada como o tempo para mostrar que toda censura é sempre burra. O escândalo de ontem em geral não espanta mais hoje e amanhã chegará a ser motivo de chacota. A Última Tentação está sendo lançado em DVD pela Columbia. A empresa perde a chance de lembrar um pouco a guerra contra o filme. Além das tradicionais seleção de cenas e escolha das legendas (até mandarim! até tailandês!), apresenta como único extra o trailer de cinema.É pouco, mas, como sempre, o grande barato do disco digital é a alta qualidade da imagem e do som. E o filme é bom, claro. Scorsese baseou-se num romance do grego Niko Kazantsakis, célebre autor de Zorba, mas o enfoque é dele e do roteirista Paul Schrader. Juntos fizeram Motorista de Táxi e Touro Indomável, com seus personagens torturados pela culpa e pela necessidade de expiação. O Cristo de Scorsese e Schrader é um durão das ruas, que vive nas esquinas perigosas da Judéia. No começo do filme (a primeira meia hora), ele vacila, sem saber direito o que quer da vida, mas quando faz sua escolha vira um general do povo que o diretor, para ser fiel ao quadro histórico e social, faz circular nas encruzilhadas e desertos da Judéia - poderia ser na Nova York atual.Redenção - Ele identifica Deus como a interioridade, o caráter, e o Diabo como as tentações do cotidiano. É um filme sobre o sacrifício e a redenção, fala sobre religião, mas não é ´sobre´ religião. Ela importa tanto para Scorsese quanto a noite de Nova York em Motorista de Táxi, o boxe em Touro Indomável ou a sinuca em A Cor do Dinheiro. Cristo, interpretado por Willem Dafoe, não é muito diferente dos personagens de Robert De Niro e Paul Newman nos filmes citados. No início, ele não consegue identificar seu destino - a luta armada ou a paz? A mulher ou a renúncia?Scorsese possui a fama de ser um autor misógino e talvez seja, mesmo, bastando lembrar as mulheres ameaçadoras de Depois de Horas, que explora o medo do homem da castração, colocando em imagens dignas de pesadelo a fantasia da vagina dentada. A mulher é a matriz do destino que o Cristo de Scorsese forja para ele mesmo. Madalena e a mãe, a prostituta e a Virgem. No momento mais brilhante do filme, Cristo mantém um diálogo apaixonante com Pôncio Pilatos, que os demais épicos sobre Jesus em geral se limitam a mostrar lavando as mãos. Esse diálogo memorável é uma das melhores coisas que Scorsese criou em sua carreira. Não foi o que as pessoas discutiram, há 12, 13 anos. O que foi discutido e virou escândalo é se Cristo, que o dogma da fé dos cristãos (e não apenas os católicos) reconhece como homem cedeu a um impulso humano e dormiu com Maria Madalena. A especulação de Scorsese faz sentido. É fundamental para o seu discurso histórico e teológico, mas foi entendida só como provocação. Ou ´heresia´.Seu Cristo não é ´erótico´, pensando e agindo como homem mas político. O ponto, para Scorsese, é que o personagem percebe que o equívoco da Judéia sob o jugo de Roma não é tanto a idéia da submissão e sim a não revolta, que poderia transformar a Judéia numa alternativa ao império romano. É um filme forte, intenso. Sente-se nele mais a marca do autor do que na cinebiografia que Scorsese fez, a seguir, do Dalai Lama. Kundun, até para ser fiel ao budismo, é muito mais contemplativo. E o melhor é que A Última Tentação vem embalado numa trilha brilhante de Peter Gabriel, que cria um catálogo completo de ´world music´, baseado em ritmos arábicos antigos e contemporâneos, perfeitamente integrados aos cenários e ambientes do Terceiro Mundo que Scorsese usa para situar sua história. Não por acaso, essa trilha saiu em CD com o sugestivo título de Passion. Uma via-crúcis apaixonada e apaixonante como o próprio filme.A Última Tentação de Cristo (The last Temptation of Christ) - EUA, 1988. Direção de Martin Scorsese, com Willem Dafoe. Columbia, R$ 45.

Agencia Estado,

01 de fevereiro de 2001 | 16h14

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