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O cinema maldito de Leos Carax em dois filmes

Realizados nos anos 80, 'Boy Meets Girl' e 'Sangue Ruim' chegam enfim às telas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

09 de janeiro de 2014 | 20h30

Na entrevista que deu ao repórter no Rio, quando veio apresentar Holy Motors, Leos Carax comentou a parceria com Denis Lavant. Lembrou que tinha 24 anos quando fizeram o primeiro longa, Boy Meets Girl. E já naquela época ele fez de Lavant o seu alter ego. "Fiz com que ele perdesse na ficção a mulher por quem estava apaixonado na vida real, a atriz Mireille Perrier." Leos Carax é um desses autores que escapam a classificações. Virou objeto de culto, mas está longe de ser uma unanimidade. Tem gente que até hoje se pergunta o que ele quis dizer com Holy Motors? Carax poderia fazer suas as palavras de Wim Wenders. Cinema não é para entender, é para sentir.

Agradeça à Pandora Filmes, que promove hoje a estreia dos dois primeiros longas de Carax, que ele fez com Lavant, em 1984 e 87. Boy Meets Girl, com Mireille Perrier, e Sangue Ruim, com Juliette Binoche (por quem ele também era apaixonado na época). Os dois foram remasterizados e serão exibidos em cópias digitais que foram supervisionadas pelo próprio diretor. Há 30 anos, quando surgiu Garoto Encontra Garota - o mais velho tema do mundo -, Walter Salles saudou a descoberta de Carax como sendo a de um grande cineasta. Antecipou nele o futuro do cinema.

Alex Christophe Dupont é seu nome, mas ele adotou o pseudônimo de Alex Carax e, se lhe interessa saber, Carax é um anagrama de Oscar. Pertencente à geração de Jean Jacques Beineix e Luc Besson, Carax foi integrado com eles num bloco que os críticos chamaram de neorrealista. A pós-modernidade seria o elo comum, mas Carax, com o tempo, revelou-se mais denso, menos palatável. E nunca parou de surpreender. Besson virou diretor e produtor comercial, Beineix teve hiatos tão grandes na carreira que, às vezes, ela parece parada. Só Carax persevera no estranhamento.

Com Os Amantes do Pont Neuf, também com Lavant e Juliette Binoche, fechou a trilogia de Alex. Apesar do nome igual, Lavant interpreta personagens diferentes em cada um deles. Vieram depois Pola X, com sua cena de sexo explícito (e uma poderosa atuação de Guillaume Depardieu) e Holy Motors, que desconcertou o público e os críticos. O Carax da trilogia e de Pola X investiga o casal no mundo moderno, o de Holy Motors vai ao limite para expor a insanidade do mundo moderno. E sempre, em todos os seus filmes, o cinema, a linguagem, não é só uma ferramenta. É a própria razão de ser.

Boy Meets Girl é sobre um pretendente a cineasta que leva o fora da namorada - que o troca pelo melhor amigo - e, em crise, vaga pela cidade enquanto espera a hora de partir para o Exército. Mauvais Sang, Sangue Ruim, é a história de um casal jovem sobre um fundo de criminalidade. Em 1987, os críticos viam o sangue ruim como metáfora não só da vida criminosa como da aids, que virara o pesadelo daqueles dias. Carax, ex-crítico, paga seu tributo à Nouvelle Vague, o movimento de transformação do cinema francês no fim dos anos 1950. Em especial, o filme é cheio de referências a Jean-Luc Godard, que o jovem Carax considerava seu profeta. Mais tarde, ele descobriu que não queria ser influenciado por ninguém, preferindo seguir uma via original.

Talvez, para permitir que o público avalie integralmente o cinema segundo Carax, a Pandora devesse trazer os demais filmes do autor. É um cineasta interessado no casal moderno, no que aproxima e afasta as pessoas. E ele ousa - jogou todo o prestígio que adquirira com os dois primeiros filmes (Boy Meets Girl ganhou o Prêmio da Juventude em Cannes) para conseguir que os produtores bancassem Os Amantes do Pont Neuf. Para narrar a historia do casal sem-teto que vive e se ama nos bancos do Pont Neuf, sobre o Sena, Carax fez construir o maior cenário já montado no cinema francês. Saiu caro e o fracasso do filme - cuja produção se estendeu por mais de ano - sedimentou a reputação de maldito de Carax. A provocação - o sexo explícito - de Pola X e logo o episódio Merda de Tokyo!, filme coletivo, fizeram dele o mais excêntrico dos autores franceses. Existem críticos que acham que ele é louquinho como seus personagens. Mas é bom demais, e intrigante.

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