Reuters
Reuters

‘O Corcunda de Notre Dame’ faz 25 anos: filme com conteúdo impróprio recebeu classificação livre

Como o sistema de classificação indicativa deixou passar as canções recheadas de luxúria e maldição? 'Talvez nós os tenhamos enganado com as gárgulas', disse um cineasta

Sarah Bahr, The New York Times

25 de junho de 2021 | 20h00

Eles sabem exatamente como se safaram.

“Esse é o filme com classificação livre e mais conteúdo impróprio para menores que você vai ver na vida”, disse Tab Murphy, roteirista da animação da Disney O Corcunda de Notre Dame, que completa 25 anos de lançamento neste mês.

“Milhares de dólares devem ter mudado de mãos em algum lugar, tenho certeza”, brincou Gary Trousdale, que dirigiu o filme com Kirk Wise.

Independentemente de como tenha sido, uma comissão de classificação formada por pais decidiu que um filme com um número musical sobre luxúria e o fogo do inferno, além de uma trama que envolve a ameaça de genocídio contra os ciganos era apropriado para o público em geral.



Talvez o motivo tenha a ver com o estúdio: quase todos os filmes de animação desenhados à mão da Disney foram classificados como adequados a todas as idades até aquele ponto. Talvez tenha sido o marketing, que apresentou o O Corcunda de Notre Dame como algo diferente do romance sombrio de Victor Hugo, no qual se baseou, vendendo-o como uma celebração com o subtítulo Junte-se à festa!. Talvez os chefes da Disney tenham exercido pressão, convencidos de que uma classificação diferente que alertasse quanto a presença de material inadequado para crianças pequenas prejudicaria a bilheteria. (“Ou conseguiam uma classificação livre ou seria um fracasso”, disse Wise.)

Mas o fato de que o filme de animação possivelmente mais sombrio da Disney tenha recebido uma classificação igual a de Cinderela reflete a subjetividade do sistema de classificação - e o tanto que os filtros dos pais mudaram ao longo dos anos.

“A classificação que atualmente pede a presença de um responsável para que a criança possa ver um filme equivale à classificação livre dos anos 1990”, disse Wise.

Trousdale acrescentou: “Hoje em dia, você não pode nem fumar em um filme de classificação livre.”

Mas uma cena em particular desafia qualquer explicação.

“Aquela sequência de Fogo do Inferno?”, lembra Murphy, referindo-se à canção de Stephen Schwartz-Alan Menken cantada pelo juiz Claude Frollo sobre seu conflito entre a piedade e o desejo por Esmeralda. "Fala sério, cara. Não dá."

Murphy há muito queria adaptar a história gótica de Esmeralda, de 1831, uma bela cigana que captura os corações de vários homens parisienses, entre eles Quasimodo, um tocador de sinos com uma acentuada corcunda que Hugo descreve como "horrível" e "um demônio em forma de homem."

Mas então ele percebeu no que estava se metendo.

“Eu estava tipo, 'Ah, meu Deus, eu não quero escrever um filme com canto, dança e temática suavizada que transforma esta incrível peça da literatura mundial em um típico filme da Disney’”, disse ele.

Mas, afirmou, foi graças aos executivos da Walt Disney Co. na época, Roy E. Disney e Michael D. Eisner, que eles adotaram uma abordagem menos comedida.

“Nunca me disseram para evitar isso ou aquilo ou você não pode fazer isso”, afirmou. “Eles disseram algo como: ‘Você escreve a história que quer contar e deixa com a gente a preocupação com a nossa marca’”.

Sem dúvida, o romance de Hugo, no qual muitos personagens principais morrem no final, era “deprimente demais” para um filme da Disney. Então Murphy teve que ser criativo.

Ele decidiu que a história focaria no colorido mundo de fantasia que Quasimodo imagina enquanto está preso em sua torre do sino. Haveria um festival. Gárgulas falantes. E um herói para receber nossa torcida.

