O cinema pelo olhar de Peter Kubelka

Há quase uma semana em São Paulo, odiretor austríaco Peter Kubelka exercita seu português para asérie de palestras e exibições que começa amanhã no CentroCultural Banco do Brasil. Kubelka está sendo trazido à cidadepela Associação Cultural Babushka. Carlos Adriano, o maisimportante diretor de vanguarda do País, e Bernardo Vorobow nãoapenas fazem a curadoria do evento. Eles também aproveitam paralançar o livro Peter Kubelka - A Essência do Cinema. Peter quem? Você não é obrigado a conhecer Kubelka,mesmo sendo cinéfilo de carteirinha. Os filmes do autor sãoexclusividade de poucos. Carlos Adriano e Vorobow esperammultiplicar por uns quantos esses poucos. Para isso, o públicotem de se abrir para o novo e o ousado. Em quase 50 anos decarreira, Kubelka produziu curtas experimentais que totalizam umpouco menos de 50 minutos. É toda a sua obra. Um minuto por ano,o que dá a idéia do alto grau de exigência que caracteriza aobra do artista. Vale contar uma historinha. Kubelka levou a própria mãepara ver um de seus curtas, Arnulf Rainer. Foi uma encomenda dopróprio pintor, amigo do cineasta. Ninguém que já tenha ouvidofalar de Kubelka - referência obrigatória nos ensaios e livrossobre a vanguarda cinematográfica - esperaria dele algoconvencional sobre Arnulf Rainer. O que ele propõe, de qualquermaneira, é muito audacioso: durante seis minutos, a tela ficaora branca, vazia, ou então completamente escura. Não existemimagens, sejam figurativas ou não. Apenas essa alternância doclaro-escuro, que evolui ritmicamente, com acompanhamentosonoro. A história que vale contar é a seguinte: diante do filme a mãe de Kubelka exclamou: "Meu filho, o projetor enguiçou!"Você até pode, num primeiro momento, dar razão à mãe do diretor,mas isso seria privar-se de conhecer um artistainternacionalmente reconhecido (e admirado) por suas pesquisas.Mais ainda: seria privar-se de conhecer o próprio Kubelka, queintervém nas projeções para conversar com o público e debatersuas idéias. Desde que foi contatado por Carlos Adriano eVorobow para a realização do ciclo e do livro, Kubelka dispôs-sea aprender a falar português - ou ´brasileiro´, como ele chama - justamente para esses encontros com o público paulistano. Carlos Adriano, o diretor de Remanescências e AVoz e o Vazio, não hesita em apontar o evento sobre Kubelkacomo o mais importante que ocorre no País, em matéria de cinema,em muitos anos. Carlos Adriano destaca que a curta duração daobra kubelkiana é inversamente proporcional à revolução e àorginalidade que esses filmes representam para a arte do cinema."Suas fascinantes manifestações sobre a essência do cinema e acomparação entre as artes há décadas arrebatam as platéias detodo o mundo, que têm o privilégio de participar dessesdebates-projeções", diz Carlos Adriano. Kubelka não é exatamente performático, pelo menos nosentido que se costuma atribuir à palavra. Mas ele não deixa depropor uma performance, inclusive paramentando-se para tal.Kubelka veste o que chama de seu ´uniforme´: um conjunto decalça e colete pretos, com camisa branca. Parece um funcionário- burguês e tranqüilo. Na verdade, é um artista que faz cinemapara mudar o mundo. "O artista que não usa sua arte comoinstrumento para mudar o mundo não é digno da definição deartista", ele diz. Filho de um músico e de uma amante da literatura,Kubelka admite que as preferências artísticas dos pais foramdecisivas para ele. A música foi e ainda é sua principal fontede referência. Schoenberg? "Não, Bach", ele responde - astocatas e fugas. Kubelka não fez sua opção pela vanguarda. Foicondenado a trabalhar na ponta do experimentalismo depois queseu primeiro filme, Mosaik im Vertrauen, de 1954-55, provocouescândalo em Viena. "Chegaram a me agredir fisicamente", eleconta. E não foi porque afrontasse, com esse filme, tabussociais e mesmo sexuais. O escândalo veio da forma que Kubelkautilizou para colocar na tela o seu ´mosaico confidencial´.Marginalizado pela indústria de cinema da Áustria, que não chegaa ser uma grande indústria, acrescente-se, só restou ao diretorpermanecer na vanguarda. Defensor do que chama de ´desespecialização´, Kubelka,ainda segundo Carlos Adriano, expande, com seus filmesrevolucionários e pensamentos provocadores, a experiênciairredutível do cinema para outras esferas: música, poesia,pintura, antropologia e até cozinha. No domingo, no CCBB, elevai fazer uma apresentação especial para explicar, na prática,sua metáfora da cozinha como arte e o que isso tem a ver comcinema. Os títulos que serão exibidos no evento organizam-se emprogramas: O Cinema Métrico - A Presença Material do Cinema,O Cinema Metafórico - A Linguagem do Cinema, Cozinha eOutras Artes e Todos os Filmes de Peter Kubelka. A essesse somam dois filmes muito especiais: Entuziasm, umararidade de Dziga Vertov que o próprio Kubelka restaurou, e acópia integral de L´Age d´Or, de Luis Buñuel, que ele considera"o primeiro monumento de metáforas entre som e imagem". O ideal de sala de cinema de Kubelka é um útero que sejaacolhedor para o público. Sua relação com o cinema é erótica (etátil): ele gosta de tocar os filmes. Monta-os sem outro recursoque não as mãos. Avid e as novas tecnologias, nem sonhar. ParaKubelka, a unidade básica do cinema não é o plano, mas ofotograma, que é um quadro fixo, daí a sua recusa da noção docinema como ´movimento´. O curioso é que ele não se deixouseduzir pelo canto da sereia do digital. Para Kubelka, o cinemaé celulóide, que ele garante que não vai morrer.Serviço - Peter Kubelka - A Essência do Cinema. Até o dia 15 no CentroCultural Banco do Brasil (Rua Álvares Penteado, 112). Amanhã, às19 horas, O Cinema Métrico. Projeção e debate com o autor. PeterKubelka: a Essência do Cinema. Livro de Carlos Adriano eBernardo Vorobow. À venda no CCBB, R$ 30.

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