Eric Gaillard/Reuters
Eric Gaillard/Reuters

'O corpo me pedia para arriscar e é um luxo que me dei', reconhece Almodóvar

Em 'A Pele que Habito', diretor dá um salto em sua trajetória para um cinema sóbrio e obscuro

Mateo Sancho Cardiel, EFE

19 de maio de 2011 | 14h42

O imprevisível sempre foi parte de seu universo, mas com A Pele que Habito, Pedro Almodóvar dá um salto em sua trajetória para um cinema sóbrio e obscuro que o posiciona para a tão aguardada Palma de Ouro em Cannes. "O corpo me pedia para arriscar e é um luxo que me dei", justificou o diretor.

Veja também:

documento Filme arriscado e cruel desconcerta

blog Mais sobre Cannes no blog do Merten

mais imagens Veja galeria de fotos do festival 

Almodóvar, sempre com vários projetos em mente, tinha fascinação pela história que se concretizou 10 anos depois que o diretor espanhol lesse "Tarântula", o romance de Thierry Jonquet, na qual o projeto se baseou.

"Via a vertigem no rosto de todas as pessoas em torno do meu 'staff' ao ler o roteiro, mas eu gostei muito e queria fazer este filme. Até agora me deixei levar pelo meu instinto e aqui estou", explica em entrevista à Agência Efe.

O "aqui" é Cannes, festival que participa pela quarta vez e onde tentará finalmente conquistar a Palma de Ouro com o 18º trabalho de sua carreira.

Complexo, perturbador e com inumeráveis reviravoltas no roteiro, o filme vai desvendando a profundidade desses personagens que mudam, literal e figurativamente suas próprias peles.

O filme se centra na "magnitude da vingança de um médico contra quem ele supõe ter estuprado sua filha", disse Almodóvar, que com este projeto se reencontra com Antonio Banderas e que também tem no elenco Elena Anaya, Marisa Paredes e Roberto Álamo.

"Queria que a família do filme fosse muito selvagem, muito independente moralmente falando, que não tivesse tido a mesma educação que qualquer espanhol. Que sua cultura não estivesse baseada no castigo e no pecado como a cultura na qual eu nasci e vivi", disse Almodóvar.

Esse território sem referências de punição é composto por uma mãe "que leva a loucura em suas entranhas" e "dois filhos paralelos que são muito mais loucos que ela, extraordinariamente violentos e amorais", explicou.

Tal imoralidade é o fio narrativo ao qual Almodóvar se agarra com força, reinventado seu cinema e seu antigo ator preferido, Antonio Banderas. "Ser diretor de cinema é o mais parecido com Deus. O privilégio que ele tem de pôr de pé suas fantasias e de que haja uma equipe artística e técnica à sua disposição para torná-las realidade, é o máximo poder que se pode ter", afirmou.

A Pele que Habito é uma "pele nova, artificial, de um novo cultivo" que veste Elena Anaya e que serve a Almodóvar para criar um discurso sobre os perigosos caminhos da ciência e o poder salvador da arte.

A atriz repete com Almodóvar após "Fale com Ela" e explica à Agência Efe a experiência única de "poder construir um personagem desde o interior até a superfície, com muitas camadas, com muitas reviravoltas. É um papel que tem uma ação constante sob sua aparente inatividade. Espera pacientemente uma mínima fenda para que consiga sua libertação", reconhece.

Mas como já fez em Ata-me, os papéis de poder, o jogo erótico e dramático é sumamente ambivalente dentro de uma trama moralmente complexa e que não chegará aos cinemas em setembro.

"Os feitos humanos são muito contraditórios e o que foi uma barbaridade em um momento pode se transformar em um milagre 20 anos depois. Tudo depende do momento e em acreditar que nada é estático nem intocável", explica um cineasta que já em Fale com Ela fez equilibrismos com conceitos tão paradoxais como romantismo e violação.

E assim, Almodóvar dá outro ponto à provocação e se posiciona, apesar do desconcerto que criou com o projeto, como um nome forte para a Palma de Ouro que será entregue no domingo. "Isso não depende de mim", reconhece prudentemente.

Mas obviamente e por sua renovada capacidade de romper moldes, Antonio Banderas quis parabenizá-lo. "É emocionante ver que um homem como Pedro, que pagou um preço alto por criar um código narrativo diferente dos primeiros filmes, depois de tanto tempo reinventar-se e propor algo diferente".

O ator, fetiche de Almodóvar em sua época mais radical, reaparece não por acaso com um personagem "mais maduro, mais econômico, mais 'monotônico' e mais heavy", reconhece em entrevista à Efe, rompendo com a imagem de "simpático e barroco" do ator, em palavras de Almodóvar durante um encontro com um pequeno grupo de jornalistas.

Mas A Pele Que Habito, aproximação minimalista e contida a uma trama absolutamente explosiva, é também para Almodóvar um exercício de nudez.

"A austeridade do filme é para mim uma das grandes novidades. Fui o mais austero que poderia ser", concluiu um diretor cuja pele, diz, está "com ferimentos mais ou menos cicatrizados" mas que "o que não quer é ser nostálgico".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.