Em vez de Quasimodo ser chicoteado no pelourinho, ele é atacado com vegetais e humilhado no "Festival dos Tolos". O problemático arquidiácono de Hugo, Claude Frollo, tornou-se um magistrado do mal. A Disney não queria enfrentar a igreja, disse Trousdale. Ao contrário do que acontece no romance, Esmeralda é salva por Quasimodo e o valente Febus, o capitão rebelde da guarda. Todos os três vivem felizes para sempre em vez de morrer, como acontece com Quasimodo e Esmeralda no livro.

Mas, disse Wise, sempre havia uma questão pairando ameaçadoramente com a qual eles tinham que lidar: a luxúria de Frollo por Esmeralda.

“Sabíamos que seria um assunto muito delicado”, disse. “Mas também sabíamos que tínhamos que contar essa história, porque ela é importante para as relações amorosas dos personagens centrais.

 


No início, Murphy tentou resolver o problema com palavras.

“Originalmente, tinha escrito um monólogo para aquela cena que estava repleto de mensagens implícitas mostrando que sua raiva era toda relacionada ao seu desejo proibido por ela”, disse Murphy.  “Mas, depois, Stephen e Alan disseram: ‘Achamos que isso pode dar uma ótima música’”.

Seis meses depois, um pequeno pacote de Schwartz, que escreveu a letra, e Menken, que compôs a trilha, chegou ao Walt Disney Studios em Burbank, Califórnia. Dentro dele havia uma fita cassete com uma nova canção.

Murphy, Trousdale, Wise e Don Hahn, o produtor do filme, reuniram-se em um escritório, colocaram a fita em um toca-fitas e deram o play nela - e se deram conta do que estavam ouvindo.

Em um excepcional número de percussão, Frollo, apoiado por um coro cantando em latim, agoniza com sua luxúria, sua fé religiosa e seu ódio pelos ciganos.

“Este desejo ardente” (a versão dublada no Brasil adotou “Desejo eterno”), ele canta no filme, esfregando o lenço dela sensualmente contra o rosto, “está me levando ao pecado” (na versão dublada brasileira escuta-se “do mal é o estopim”). (Schwartz cantou essa parte na fita demo.)

“Juro por Deus, o queixo de todos começou a cair lentamente”, disse Murphy. “No final da música, Kirk esticou o braço, desligou o toca-fitas, recostou-se na cadeira, cruzou os braços e disse: ‘Bem, isso nunca vai entrar no filme’. E entrou!”

Embora nunca tenha sido declarado explicitamente, Wise disse que a expectativa era que o filme recebesse uma classificação livre.

“O estúdio sentiu que qualquer restrição ameaçaria a bilheteria do filme”, disse. “Isso foi antes de Shrek ou filmes que tornaram comum as animações apresentarem alguma restrição na classificação indicativa.”

Um filme adequado para todas as idades, de acordo com o sistema da Motion Picture Association of America, lançado em 1968, “não contém nada de temas, nudez, sexo, violência ou outros assuntos que, na opinião do Rating Board (conselho que decide a classificação etária dos filmes), ofenderiam pais cujos filhos mais novos assistem a ele”. Alguns trechos de linguagem, diz o sistema, “podem exceder uma conversa educada, mas devem ser expressões comuns do dia a dia”.

“Nunca pensamos que conseguiríamos escapar impunes da expressão ‘fogo do inferno’”, disse Trousdale.

O primeiro corte de O Corcunda de Notre Dame de fato não passou no teste para receber a classificação livre - mas não foi o uso das palavras "inferno" ou "condenação" que não agradou ao sistema.

Foram os efeitos sonoros.

Na cena de Fogo do Inferno, imaginada como uma sequência alucinógena e com tons de pesadelo, Frollo é atormentado por figuras encapuzadas em vestes vermelhas que refletem sua perda de controle sobre a realidade.

