O cinema será mais democrático, diz Nichola Bruce

A Palma de Ouro que Lars Von Trier ganhou no Festival de Cannes com Dançando no Escuro provou que a tecnologia digital já integra o mundo do cinema. E num lugar de destaque. A diretora inglesa Nichola Bruce veio ao Rio para apresentar seu primeiro longa-metragem, Eu Poderia Ler o Céu, na mostra Via Digital, e participar de um seminário sobre as mudanças provocadas pela inserção das novas tecnologias no mercado cinematográfico. O público do Festival do Rio BR pôde conferir neste domingo o resultado do trabalho da cineasta. Seu filme já foi selecionado para o festival de Toronto e o festival de Berlim. Nichola Bruce falou ao Estadao.com.br sobre seu filme e sobre a nova técnica que, ela acredita, possa propiciar o nascimento de "coisas novas" no cinema. E diz não compreender o medo dos tradicionalistas.Eu poderia Ler o Céu é todo narrado em primeira pessoa. Uma continuidade no estilo de Nichola, que constantemente filma como se fizesse um diário pessoal. É um passeio pela memória de um homem velho e solitário que conta sobre sua vida na Inglaterra e Irlanda. Ele vai relembrando como as pessoas foram saindo de sua vida, seus irmãos, sua mulher. São imagens sobrepostas, uma múltipla fusão das cenas que povoam o inconsciente do personagem. A autora vai até o limite das possibilidades da nova técnica e, além das fusões, usa vários recursos de manipulação da imagem. O resultado é um filme que marca pela estética - o relato do homem acaba sendo "vencido" por ela - e Nichola Bruce monta, em planos detalhados e fechados, uma grande costura de imagens de texturas distintas, como o fogo, o ar, a terra, o céu, o corpo humano. Os efeitos podem ser uma novidade, mas dificilmente o espectador seria capaz de diferenciar a imagem digital da boa e velha película.A aceitação das tecnologias digitais no cinema vem crescendo, tanto na Europa quanto fora dela? Nichola Bruce - Acredito que sim, pois acho que a tecnologia digital vai democratizar o cinema. Vamos ver histórias que normalmente não veríamos. Isso vai significar muito maior interatividade, porque cada um vai ser capaz de fazer o seu filme. Isso é algo tremendo!Isso não terminaria com algumas características do cinema, aproximando-o demais da televisão?Não tenho esses medos que alguns mostram com a redução da atividade de contar histórias. Acho que não importa a tecnologia usada. Eu gosto de grandes filmes como qualquer um. Mas não acredito que, por ser em formato digital, as narrativas sejam menos profundas. Ao contrário, podem surgir coisas novas. A tecnologia serve para ajudar as nossas vidas, mas não substitui as nossas habilidades. Tecnologia não é um monstro, através dela podemos ter novas visões e novas linguagens, o que vai fazer muito bem a todos, pois hoje estamos parados em termos de linguagem.É mais fácil comercializar um filme digital?Para mim, o mais importante é que faço o meu filme e o coloco disponível aos outros da forma que eu quero. Isso é uma outra forma de experimentar o cinema. É uma liberação.O que se ouve sempre é que fazer filmes é extremamente difícil. Com a tecnologia digital, ainda é tão difícil?Sempre é difícil contar uma história, mas há uma diferença básica: na tecnologia de 35mm as pessoas têm que submeter seus roteiros a avaliações daqueles que detêm o poder. Isso é um pouco complexo. Muitas grandes idéias, aí sim, se reduzem. Conheço muitos jovens cineastas que têm bonitas histórias para contar, mas não conseguem espaço. Isso vai mudar agora. Muitas novas vozes surgirão, não há mais desculpa para alguém não fazer o filme que sempre quis.Mas há festivais para a produção em digital? Como esses filmes são vistos?Está começando, mas vai ser diferente, porque o futuro reserva métodos muito interativos. Os filmes digitais não são necessariamente parecidos com o cinema como nós conhecemos. Não há festivais, mas grandes encontros informais para trocar experiências e ver filmes.Essa revolução trazida pela tecnologia digital vale também para o cinema do terceiro mundo, especialmente o da América Latina?Eu acredito numa mudança muito grande, que vai democratizar o cinema. Vamos ver energias inteiramente diferentes e inacreditáveis vozes novas. Não restrinjo isso a quem já está fazendo filmes digitais, mas a experiência se abre para todos. Sempre que se fala em novas tecnologias, alguém proclama que as mudanças vão ser muito rápidas. Com o cinema, vai ser rápido?Você pode contar a sua história em dias, em semanas, ou, como é o meu caso, passar anos preparando um filme. Cada um vai poder determinar o tempo que acha melhor para realizar seu filme. Vai haver grupos de filmes feitos rapidamente, e outros mais elaborados, que demorarão mais para ficar prontos. Talvez o status desses filmes seja diferente. O mais importante é que um filme poderá ser feito com menos que 20 mil dólares. Meu filme, por exemplo, é muito barato.Isso significa o fim dos filmes milionários?Não. Creio que o cinema esteja passando pelo mesmo processo que a pintura. A pintura clássica não acabou por causa da pintura abstrata. O cinema industrial vai continuar, mas não será o único. Os critérios de julgamento dos novos filmes não será o que é bom ou ruim, mas o que for bom para quem estiver vendo aquilo, será elevado a um terceiro grau de julgamento.Já é possível identificar estilos dentro do cinema digital?Acho que dentro de uns três ou quatro anos isso será possível. Hoje temos em produção mais ou menos 20 filmes. Em quatro anos, espero termos centenas já feitos. Vai acontecer algo parecido com a música. Há anos atrás era difícil se gravar qualquer coisa, a indústria era fechada e por isso muitos talentos se perdiam. Hoje, está mais fácil e mais barato, o que abriu as portas para bandas de garagem, etc. Se a indústria tolerar essa transformação, acho que teremos algo de maravilhoso acontecendo.E você acha que a indústria vai aceitar essa concorrência ou será forçada a aceitar?Acho que têm que aceitar, porque já usam efeitos digitais à vontade, fazem quase tudo digital! Eles são a prova da qualidade que se pode pôr na tela com imagens digitais, além de ser possível mostrar com muito mais realismo imagens de fora da Terra e outras coisas da imaginação. Isso é maior liberdade.

Agencia Estado,

09 de outubro de 2000 | 20h21

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