"O Círculo" de Panahi chega a São Paulo

Há uma imagem que aparece no começo e no fim de O Círculo, do iraniano Jafar Panahi, vencedor do Festival de Veneza do ano passado. Trata-se de uma portinhola que se abre e se fecha, separando dois mundos. Num caso, um hospital, noutro, uma prisão. No primeiro, uma mulher aguarda ansiosa o parto de sua filha. Recebe a notícia de que o bebê é do sexo feminino como se fosse a anunciação de uma desgraça. No segundo, é a prisão, para onde mulheres condenadas, que haviam escapado, são remetidas, após curta temporada em liberdade.Liberdade, aqui, deveria ser grafada entre aspas. Porque o que nos diz Panahi é que não há propriamente liberdade para quem é do sexo feminino em seu país. Há a avó que se desespera ao saber que ganhou uma neta. Comenta que sua filha agora será abandonada pelo marido, pois a família dele contava com um garoto. Há as três prisioneiras que saem para o mundo exterior. Uma descobre que não pode se locomover livremente se não estiver acompanhada de um homem. Outra é expulsa da casa do pai porque praticou um aborto. Outra testemunha, horrorizada, uma mãe que tenta abandonar a filha na rua, porque não poderá criá-la naquele tipo de sociedade. Ou seja, um inferno. Uma cena reúne na mesma seqüência dramática uma prostituta, uma fugitiva da prisão, uma mulher comum, uma criança. Todas igualadas na opressão.O Círculo é um forte libelo, mas não apenas isso. Panahi, de quem já se conhecia o excelente Balão Branco, é um mestre na concisão narrativa. Com um tema desses nas mãos, outro cineasta teria feito um filme mais barroco, por assim dizer. Poderia cair no panfleto, o que, dadas as circunstâncias reais, não seria nada descabido. No entanto, Panahi se conserva seco, rigoroso, lúcido. Atitude que não faz mais que aumentar o poder de denúncia deste belo e duro filme.

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