“Este desejo ardente”, ele canta, olhando para uma figura dançante de Esmeralda em sua lareira, “está me levando ao pecado”.

O conselho de classificação ficou desconfortável com a palavra “pecado”, disse Trousdale. Mas a sequência já estava animada e a trilha sonora gravada, portanto não foi possível alterar a letra.

Então Hahn veio com uma solução: deixe o som de quando os juízes encapuzados surgem do chão um pouco mais alto para abafar a palavra "pecado". Funcionou, disse Trousdale.

Mas o que finalmente deu ao filme sua classificação livre, disse Wise, foi uma mudança tão insignificante que “você nunca vai acreditar nisso”.

Na cena em que Frollo chega de fininho por trás de Esmeralda e cheira seu cabelo, o conselho de classificação achou que o ato era “muito insinuante”, disse ele.

“Eles meio que pediram, ‘Vocês poderiam diminuir o volume disso?’”, afirmou. “E nós fizemos isso e o filme conseguiu a classificação livre.”

Nem os pôsteres ou os trailers sugeriam os temas mais sombrios.

“Sem dúvida, houve um esforço enooorme para enfatizar os aspectos alegres de O Corcunda de Notre Dame', disse Menken, rindo.

E o subtítulo do filme? "Junte-se à festa!"

“Talvez essa tenha sido a campanha certa para o estúdio levar as pessoas aos cinemas”, disse Hahn. “Mas tenho certeza de que não faria isso hoje - acho que há uma responsabilidade pela verdade na publicidade que talvez tenhamos negligenciado naquela época.”

Quando o filme, que custou US$ 70 milhões para ser feito, antes das ações de marketing, estreou em 21 de junho de 1996, a recepção foi um pouco decepcionante nas bilheterias, arrecadando cerca de US$ 100,1 milhões nos Estados Unidos. Trousdale disse que eles receberam certa reação negativa dos grupos de pais em relação à classificação livre.

“Eles diziam 'Vocês nos enganaram; vocês nos iludiram '”, afirmou.  “O marketing era todo baseado naquela coisa feliz e ‘Venha para o Festival dos Tolos; é uma festa!’ com gárgulas falantes, confetes e tortas na cara. E, depois, aquele não era o filme, e as pessoas ficaram muito irritadas. ”

Tom Zigo, porta-voz da Classification and Rating Administration, que administra o sistema de classificação de filmes, disse que não poderia se pronunciar a respeito da classificação livre para O Corcunda de Notre Dame, mas que era “muito possível” que um filme classificado há 25 anos recebesse uma classificação diferente hoje.

Hahn, Menken, Murphy, Trousdale e Wise concordaram que não haveria chance do filme receber uma classificação livre hoje - ou mesmo, sugeriu Murphy, de ele ser feito.

“A Disney estava disposta a correr certos riscos com aquele filme que eu acho que ela não estaria hoje”, disse. “Para mim, esse é um filme inadequado para menores de 13 anos.”

Apesar disso, o filme resistiu ao longo dos anos e continua sendo importante - Frollo, observou Wise, parece  um vilão “muito contemporâneo” na era #MeToo (movimento contra assédio e agressão sexual) - e o favorito entre os jovens adultos que o assistem novamente e descobrem referências que deixaram passar na primeira vez que o viram.

“Eu li postagens em páginas de fãs de algumas pessoas na casa de seus 20 e 30 anos que eram muito jovens quando viram o filme”, disse Trousdale. “Elas eram mais ou menos assim, ‘Sim, o filme me deixou confuso quando o assisti criança, mas continuo adorando ele’”.

Menken disse que Fogo do Inferno testou mais limites em termos do que a Disney faz do que qualquer música que ele já escreveu.

“Talvez, olhando para trás, O Corcunda de Notre Dame tenha sido um passo arriscado demais”, disse ele. "Mas, meu Deus, como sou grato por eles terem feito isso."


TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.