O cinema e o horror da guerra do Vietnã

O cinema e o horror da guerra do Vietnã

'A Outra face da Violência' (1977), dirigido por John Flynn, está chegando em DVD e Blu-Ray na Europa e nos EUA

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

22 Setembro 2015 | 18h35

Foram anos de contestação. Jane la Rouge, Jane Fonda, participava de protestos contra a Guerra do Vietnã e, em toda a 'América', a juventude cerrava fileiras e negava-se ao sacrifício nos combates violentos que se travavam no Sudeste Asiático. A guerra, tratada metaforicamente por Robert Aldrich no poderoso Assim Nascem os Heróis - o filme não era sobre o Vietnã, mas a floresta onde Michael Caine e seu pelotão combatiam não poderia ser mais 'vietnamita' -, veio para a tela. Em 1978, a Academia outorgou o Oscar a filmes que, finalmente, escancaravam todo o horror do envolvimento no distante Vietnã.

Por isso época, os gongos da paz já haviam sido soados graças ao acordo de paz costurado por Henry Kissinger e assinado em Paris. Kissinger, que Jane Fonda e Candice Bergen tratavam como criminoso de guerra, foi o conselheiro de Richard Nixon, antes da renúncia, que convenceu o então presidente de que a guerra não era mais rentável, perdão, viável. Em Amargo Regresso, de Hal Ashby, Jane, casada com o falcão Bruce Dern, descobre o prazer sexual com o veterano Jon Voight, que voltou da guerra na cadeira de rodas. Jane e Voight foram melhores atores do ano. O Franco-Atirador, de Michael Cimino, foi o melhor filme - e também levou melhor diretor, montagem e ator coadjuvante (Christopher Walken). As vidas de três metalúrgicos da Pensilvânia, antes, durante e depois de sua experiência no Vietnã. Caçam veados (os animais), não sabem nada da guerra. No Vietnã, são feitos prisioneiros pelos vietcongues e conhecem o inferno. O inimigo os submete à tortura da roleta russa. Christopher Walken enlouquece e, com a vida destruída, participa de outras roletas russas após ser libertado - por esporte ou ganha-pão. John Savage volta paralítico para casa e Robert De Niro, que perdeu todas as esperanças, parece um zumbi.

De Niro tem cenas de despedaçar com Meryl Streep, que faz a namorada de Chris Walken. No final, todos cantam God Bless America, mas o que Cimino quer que a gente sinta é outra coisa. Não há esperança para os EUA, não são uma terra abençoada. Os homens são brutos alienados que a direção trata com condescendência. Os orientais são monstros. Muitos críticos discutem, até hoje se o filme é racista, ou não. Na época, fez sensação. Cimino foi considerado gênio, mas a aura que ganhou aqui ele perdeu, a seguir, no megalomaníaco western Portal do Paraíso, que levou a empresa United Artists à falência e praticamente acabou com sua carreira. Cimino não filma há quase 20 anos. Existem, rumores de que está voltando ao set para filmar, com coprodução francesa, o monumental romance A Condição Humana, de Andre Malraux.

É bom lembrar tudo isso porque O Franco-Atirador será exibido na TV paga, às 6h desta quarta, 23 (teve outra exibição na tarde desta terça). No ano seguinte, Francis Ford Coppola ganhou a Palma de Ouro em Cannes com outro filme grande, Apocalypse Now. Coppola criou cenas poderosas - o ataque de helicópteros ao som da Cavalgada das Valquírias -, mas ele próprio enlouqueceu durante a filmagem, que foi tumultuada. Sua mulher, Eleanor Coppola, fez um documentário - O Apocalipse de Um Cineasta - mostrando como a megalomania do marido elevou o filme a custos estratosféricos que se refletiram na vida do casal. Elaine Showalter escreveu um texto para mostrar um aspecto mais cruel da produção. Para abrigar os milhares de integrantes da equipe, foi criada uma cidade artificial. Mulheres e crianças prostituíam-se, a droga, o pó, corria solto. O verdadeiro inferno do Vietnã, é Elaine quem diz, foi a filmagem de Apocalipse Now.

Em 1980, um grande diretor australiano, Ted Kotcheff, fez Programado para Matar, colocando Sylvester Stallone, que já fizera Rocky, na pele de um veterano do Vietnã, Rambo, que enlouquece numa pequena cidade e trava uma batalha particular com o xerife. As duas faces da mesma moeda, o machismo norte-americano. E Rambo, usando o manual de sobrevivência da selva, destrói, metaforicamente, o xerife e a 'América'. O personagem, que nasceu crítico, foi incorporado pelo cinemão - pelo sistema - e em Rambo, a Missão, de George Pan Cosmatos, Stallone voltou ao Vietnã para vencer, na ficção, a guerra que os EUA haviam perdido na realidade.

A todas essas, um dos mais secretos filmes sobre o Vietnã, anterior a O Franco-Atirador e Amargo Regresso, está sendo redescoberto em DVD e Blu-Ray na Europa e nos EUA. Sempre houve um culto a Rolling Thunder, de John Flynn, de 1977, lançado no Brasil como A Outra face da Violência. Flynn, que foi assistente de Robert Wise, antecipou a vertente de Ted Kotcheff. Seu roteiro foi escrito por Paul Schrader, que depois o renegou, dizendo que o diretor o havia desvirtuado. Schrader, parceiro de Martin Scorsese e calvinista convicto, certamente esperava a condescendência de um Cimino. Foi atropelado pela brutalidade de Flynn.

William Devane faz o veterano que volta tão traumatizado do Vietnã que se encerra no próprio mutismo. Mas seu isolamento rompe-se quando um bando selvagem invade sua casa, estupra e mata sua mulher e ainda arranca sua mão. Obcecado por vingança, Devane coloca um gancho e pega em armas com o também veterano Tommy Lee Jones. Empregando o que aprenderam no Exército - viraram máquinas de matar - promovem um banho de sangue. William Friedkin, Don Siegel e Sam Peckinpah foram, alguns dos cultores que, na época, defenderam o filme de Flynn.

Sacerdote do culto, Quentin Tarantino gosta tanto do filme que chegou a chamar sua produtora de Rolling Thunder. Mas nem Tarantino conseguiu retirar do seu exílio a sexy atriz de Flynn, Linda Haynes. Traumatizada pela experiência do filme, ela desistiu do cinemas e não houve proposta, nem a de Tarantino, que a convencesse a voltar.

 

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