AP Photo/Jacques Brinon
AP Photo/Jacques Brinon

O compromisso dos irmãos Dardenne com questões atuais está em ‘Dois Dias, Uma Noite’

Filme estreia em salas brasileiras nesta quinta-feira, 5

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

05 de fevereiro de 2015 | 03h00

É o melhor filme recente dos irmãos Dardenne – talvez seja o melhor filme deles. Dois Dias, Uma Noite. O repórter, que se encontrou com os irmãos diretores em Cannes, no ano passado, repete a informação ao telefone para Jean-Pierre (Luc não estava no escritório). Jean-Pierre admite – “Não vou dizer que é o melhor, mas é um filme com o qual estamos particularmente satisfeitos.” E ele revela – “Gostaríamos muito de ir ao Oscar para ver Marion (Cotillard) brilhar, mas depende do distribuidor norte-americano. Ainda não sabemos se haverá lugar para todo mundo.”

Na Croisette, em maio passado, os Dardennes já haviam contado a origem de Dois Dias, Uma Noite, que estreia nesta quinta-feira, 5,  nos cinemas brasileiros. “Havíamos coproduzido Ferrugem e Osso, de Jacques Audiard, também com Marion. As conversas com eles foram muito produtivas. De todas as partes, surgiu o desejo de trabalharmos juntos. Tínhamos um projeto que parecia muito interessante para fazer com ela, sobre uma mulher médica. Mas aí deu o clique. Há muitos anos, mais de dez, havíamos escrito esse filme sobre uma mulher em vias de ser demitida, que bate de porta em porta dos seus colegas de fábrica, pedindo que votem por sua permanência no emprego. Marion virou um símbolo do glamour à francesa. Descobrimos sua humanidade, sua garra. E retomamos a personagem de Sandra, no que virou Dois Dias, Uma Noite.”

Não foi só a participação da atriz que viabilizou o projeto. “No limite, é um filme sobre o voto, e naquele momento não creio que teríamos assumido o trabalho como agora. Não que não acreditássemos nisso, mas o mundo mudou muito nos últimos anos. A Europa tem saído às ruas para protestar – por empregos, transformações sociais. O filme ficou muito mais forte, mais atual.” 

Como sempre, os Dardennes ensaiaram com os atores, antes de filmar. “É o nosso método. É importante que eles assimilem os personagens, os diálogos. O que tem de mudar, muda nessa fase.” Uma cena, entre muitas outras, é admirável. Sandra/Marion conversa com o marido sob uma árvore. Ouve-se o trinar de um pássaro. De repente, o assunto também é a ave. Os Dardennes filmam em plano-sequência. Em nenhum momento, deslocam a câmera para mostrar o pássaro.

“Há muito tempo que o nosso método consiste em usar o digital e filmar longos planos-sequência. A continuidade favorece a interiorização dos personagens pelos atores. Marion gostava desses planos longos, e nem precisava repetir muito. Era sempre perfeita, ou quase sempre. No caso do pássaro, o diálogo estava completamente escrito, mas não havia pássaro nenhum no set. Nossa ideia era vê-lo (o pássaro) por meio dos olhos de Marion. Se o mostrássemos, teria sido um plano trucado. Não é o que nos interessa fazer”, sublinha Jean-Pierre.

O assunto não é só o filme deles, mas também os que os Dardennes vêm produzindo. Agora mesmo, está em cartaz nos cinemas brasileiros, e com grande aceitação de público, A Família Bélier. “Quero dizer que não somos produtores, mas coprodutores ou produtores associados. Filmamos em Seraing, perto de Liège, onde temos a produtora. Era uma cidade operária, de mineradores e siderúrgicos, mas as usinas foram fechando. Nossa pequena indústria ajuda a manter o nível de emprego.”

E tem mais – “É bom produzirmos filmes diferentes dos nossos. O cinema é um meio popular e sua força sempre esteve na diversidade. Não seria interessante fazermos os nossos filmes e criar uma usina de diretores para ficar investindo na mesma linha de cinema. Tenho a impressão que se trata de uma experiência de mão dupla. Ferrugem e Osso nos trouxe Marion, A Família Bélier nos encorajou a sermos mais livres em questões de humor e gênero. Há um elemento de melodrama que teríamos evitado, sendo mais secos. Não creio que fizemos concessões, mas a simples presença de Marion favorece a empatia com um público maior. De repente, um filme que ficou na gaveta e que parecia que nunca seria feito, virou nosso maior sucesso na Inglaterra, na Espanha, nos Estados Unidos. E isso é muito bom. Sentir que estamos comunicando, sem deixar de abordar as questões humanas e sociais que sempre nos interessaram.”

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