O cinema nunca contou uma história de escravidão como a de '12 anos'

Olhos que guardam indignação e dor dominam a tela no longa de Steve McQueen

Luiz Carlos Merten,

19 de fevereiro de 2014 | 22h30

São dois filmes completamente diferentes que estreiam, mas em 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen, como em Robocop, de José Padilha, os diretores dedicam longos planos aos olhos de seus personagens. Padilha dá um rosto a seu tira biônico, que na versão de Paul Verhoeven era só uma boca numa armadura. McQueen filma durante três minutos o rosto de Chiwetel Ejiofor. Seus olhos, e o vinco entre eles, signo de indignação e dor, dominam a tela. Embora não seja o filme com maior número de indicações para o prêmio da Academia de Hollywood, 12 Anos é a grande aposta do Oscar de 2014.

 

 

 

 

No final, pode até ser que não ganhe. O jornal USA Today sustenta que está havendo uma polarização entre os filmes de McQueen e David O. Russel (Trapaça) e isso poderá favorecer Gravidade, de Alfonso Cuarón, que seria, é, mais consensual. Tudo isso são conjeturas, e o importante é que o filme que estreia amanhã chega na cola de obras recentes que também têm contado a história da escravidão na ‘América’ – Django Livre, de Quentin Tarantino, Lincoln, de Steven Spielberg, O Mordomo da Casa Branca, de Lee Daniels, etc.

Steve McQueen, homônimo do astro dos anos 1960 e 70, é negro. Tendo surgido nas artes visuais, virou cineasta, e forte. Há tempos sonhava com a história de um negro liberto que voltaria a ser vendido como escravo. Era o tipo de situação real que lhe interessava, e com base na realidade, mas ele não sabia como estruturar o roteiro. E aí, sua mulher, a historiadora e crítica de arte cultural Bianca Stigter, descobriu o livro de Salomon Northup, em que ele conta seus 12 anos de escravidão.

No início, é um homem liberto, um violinista. Faz uma apresentação, sai para comemorar e acorda acorrentado. O cinema contou muitas histórias sobre escravidão e escravos, mas nenhuma como essa. 12 Anos propõe coisas que você vai ver pela primeira vez na tela – a higiene dos negros nus, a leitura que o mestre faz da Bíblia, e na qual se encontram os fundamentos da sua situação. Outras, você já viu, mas nunca combinadas com as anteriores, e compondo um bestiário de horror – flagelações, violações. O tráfico sexual entre a casa grande e a senzala já foi mostrado de forma romântica por Raoul Walsh em Comprei Uma Escrava, na segunda metade dos anos 1950, e de forma mais brutal por Richard Fleischer em Mandingo, nos 70. Como diretor/autor de filmes, McQueen tem sido um cronista do corpo – a fome em Hunger, o sexo em Shame, o corpo e suas manifestações não apenas o atraem como são seu material.

Por mais que a história de Salomon seja um pesadelo, não foi a descida aos infernos que McQueen quis contar. Ela está associada a uma outra coisa, que lhe interessava mais. O filme começa com uma inversão – a perda da liberdade – e prossegue com a história de sua reconquista. Porque tudo o que Salomon faz é para recuperar a liberdade e a dignidade. É como desvendar um segredo de Polichinelo dizer que isso ocorre, pois a história foi contada pelo próprio Salomon (e o livro, acompanhando o lançamento do filme, também está saindo no Brasil). Assim como filma os olhos de Chiwetel, McQueen filma sua mãos. Da delicadeza do violino à rudeza do trabalho na plantação e à carta que ele escreve com sua petição, as mãos de Chiwetel/Salomon são instrumentos dessa trajetória de reconstrução e reerguimento. Como artista visual, em sua série Queen and Country, sobre a Guerra do Iraque, McQueen já dera testemunho – de provocação e grandeza. De humanidade. Os filmes anteriores, incluindo os curtas, eram mais experimentais. Esse é mais clássico. O mais acessível? O importante é que está à altura do tema.

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